Foi o primeiro debate pré-eleitoral para André Silva desde que o PAN entrou para o Parlamento, nas legislativas de 2015. Umas eleições que catapultaram o Bloco de Esquerda de Catarina Martins para o terceiro lugar, alcançando o melhor resultado de sempre e uma bancada de 19 deputados. Agora, e depois de uma legislatura em que a esquerda — e até o PAN — ajudaram um governo minoritário socialista a chegar ao fim da legislatura, os dois líderes encontrararam-se nos estúdios da SIC para um frente-a-frente inédito.

Talvez pela novidade, talvez por ser a estreia de André Silva nestes palcos, Catarina Martins — que neste dia completava 46 anos — surgiu com uma postura diferente daquela com que costuma entrar para os debates. Em vez de assumir desde cedo uma posição mais combativa, a coordenadora do BE apresentou-se menos aguerrida, chegando até a exibir por vezes alguma condescendência para com o estreante. Tinha o objetivo de mostrar que o BE é um partido mais maduro e completo do que o PAN.

Já André Silva, apresentou-se amigável mas não deixou de ir a jogo. Muito à-vontade em temas ambientais e mais tenso noutros temas, o líder do PAN teve uma estreia pouco marcante, onde esteve quase a ser encostado à parede mas onde também conseguiu surgir na ofensiva. A convergência entre os dois partidos não permitia muito mais, a informalidade no tom não ajudava. Foi o debate possível entre o BE e o PAN.

A anfitriã Catarina vs. o estreante André

Como se fosse a anfitriã que quer bem-receber o convidado em sua casa, a bloquista lembrou várias convergências que existiram ao longo da última legislatura entre os dois partidos. “Nós [BE] temos uma enorme convergência com o PAN. Temos tido, gostamos de ter e julgo que isso tem sido importante”, disse em jeito de boas-vindas. Mas para que ficasse claro que queria que André Silva estivesse à-vontade mas não “à-vontadinha”, Catarina Martins ia trazendo as divergências para cima da mesa a espaços. “Para nós é importante a ideia de que o Estado Social deve ser igual para todos. O PAN não valoriza esta questão da mesma maneira”, chegou a referir na primeira intervenção.

Sempre com um tom cordial, a líder do BE começou a querer guiar o o debate para temas onde tentaria pôr o adversário a patinar. No fim da sua intervenção inicial, falou da proposta que o PAN tem para o sistema de Segurança Social: “Uma espécie de plafonamento”, definiu Catarina Martins, repescando para esta campanha um palavrão que ficou célebre nas legislativas de 2015. A alfinetada com mais veneno na ponta, veio a seguir: “A proposta do PAN põe em causa as pensões que estão a ser pagas”.

Depois de elogios mas também de algumas críticas cordiais, tinha chegado a vez de André Silva fazer a sua intervenção e responder a Catarina Martins. “Tem havido muito convergência em matéria climática”, identificou à partida, antes de querer colher para si os louros desse entendimento. “O BE tem convergido com o PAN” e não vice-versa. E depois foi a jogo: “Nós não achamos que somos todos iguais dizemos é que devemos ter todos os mesmos direitos de acesso ao Estado Social”, começou por dizer.

Explicou que a medida do PAN “não põe em causa as pensões em pagamento” porque diz respeito apenas “às futuras pensões” e considerou ainda que aquilo que propõe não se trata “de um plafonamento” mas sim de uma proposta que visa colocar um teto máximo às pensões que se pagam.”Queremos é que não se paguem pensões milionárias, tem de haver um teto máximo. Penso que o BE deve concordar”, afirmou, devolvendo a provocação.

À frente de Catarina Martins, um preparado André Silva tinha dado uma resposta suficientemente segura. Mas a líder do Bloco de Esquerda não desarmou. Notando que o PAN não põe de parte, na sua proposta, o recurso a entidades privadas para questões de reforma, a líder do Bloco de Esquerda lembrou que as pensões sociais representam “18 mil milhões de euros todos os anos” e, perante as explicações dadas pelo seu adversário, terminou dizendo que a medida do PAN não estava bem feita. “Com toda a simpatia, não está bem elaborada”.

André Silva ouviu mas não respondeu diretamente e voltou a insistir na explicação da medida do seu partido. “Estamos de acordo com o mesmo princípio: não há qualquer tipo de plafonamento na contribuição. Aquilo que prevemos é que haja outro tipo de mecanismos para fazerem aforros, o da capitalização pública também”, ripostou.

