José Sócrates deverá responder esta quinta-feira por escrito às perguntas da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos (CGD). Mas esta quarta-feira a TVI avançou com algumas das respostas do antigo primeiro-ministro, em que Sócrates explica o que descreve como as “verdadeiras razões” que levaram à demissão de Campos e Cunha do cargo de ministro das Finanças que ocupou durante apenas quatro meses em 2005.

“É chegada a hora de responder às provocações desse Senhor e às mentiras que ao longo dos anos foi espalhando em público…e contar a verdadeira história da sua demissão”, escreveu o antigo primeiro-ministro, citado pela TVI. Segundo José Sócrates, as razões para a saída de Campos e Cunha não tiveram a ver com as discordâncias com programas de investimentos prioritários nem com administração da CGD, mas sim com a Lei Um Terço, uma lei que determina que os funcionários públicos aposentados mas a trabalhar passavam a ter de escolher entre um terço do salário e a totalidade da pensão ou vice-versa.

O então ministro das Finanças discordava desta lei, mas acabou por aprová-la. “O ministro estava justamente nessa situação (tinha uma reforma do Banco de Portugal). Esta foi a verdadeira razão da sua saída…razão essa que é conhecida por todos os que estavam no governo na altura”, escreveu José Sócrates nas respostas citadas pela TVI, em que desmentiu também qualquer pressão para mudar a administração da CGD e nomear Carlos Santos Ferreira e Armando Vara..

Finalmente quero desmenti-lo. Não é verdade que alguma vez tenha pressionado para mudar a Administração da Caixa Geral de Depósitos. Isso nunca passou de uma miserável falsidade e de uma pobre e lamentável encenação para justificar a sua saída do Governo”, justificou José Sócrates.

Esta resposta contraria o testemunho dado por Campos e Cunha já na primeira comissão de inquérito à recapitalização da Caixa em 2017, quando este afirmou ter sido pressionado por Sócrates para afastar a administração do banco público. Esta aliás não é a primeira vez que os dois trocam acusações e desmentidos a propósito deste tema.

Segundo José Sócrates foi o próprio ex-ministro das Finanças a querer substituir o então presidente Vítor Martins. “Dei-lhe carta branca, nunca lhe sugeri nenhum nome. O que aconteceu foi que o Ministério das Finanças não fez nada. A situação da instituição apodrecia. Vários membros do governo chamaram à atenção. É a isso que o antigo ministro chama maliciosamente “pressões”, explicou o antigo primeiro-ministro.

Já Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças que veio a seguir e que logo demitiu a administração da Caixa, assegurou no Parlamento nunca ter sido pressionado por Sócrates na escolha dos gestores, tendo aliás referido que o então primeiro-ministro o alertou para o “ruído político” que causaria a nomeação de Armando Vara, ex-dirigente socialista para o banco do Estado.

Este é apenas um dos temas tratados nas respostas que o ex-primeiro-ministro quis que fossem divulgadas antes de serem enviadas à comissão de inquérito, porque também as mais de 80 perguntas que lhe foram dirigidas foram tornadas públicas antes de as receber. A TVI só revela uma parte destas respostas, para já, sendo que uma das mais de 80 perguntas a Sócrates — feita pelo PSD — é a de se recebeu dinheiro do BES/GES, Grupo Lena e Vale do Lobo.