Rádio Observador

Super Bock Super Rock

Phoenix e Kaytranada tentaram salvar a noite no SBSR e ainda assim não chegou

Depois da uma enchente na véspera, o segundo dia de concertos teve bem menos público. Phoenix e Kaytranada (no palco principal) e Capitão Fausto e FKJ (no secundário) não chegaram para lotar o SBSR.

Os franceses Phoenix eram os cabeças de cartaz do segundo dia do Super Bock Super Rock

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

O Meco foi a última paragem dos Phoenix antes do regresso a casa. Foi no Super Bock Super Rock, na Herdade do Cabeço da Flauta, que o grupo francês terminou a digressão, ainda de apresentação do último disco, Ti Amo, escrito a letras fluorescentes no fundo do palco. O cansaço devia ser grande, mas a banda de Thomas Mars não deixou que se notasse. É que no concerto desta sexta-feira não faltou energia, tão grande que contagiou com facilidade a multidão que parece ter aparecido só para os ver. “Obrigada por serem tantos”, agradeceu Mars, e com razão. O recinto do festival esteve a menos do que meio gás durante grande parte do dia, cenário que só se alterou alguns minutos antes da subida ao palco dos Phoenix.

[O público e o ambiente no segundo dia do festival Super Bock Super Rock:]

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

O alinhamento incluiu temas novos e, para delícia dos fãs, todos os grandes êxitos da banda. “Lisztomania”, tema de abertura de Wolfgang Amadeus Phoenix, disco que é ainda hoje considerado a grande obra-prima da banda de Versailles, surgiu logo no início, como que a avisar o que se ia seguir. “1901” apareceu também, mas mais para o meio. Foi, contudo, “If I Ever Feel Better”, do primeiro álbum, que arrancou o maior coro ao público. “Rome” foi dedicado a um “amigo” que morreu há pouco tempo — Philippe Zdar, “um génio” que produziu alguns dos álbuns dos Phoenix.

Já em tempo de despedidas, na reta final de um concerto sem falhas, Mars desceu do palco e deixou-se cair nos braços de os fãs, que o carregaram de um lado para o outro, elevando-o no ar e passando-lhe os copos cheios de cerveja. Enquanto a restante banda tocava, o vocalista foi “nadando” de um lado para o outro até que regressou ao ponto de partida — o palco. Os Phoenix saíram como entraram — de rompante — e deixaram para trás um corpo dançante de fãs rendidos e sedentos por mais. Presença assídua nos festivais portugueses, não demorará muito até que os franceses regressem a Portugal.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Kaytranada serviu “um novo bounce

Se os Phoenix cumpriram os serviços mínimos exigidos a um cabeça de cartaz, dando um concerto mais eficiente do que memorável (o suficiente para galvanizar os fãs, insuficiente para arrebatar uma multidão como Lana Del Rey na véspera), coube ao DJ e produtor musical Kaytranada encerrar a noite.

Nascido no Haiti, foi no Canadá que Kaytranada se fez homem e artista e foi em Montreal que impulsionou uma cena musical que tem crescido de ano para ano durante esta década. Quando se fala em produtores de batidas que misturam hip-hop, soul eletrónica e house music (aquela desenvolvida em Chicago, espiritual e com ligações estreitas com a história da música negra americana), criando uma fórmula híbrida que soando vanguardista consegue manter-se popular, o nome dele tem de vir à baila. Há uma mão cheia de anos que a Internet pedia a estreia de Kaytranada em Portugal. O pedido foi satisfeito esta sexta-feira e justificou-se: a atuação quase salvou o segundo dia de concertos na ponta final.

No escuro, com iluminação parca a incidir sobre o mini palanque que era a sua cabine de som, Kaytranada retirou o foco de si (não houve confettis nem bolos atirados à plateia, como acontecia regularmente com DJs celebridades pop como Steve Aoki) para o colocar na música que disparava nas colunas e nas projeções de vídeo e luz que adicionavam ao espetáculo um efeito visual.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Ao longo da atuação, o canadiano serviu um misto de soul music sensual e moderna (o chamado novo R&B) com hip-hop e house expondo no ecrã verdadeiras frases slogan como “neo soul”, “from the basement to the floors” e “a new bounce”. Não é arrogância, é saber: há mesmo um novo balanço que Kaytranada trouxe ao mundo, notório quando coloca Rihanna a cantar “Kiss It Better” sobre batidas instrumentais alucinantes, evidente quando misturam um conjunto de vozes essenciais da nova música urbana do seu continente doseando-lhes o açúcar e acrescentando-lhes uma polifonia de ritmos clubbing. A reação foi boa: quem esperou por ele no palco Super Bock depois da atuação dos Phoenix e quem seguiu em sua direção a correr (“já começou!”, ouvimos de um grupo de maratonistas festivaleiros) vindo do palco EDP, onde FKJ acabara de atuar, mostrou agrado com dança.

