Numa altura em que Hong Kong se prepara para mais um fim de semana de protestos, Donald Trump mostra-se “preocupado” e diz que deve ser Xi Jinping a dar um passo à frente e sentar-se à mesa de negociações com os manifestantes que querem a democracia. Na quinta-feira, antes de viajar em campanha para um comício, o líder da Casa Branca disse mesmo que vai telefonar ao Presidente chinês para fazer esse apelo. 

As declarações de Trump surgem depois de Pequim afirmar que não vai ficar “de braços cruzados” enquanto os conflitos na região de Hong Kong continuam. Também na quinta-feira, Trump já deixara em aberto querer reunir com o homólogo chinês para discutir os conflitos da ex-colónia britânica, depois de dar a entender que só chegará a acordo com a China se Pequim tratar “de forma humana” Hong Kong.

“Claro que a China quer o acordo. (Mas) deixem-nos trabalhar de forma humana com Hong Kong primeiro!”, escreveu no Twitter.

“Não tenho qualquer dúvida que o presidente Xi quer resolver rapidamente e com humanidade o problema em Hong Kong. Ele pode fazê-lo”, escreveu Trump na rede social Twitter, antes de acrescentar: “Encontro pessoal?”, parecendo dirigir-se diretamente ao presidente chinês. “Se o Presidente Xi reunir diretamente e pessoalmente com os manifestantes, haverá um final feliz para o problema de Hong Kong”, escreveu depois.

Polícia autoriza manifestação mas proíbe marcha de protesto

Entretanto, a polícia de Hong Kong autorizou uma grande manifestação que está marcada para domingo, mas proibiu a marcha de protesto, disse esta sexta-feira à agência Lusa a porta-voz de um dos movimentos que organiza a iniciativa.

A vice-coordenadora da Frente Civil de Direitos Humanos, Bonnie Leung, adiantou que a decisão vai ser alvo de um recurso ainda esta sexta-feira por parte daquela organização que junta várias organizações não-governamentais e partidos políticos.

A proibição levanta sérias dúvidas sobre a forma pacífica como pode decorrer a concentração, explicou a ativista, já que, ainda que se perca o recurso, “muitos manifestantes vão quer fazer a marcha e não se sabe como pode reagir a polícia”, sublinhou.

O objetivo da manifestação e da marcha passa por exigir que o Governo responda a cinco reivindicações: retirada definitiva da lei da extradição, a libertação dos manifestantes detidos, que as ações dos protestos não sejam identificadas como motins, um inquérito independente à violência policial e a demissão da chefe do Executivo, Carrie Lam.

Bonnie Leung receia também que Pequim possa justificar a entrada do exército chinês no território com a “ajuda de mafiosos e a inação da polícia”. Leung lembrou que “existem leis que determinam quando o Exército Popular de Libertação chinês deve ser mobilizado”, sob o princípio “um país, dois sistemas”, mas que tal só pode acontecer a pedido do Governo de Hong Kong, se este alegar que não consegue controlar a situação.

A ativista defendeu, por um lado, que “os manifestantes não deram desculpas para o governo de Hong Kong ou de Pequim usarem esta medida”. “Contudo, receio que posam criar essas desculpas”, alertou, recordando os ataques a manifestantes ocorridos a 21 de julho, supostamente cometidos por elementos das tríades, após os quais a polícia foi acusada de inação. “Tememos que, com a ajuda de mafiosos e a inação da polícia, possam arranjar desculpas para mobilizar o Exército”, frisou.

A coordenadora da FCDH admitiu que é necessário voltar a focar a luta nas exigências iniciais e em promover protestos pacíficos maciços como aquele que a 16 de junho juntou cerca de dois milhões de pessoas, um número que representa quase um terço da população de Hong Kong. Por isso, este domingo a FCDH “decidiu organizar mais uma manifestação maciça para colocar o foco de novo nas nossas cinco reivindicações e com um largo número de participantes nas ruas”, declarou.

Queremos mesmo deixar de ter o foco (…) nos confrontos, na violência” e “acreditamos que com as imagens de centenas de milhar de pessoas ou mesmo de milhões nas ruas pode criar-se uma outra onda de pressão sobre o governo e mostrar de novo ao mundo que os manifestantes de Hong Kong podem ser pacíficos”, acrescentou.

“Este é um movimento sem liderança”, destacou, ressalvando que “alguns manifestantes podem ter outras abordagens mais radicais”. Algo que o movimento não recomenda, até porque, explicou, teme pela segurança dos jovens e das consequências legais.

Contudo, sustentou, os comportamentos mais radicais de alguns manifestantes explicam-se pelo facto de o governo ter ignorado todos os protestos pacíficos.

Já esta sexta-feira, antes dos novos protestos, um homem conhecido como “homem-aranha francês” escalou um arranha-céus de 68 andares em Hong Kong e exibiu a bandeira da China e Hong Kong juntas. A enorme faixa que pendurou mostrava ainda um aperto de mão, um símbolo de incentivo à paz e fim dos conflitos.

Hong Kong: um contínuo palco de protestos

Os protestos em Hong Kong começaram há dois meses, devido à polémica lei da extradição, que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições com as quais não existem acordos prévios, como é o caso da China. A manifestação mais concorrida, segundo a organização, aconteceu a 16 de junho, quando cerca de dois milhões de pessoas (mais de um terço da população) saíram à rua para protestar contra a lei.

Mais recentemente, o aeroporto de Hong Kong foi palco de manifestações, com as autoridades a serem obrigadas a cancelar centenas de voos na segunda e na terça-feira naquela que é uma das infraestruturas aeroportuária mais movimentada do mundo. O parlamento da região autónoma também já chegou a ser invadido.

Os protestos têm sido marcados por violentos confrontos entre manifestantes e a polícia, que tem usado balas de borracha, gás pimenta e gás lacrimogéneo.