Em teoria a mudança foi pequena, mas a verdade é que nada está como dantes: o célebre restaurante Belcanto, em Lisboa, a casa principal do chef José Avillez que tem duas estrelas Michelin, mudou-se para a porta ao lado, o espaço onde antes morava o restaurante Largo.

Aquilo que pode parecer uma simples mudança na morada é uma reviravolta de 180 graus naquele que foi o primeiro bi-estrelado da Capital. “Este espaço tem mais uns 150 metros quadrados, estamos a falar de mais 12 lugares [no total passa a ter 45, quase o dobro do que tinha anteriormente], uma sala privada, mesa do chef com capacidade para mais pessoas e ainda uma zona de cozinha bastante espaçosa”, explica o cozinheiro sentado num dos enormes assentos acolchoados da nova sala de refeições.

O Observador foi conhecer os novos cantos da casa poucos dias depois de ter aberto, de tal forma que enquanto decorria a conversa com o cozinheiro, uma equipa de três homens ia pendurando quadros na parede — três, no total, cada um com fotografias tiradas pelo pai de Avillez onde se vê a sua mesa de cabeceira, as suas mãos e a praia do Guincho.

Pormenores da sala de refeições do novo Belcanto. ©Diogo Lopes/Observador

“O que motivou a mudança foi a necessidade de ter mais espaço e mais dignidade arquitetónica”, revelou. José Avillez adorava o Belcanto anterior, tinha lá “imensas lembranças” e o restaurante existia ali desde 1958, tendo anteriormente pertencido ao padrinho do chef e a várias pessoas conhecidas suas. Contudo, assim que o vizinho do lado ficou disponível, o chef decidiu agir: “Convenceu-me a arquitetura, que sempre achei muito bonita, e a proximidade, claro. Não queríamos mudar completamente de sítio, nem fazia sentido. O maior número de metros quadrados também era algo muito positivo”, conta. O edifício em questão foi poiso do chef Miguel Castro Silva, em tempos, e era um antigo mosteiro (a igreja continua a ser a proprietária do imóvel e foi com eles que o chef tratou do trespasse). Aliás, a zona onde agora estão as mesas do Belcanto era uma área com um pé direito “imenso” e umas abóbadas “imponentes”.

No total foram precisos “quatro ou cinco meses” de obras para transformar aquilo que o chef descreve como parecendo “um estaleiro” naquilo onde hoje já se pode passar três horas ou mais a comer. “Fechámos cinco dias e a ideia era que ao fim desse tempo abríssemos logo na nova localização. Acabámos por não conseguir e, como já tínhamos 36 reservas, tivemos de servi-las ainda no espaço antigo — já estava tudo desmontado, tivemos de arrumar tudo outra vez. Assim que esse serviço terminou ficámos a noite toda a fazer a mudança. No dia seguinte já servimos o almoço no espaço novo”, relata.

O projeto desta remodelação foi completamente dirigido pelo Studio Astolfi, que já trabalhou com o chef em variadíssimos projetos, e nele impera a simplicidade e os tons neutros. “A ideia era deixar o espaço falar por si e dar uma sensação aconchegante num espaço enorme”, conta Avillez. Agora quando se entra há uma espécie de átrio onde somos recebidos por uma hostess. A zona de refeições abraça este lobby e criando uma espécie de um “U” com a abertura virada para a porta de entrada. Há uma sala privada no andar de cima, uma espécie de mezzanine, e dentro da cozinha (que ocupa quase metade do imóvel) fica a mesa do chef, também ela em forma de “U” e com capacidade para oito pessoas. A área de cozinha aumentou em 60 metros quadrados e no que diz respeito ao staff contam-se mais três pessoas na sala e uma na cozinha (outras duas chegarão em breve, garante o cozinheiro).

As mesas (à esq.) e a cozinha (na dir.) do renovado duas estrelas lisboeta. ©Diogo Lopes /Observador

Muitas vezes estas mudanças são efetuadas com as estrelas Michelin em mente, a terceira no caso do Belcanto. Apesar de manter os pés na terra, José Avillez recusa ser “hipócrita” e dizer que não pensa nisso. “Esta mudança deu-se muito perto da data em que o guia é impresso, não será este ano que ganharemos uma terceira estrela mas estaremos cá, com força, para quando isso acontecer — que vai acontecer”, afirma.

Resta dizer que ainda não há planos para o que vai acontecer nas quatro paredes que ficaram para trás. O “antigo” Belcanto está neste momento a ser utilizado como zona de arrumações onde ficam “arcas de maturação” e outros equipamentos de cozinha. O chef revela que ainda têm oito anos de contrato de aluguer por isso é muito provável que ali acabe por nascer qualquer coisa. É esperar para ver.

Belcanto
Rua de Serpa Pinto, 10A, Lisboa
De terça-feira a sábado, das 12h30 às 13h30 e das 18h30 às 20h30
Reservas aqui
180€ (preço médio por pessoa)

Artigo atualizado às 16h37 de 31 de maio