Um monstro gigante de pescoço comprido, a que carinhosamente se chama Nessie, tem alimentado mitos, livros, programas de televisão e filmes. O monstro de Loch Ness poderia ser um réptil pré-histórico encalhado naquele lago escocês, dizem alguns mitos. Agora, uma equipa internacional diz que pode não ser mais do que uma enguia gigante, noticiou a BBC. Será que, mesmo assim, o turismo movido pelo mito do mostro vai continuar a prosperar?

O lago Ness

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O lago Ness, na Escócia, tem, em algumas zonas, uma profundidade equivalente a duas vezes e meia o Big Ben (o relógio das casas do Parlamento, em Londres) — qualquer coisa como 250 metros de profundidade. Além disso, pode ter ondas de quatro metros de altura e uma temperatura de 6 graus Celsius.

O primeiro relato de um monstro a viver naquelas águas escocesas remonta a 565 d.C., na obra do missionário irlandês Santo Columba, mas diz respeito ao rio Ness, não ao lago. Os relatos de uma criatura gigante a viver no lago surgem em 1933, descrevendo-o, por exemplo, como uma criatura semelhante a uma baleia que fazia agitar as águas.

A primeira fotografia do monstro surge no ano seguinte — e ficou conhecida pela “Fotografia do Cirurgião” —, mas 60 anos mais tarde a fotografia foi desmascarada e comprovou-se ser falsa. Afinal não passava de um brinquedo. Pelo caminho surgiram relatos de mais avistamentos, várias expedições e muitas teorias sobre o que poderia ser Nessie: elefantes dos circos que atuavam na região a nadar com a tromba de fora, ramos caídos a boiar, a ondulação do próprio lago, um peixe-gato gigante, um tubarão-da-gronelândia (o vertebrado mais antigo do mundo) ou mesmo um plesiossauro (um réptil marinho do período Jurássico).

Agora, uma equipa internacional, coordenada pela Universidade de Otago (Nova Zelândia), apresentou os resultados do ADN encontrado no lago. Foram recolhidas 250 amostras de água, em 2018, e analisadas cerca de 500 milhões de sequências do material genético aí encontrado, como se fossem pegadas ou impressões digitais deixadas dentro de água. As análises feitas permitem criar um catálogo de todas as espécies de plantas, insetos, peixes e mamíferos que vivem no lago.

A migração das enguias

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As enguias colocam os ovos no mar dos Sargaços, perto das Bahamas e as jovens enguias têm de viajar até ao continente e subir os rios para se reproduzirem. Para chegarem ao lago Ness podem ter de nadar de cerca de cinco mil quilómetros.

O objetivo da equipa não era encontrar o monstro de Loch Ness. De facto, não encontraram e é nisso que se baseiam. Não encontraram vestígios de répteis marinhos pré-históricos, nem peixes gigantes, nem tubarões, nem tão pouco a presença de um animal de grande porte que correspondesse às descrições feitas da criatura. O que encontraram — e muito — foi material genético de enguias. Só não conseguem é dizer, com base no ADN, que tamanho têm as enguias que vivem naquelas águas.

“Bem, os nossos dados não revelam o tamanho, mas a quantidade absoluta de material diz que não podemos descartar a possibilidade de haver enguias gigantes no lago Ness. Desse modo, não podemos descartar a possibilidade de que o que as pessoas veem e acreditam ser o monstro de Loch Ness seja uma enguia gigante”, diz Neil Gemmell, geneticista na Universidade de Otago.

Paula Morais, microbiologista da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, explica como a análise do ADN do ambiente permite identificar não só plantas e animais, mas também microorganismos

E agora, quem é que quer ir ver o monstro de Loch Ness? Gary Campbell, que mantém um registo dos avistamentos, diz que todos os anos há pelos menos 10 relatos de algo inexplicável visto à superfície do lado. Para ele, o turismo que gira à volta do mito de Nessie não será afetado. “O monstro de Loch Ness é um ícone mundial.”

Chris Taylor, da VisitScotland, considera que as perguntas que continuam por responder só vão atrair mais visitantes à região em busca de respostas por elas próprias. Basta dizer que o lago é visitado anualmente por 400 mil pessoas.