Começou por ser uma carta privada, mas já é considerado um conflito diplomático. O presidente mexicano López Obrador enviou uma carta ao papa Francisco e ao rei de Espanha, Filipe VI, afirmando ser urgente que Espanha “reconheça e peça perdão” por abusos cometidos em território mexicano durante a conquista do país, no século XVI. A carta, inicialmente privada, acabou por ser tornada pública e reforçada com declarações do presidente do México. Espanha não gostou e acusa o México de avaliar acontecimentos do século XVI a partir de “considerações contemporâneas”.

Em comunicado, publicado na noite passada e divulgado pelo jornal El Mundo, o governo espanhol opôs-se também “com firmeza” ao conteúdo da carta de López Obrador, lamentando “profundamente” que esta tenha sido tornada pública. O presidente mexicano, no entanto, insistiu na sua posição através de um vídeo em que diz que “a chamada Conquista, ou descobrimento, ou encontro entre mundos ou culturas, foi na realidade uma invasão”.

Cometeram-se muitos atos arbitrários aos povos da nossa América”, apontou ainda Obrador, reconhecendo que o tema é “muito polémico” mas que “é preciso que se faça um relato dos prejuízos e que se peça perdão aos povos originários da América pelas violações do que hoje chamamos direitos humanos.

Em terras americanas foram cometidas “matanças e imposições”, apontou ainda o chefe de Estado sul-americano, citado pelo El Mundo. “A chamada conquista fez-se com a espada e com a cruz, as igrejas edificaram-se por cima dos templos indígenas”, referiu ainda o presidente do México, que afirmou ter como grande objetivo uma reconciliação entre povos, embora seja preciso “pedir perdão”.

A carta do presidente mexicano foi escrita apenas dois meses depois de Pedro Sánchez visitar López Obrador no México. O primeiro-ministro espanhol e socialista foi inclusivamente o primeiro chefe de um Governo estrangeiro a visitar o novo chefe de Estado mexicano, que tomou posse a 1 de dezembro do ano passado.

Este conflito diplomático pode mesmo colocar em risco as iniciativas já planeadas de celebração dos 500 anos da descoberta da região (posteriormente conquistada) por uma expedição marítima espanhola, liderada pelo navegador Hernán Cortés.

O conflito — verbal e institucional — com o México é o segundo incidente diplomático de Espanha com outro país relativamente ao período dos Descobrimentos, em apenas três meses. O primeiro foi com Portugal. Em janeiro deste ano, o governo espanhol pediu satisfações depois de Portugal ter apresentado uma candidatura à UNESCO que pedia o reconhecimento da primeira viagem à volta do mundo por via marítima, feita por uma expedição liderada por Fernão Magalhães, como património da Humanidade. A viagem foi financiada pela coroa espanhola, depois de o rei português,  D. Manuel I, ter recusado financiar a viagem. Os dois países decidiram, contudo, avançar com uma candidatura conjunta.