Nos últimos dias vários militantes do PSD receberam chamadas de uma empresa sondagens de Aveiro, a Multidados, com perguntas sobre o nível de notoriedade de potenciais candidatos à sucessão de Rui Rio e sobre quem preferem para presidente, incluindo o atual líder, após as eleições legislativas de 6 de outubro. O contacto deixou dezenas de militantes indignados, segundo relatos que chegaram ao Observador, por os seus dados de militância estarem na posse de uma empresa e alguns fizeram mesmo queixa ao secretário-geral do PSD. A direção de Rio demarca-se e José Silvano admite, em declarações ao Observador, apresentar queixa na Comissão de Proteção de Dados caso perceba que a empresa se apropriou indevidamente de informações de militantes. Já a Multidados garante que tudo foi feito nos termos lei.

Tudo começou quando militantes do PSD começaram esta semana a ser contactados pela Multidados para responderem a uma sondagem sobre a liderança do partido. As perguntas pediam uma avaliação sobre a liderança de Rui Rio e perguntavam depois aos militantes se conheciam os potenciais sucessores e que credibilidade lhes atribuíam. Da lista faziam parte Miguel Morgado, Luís Montenegro, Miguel Pinto Luz, Jorge Moreira da Silva e Pedro Duarte. Depois, chegava a questão: “Qual prefere para liderar o partido depois de 6 outubro?”

Diogo Carvalho, militante há 10 anos, conta ao Observador que quando recebeu a chamada “achou logo estranho” o facto de lhe terem dito do outro lado da linha que a sondagem era dirigida a “militantes do PSD”. “Como é que eles sabiam que eu era militante?”, questiona. Depois ficou surpreendido com o teor das perguntas serem “mais centradas em saber o nível de seriedade e honestidade de potenciais candidatos à liderança e do líder e não tanto sobre questões essenciais do país”.

“Primeiro perguntaram-me como avaliava o mandato de Rui Rio, se positivamente, se negativamente. Depois perguntaram-me de entre 10 temas, de 1 a 3, a quais Rio devia dar prioridade. Depois apresentaram-me a short list com esses nomes e queriam saber se eu considerava essas pessoas idóneas e sérias e qual deles preferia para liderar o PSD. Depois ainda perguntaram se achava que o PSD ia ter melhor resultado do que há quatro anos e se achava que Rio chegaria a primeiro-ministro”, revelou o militante. No fim, Diogo Carvalho quis saber quem tinha encomendado a sondagem, mas não lhe responderam.

O secretário-geral José Silvano confessou ao Observador que recebeu queixas de vários militantes, que não só se queixaram da questão dos dados, como denunciaram que a empresa estava a contactar os entrevistados como se estivesse mandatada pelo PSD. “Nós estamos a averiguar duas questões: se o nome do PSD foi utilizado abusivamente, já que há pessoas que dizem que foi apresentado como uma encomenda da direção; e se foi violado o Regime Geral de Proteção de Dados. Se percebermos que esta segunda se verifica, faremos queixa na Comissão Nacional de Proteção de Dados“, explicou José Silvano ao Observador.

O secretário-geral diz que a direção de Rui Rio nada tem a ver com esta sondagem, já que o que “interessa agora à direção do partido é o que está antes de 6 de outubro, não o que está depois de 6 de outubro”. Já sobre a forma como dados do partido possam ter chegado à Multidados, José Silvano diz que a atual direção não cedeu dados a qualquer empresa. O secretário-geral adverte que não é assim tão exclusivo o número de pessoas que, no passado, tiveram acesso a esse tipo de dados. Silvano lembra que “quando alguém se candidata à liderança do partido, pode pedir os cadernos eleitorais e a campanha fica com acesso aos contactos dos militantes de todo o território nacional”.

Já Florbela Borges, diretora da Multidados, explica ao Observador que o que a empresa está a fazer é “um estudo sobre o PSD e não do PSD” e que o que o objetivo é avaliar a “notoriedade” de potenciais líderes do partido no pós-legislativos. A diretora da Multidados acredita que os militantes só estão “melindrados” devido à situação de divisão interna do partido e diz que apenas utilizou o “painel que a empresa utiliza nos estudos e que está de acordo com a lei da proteção de dados“.

A privacidade do militante, segundo Florbela Borges, não está em causa: “Nós sabemos por exemplo sobre uma pessoa a idade, a região do país, que é do PSD, que gosta da Nestlé e que tem um Peugeot, mas nunca sabemos o nome da pessoa. Fomos a esse painel para escolher os militantes do PSD“.

Em declarações ao Observador, Diogo Carvalho que não vê razão para fazer de qualquer painel, já que a “única vez” que respondeu a “uma sondagem deste género” ela tinha sido feita pelo PSD local sobre quem preferia como candidato do partido à câmara municipal de Coimbra.

A diretora da Multidados diz ainda que não há nenhum motivo para “os militantes do PSD ficarem preocupados com os seus dados”, já que “a sondagem nem sequer vai ser pública, nem sequer vai ser depositada na ERC, é uma avaliação para nós“.

A última sondagem da Multidados foi feita para a TVI e dava o PS sem maioria absoluta (mas com 35,5%) e o PSD com um mínimo histórico que rondava os 20%.