As regras do jogo estavam definidas: cordialidade na forma, divergências e muitas convergências no conteúdo, e informalidade no tom — foram várias vezes em que se trataram apenas pelo nome próprio.

Espelho meu, espelho meu, há alguém mais ambientalista que eu?

Quando o debate entrou em temas ambientais, foi difícil levar os dois líderes partidários a discordar. André Silva tentava mostrar que o PAN era o partido mais ecologista mas não hostilizava o Bloco de Esquerda, com quem várias vezes se entendeu nos últimos quatro anos nesta matéria. “O Bloco também dá prioridade ao ambiente, mas gostaria de constatar que foi o PAN que conseguiu impor o campo ambiental como um campo político autónomo. O PAN não perdeu nenhuma oportunidade para chamar a atenção para essa matéria”, referiu sem dar argumentos ou exemplos.

Uma proclamação que encontraria uma Catarina Martins no mesmo registo. Concordava com a necessidade de “responder à emergência climática” mas queria mostrar que o BE é que era o partido mais preparado para ser o rosto desse discurso. Para isso utilizava o argumento de que os bloquistas não se fixam apenas na área do ambiente para fazer face ao problema climático. A resposta, defendeu a líder bloquista, deve ser estrutural, transversal a todas as áreas de governação. “Precisamos de investimento público para fazer toda esta transformação”.

A ideia era simples: mostrar um partido maduro por oposição a um partido recente, que ainda está verde. “Não é com taxas às empresas que poluem que vamos reduzir a poluição”, chegou a afirmar. “O BE propõe um programa assente na ferrovia, reconversão da indústria e queremos transformar o nosso território”, rematou.

Na resposta, André Silva não respondeu às provocações diretas e preferiu destacar as áreas onde havia convergência entre os dois partidos. A diferença far-se-ia por outras medidas do programa do PAN como a “democratização da produção de energia”. Uma proposta que prevê que um utilizador comum possa produzir e distribuir energia. “É possível legislarmos no sentido de democratizar a produção e distribuição de energia”.

Discordaram sobre a necessidade de nacionalizar mas concordaram que há barragens a mais. Catarina Martins tentava que André Silva se comprometesse com temas maiores, mais nacionais, André Silva preferia ficar-se pelas áreas onde estava mais confortável.

Catarina Martins trocou social-democracia por “eco-socialismo”

Já na reta final do debate, Catarina Martins foi desafiada pela moderadora, Clara de Sousa, a confirmar a frase que tinha dito em entrevista ao Observador onde apresentava o programa do BE como sendo “social-democrata”. A líder bloquista não quis responder diretamente, assim como evitou falar sobre a polémica gerada após ter afirmado que as barragens provocavam evaporação. Ia-se esquivando mas pressionada pela jornalista lá confessou que hoje em dia o “Bloco de Esquerda é um partido eco-socialista”.

Já André Silva considerou que “o programa do BE é um programa com respostas socialistas”. Quanto ao seu próprio partido que recusou auto-rotular-se. “O PAN não se situa nem à esquerda nem à direita porque o modelo económico vigente não é o capitalismo: é o produtivismo-extrativismo“. E concretizou: “Vivemos numa economia de mercado que o PAN respeita e não diaboliza”.

Quando parecia que o debate se encaminhava para o fim já sem grandes discordâncias à vista, Catarina Martins voltou a insistir na questão da nacionalização da EDP. “O PAN acha que vamos pedir por favor ao estado chinês para ter cuidado com o clima ou vamos ter de ser nós a agir”. André Silva respondeu que “nacionalizações ou privatizações não são a base” mas sim “o mecanismo” de uma visão diferente da estratégia para energia.

“Às vezes tenho uma certa pena de que o PAN, que compreende a solidariedade do ponto de vista do ecossistema, tenha depois dificuldade em ter solidariedade com a nossa democracia”, concluiu Catarina Martins.

Certo é que o debate terminou com Catarina Martins e André Silva de novo em convergência e, aparentemente, amigáveis. “O André é um lutador pelas suas convicções. Merece a admiração de quem tem visto este percurso, apesar das divergências”, salientou a líder do BE. André Silva concluiu o debate a criticar António Costa por não dar prioridade ao combate às alterações climáticas, como o PAN ou o BE.