Tivesse o palco principal tido uma programação mais pujante neste segundo dia de concertos — os Shame e Christine and the Queens apelaram aos indies, mas não à mobilização popular e não foram os Phoenix, de seguida, a conciliar relevância artística com engenho para cativar uma grande multidão — e Kaytranada teria sido um corolário festivo de uma grande noite. Assim, foi o consolo possível para quem antes se refugiara no palco EDP para ouvir os Capitão Fausto e o francês FKJ.

Calexico e Iron & Wine levaram o Super Bock Super Rock para a montanha

Foram precisos quase 15 anos até que Sam Beam, o homem por detrás do projeto Iron & Wine, se voltasse a reunir com os Calexico, o coletivo liderado por Joey Burns e John Convertino. Os músicos juntaram-se pela primeira vez em 2005, quando editaram o EP In the Reins. Apesar de terem continuado a colaborar nos álbuns uns dos outros nos anos seguintes, foi só em 2019 que finalmente lançaram um novo álbum — o primeiro longa-duração, Years to Burn. O concerto desta sexta-feira no Super Bock Super Rock, no Meco, contou naturalmente com temas do disco saído em junho. “Father Mountain” encaixou na perfeição numa atuação que tinha as poucas árvores da Herdade do Cabeço da Flauta como pano de fundo. Ali, à sombra do Palco EDP, quase que parecia que estávamos na floresta, embalados num final de tarde de verão pelo folk envolvente que Calexico e Iron & Wine criaram.

Demasiado cedo (18h30) e num dia onde se esperava uma menor afluência, o público foi talvez reduzido para aquilo que os músicos norte-americanos mereciam e parecia estar mais entretido a conversar do que a prestar atenção aos acordes melodiosos que saíam da guitarra de Beam. Claro que isso não incomodou quem estava em palco (assim como a fuga repentina de espectadores para o palco principal onde iam atua os enérgicos Shame), e os Calexico e Iron & Wine não pararam de atirar canções bonitas, “novas e velhas”, do início ao fim do concerto. Foi um belo final de tarde no Meco.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Os coros extra que se ouviram na enchente dos Capitão Fausto

Se os Calexico e Iron & Wine mereciam mais gente do que a que tiveram no palco EDP ao fim da tarde, já depois de uma atuação dos nortenhos Corona, despretensioso grupo (mas para levar muito a sério) de hip-hop satírico e bairrista, os Capitão Fausto tiveram lotação a abarrotar. Uns minutos depois do início do concerto parecia já quase impossível ter mais gente na zona relvada colocada no topo norte do recinto do festival,  junto à entrada principal.

Não surpreende a afluência ao concerto da banda portuguesa que depois de convencer os indies (timidamente com o álbum jovial Gazela, em definitivo com o disco Pesar o Sol), ganhou estatuto pop desde Têm os Dias Contados, álbum de 2016. O que surpreende é terem sido remetidos para o palco secundário, quando caíam tão bem, precisamente àquela hora, inicio de noite, no palco principal do festival. O público mostrou isso, preterindo a interessante mas ainda pouco conhecida em Portugal Christine and the Queens, que sucedeu aos Shame no grande palco do Super Bock Super Rock, pelo concerto dos portugueses.

Tudo se conjugava para que os Capitão Fausto dessem, este ano, mais um concerto de confirmação de relevância nacional num grande palco de um festival. Afinal, juntam a um passado com pergaminhos — que inclui um concerto em nome próprio no Coliseu dos Recreios e uma atuação no antigo Pavilhão Atlântico, quando este festival tinha morada no Parque das Nações, em Lisboa — novidades por mostrar em palco, nomeadamente um disco novo lançado este ano, A Invenção do Dia Claro.

A despromoção do palco principal para o palco secundário do Super Bock Super Rock teve contudo efeitos benéficos. Se o concerto foi uma súmula best-of dos vários álbuns já editados, com as melhores canções resgatadas a cada trabalho discográfico, os Capitão Fausto apresentaram-se descontraídos, estendendo canções com longos momentos instrumentais de quem não tinha a pressão de estádio em cima. O público que acorreu em massa cantou quase todos os temas verso a verso, das novas “Sempre Bem” , “Lentamente”, “Boa Memória” e “Amor, a Nossa Vida” (“isto é a canção portuguesa mais bonita deste século”, ouvimos ao lado) a “Morro na Praia” e à belíssima “Corazón”, talvez o melhor tema do disco anterior, chegando-se mesmo a incursões pelo rock mais antigo de “Maneiras Más”, “Febre” e “Verdade”.

O baixista Domingos Coimbra serviu de porta-voz da banda e expôs o estado de espírito dos cinco capitães: “É um prazer para nós estar de volta ao Meco. Há sete anos estava aqui com os meus amigos e outros amigos num acampamento chamado Gazela, que veio a dar nome ao nosso primeiro álbum [“mítico”, acrescentava o vocalista Tomás Wallenstein]. O primeiro concerto que demos no Super Bock Super Rock no Meco foi o primeiro grande concerto que demos na vida. Obrigado a todos por estarem aqui connosco, um grande abraço para todos”. No fim do concerto, já depois das canções apoiadas pelos coros na plateia — que parecia estar com vontade de ficar ali a ouvi-los mais uma hora —, Tomás Wallenstein corroborava os agradecimentos: “Meus queridos, obrigado a todos por estarem aí. São lindos”.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Dança morna com Charlotte Gainsbourg, comunhão coletiva com FKJ

Assim que os Capitão Fausto terminaram de atuar, deu-se uma debandada. Para muitos era hora de jantar (um jantar tardio, mas o verão e o pop-rock tropical tira a fome), para outros era altura de irem espreitar outros palcos. Quando Charlotte Gainsbourg, filha de Serge e Jane Birkin, começou a atuação, o espaço à sua frente estava razoavelmente composto, mas longe da enchente que os Capitão Fausto tiveram.

Charlotte tem pinta de menina com dote para a música, voz frágil e fininha (talvez demais) apoiada por um outra vocalista e pose discreta, tanto que só se levantou do teclado passando a cantar de pé (aqui e ali tocando guitarra) quando os fotógrafos estavam já de saída. Revendo o repertório de carreira numa atuação em que teve poucos holofotes sobre si (estavam mais iluminados os portais colocados em cima do palco), com natural destaque para os temas de Rest, o seu mais recente álbum, foi quando recuou bem atrás até 2009 para cantar “Heaven Can Wait”, gravado com Beck, que elevou o nível do concerto que deu com a banda que habitualmente a acompanha.

A filha de Serge Gainsbourg até nasceu no Reino Unido, mas as raízes francesas são notórias naquela pop eletrónica que vai buscar ritmo dançante ao french touch (o movimento de música de dança do país que originou os AIR ou os Daft Punk) mas que a envolve numa intimidade cançonetista mais clássica. O concerto foi competente, pondo muita gente a dançar languidamente as suas canções, mas não foi brilhante nem memorável. Nem o final com a polémica “Lemon Incest”, que gravou com o pai ainda menina e chocou meia França, salvou uma atuação assim-assim, melhor do que o que se ouve seu em registo estúdio mas apesar disso algo morno.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Bem mais impacto teve a atuação de FKJ, acrónimo do nome artístico French Kiwi Juice que o músico francês Vincent Fenton escolheu para se revelar musicalmente. Não foi exatamente um concerto convencional, este de estreia de FKJ em Portugal. As vozes pré-gravadas, somadas a alguns ritmos que disparava com recurso a eletrónica, não foram recriadas no Meco, mas também não tinham de o ser.

Lembrando quase uns Orelha Negra pela forma como usa e transforma em palco sons já gravados adicionando-lhes instrumentação, FKJ, mais limitado do que o grupo português de Sam the Kid pelo número bem reduzido de músicos (era mesmo só ele em palco), foi tocando tudo e mais alguma coisa para acrescentar dinâmica à atuação. Conseguiu. Tocando de piano a sintetizador, saxofone e guitarras (tinha várias penduradas atrás de si, andando constantemente num tira-uma-saca-outra), deu novas texturas às batidas eletrónicas jazzística e bem dispostas que convidam à dança veranil.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

FKJ é um fenómeno enorme na Internet e teve à sua frente uma boa fatia do público que se deslocou esta sexta-feira à Herdade do Cabeço da Flauta. Quando se despediu com o êxito digital “Tadow”, que colocou o seu nome nas bocas do mundo e que muitos espectadores do Super Bock Super Rock sabiam de cor, assegurou uma saída em grande. Acabou a prometer voltar.

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