“Uma vergonha para a Justiça e um escândalo para a democracia”. É assim que Luís Marques Mendes, comentador político da SIC, resume o caso do juiz Rui Rangel, a quem esta semana foi distribuído um recurso da Operação Marquês, depois de o magistrado ter voltado ao serviço no Tribunal da Relação de Lisboa. Rangel está a ser investigado por tráfico de influências e esgotou o tempo da suspensão preventiva previsto no processo disciplinar que lhe foi movido. Também já tinha sido impedido pelo Supremo Tribunal de Lisboa de se pronunciar sobre qualquer caso relacionado com a investigação que levou à detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, mas o sorteio informático trouxe-lhe um recurso deste processo.

O comentador lembra, este domingo, “indignado”, que só o facto de o juiz estar a ser investigado há mais de um ano por crimes tão graves como “tráfico de influências, branqueamento de capitais e fraude fiscal” é argumento suficiente para que não se pronuncie sobre qualquer processo-crime. Porque um juiz nestas condições “inquina” qualquer confiança por parte do cidadão. Por isto, ou o próprio devia pedir escusa de tomar decisões até que o seu processo disciplinar e processo crime estejam concluídos por “elementar bom senso”. Ou o presidente do tribunal da Relação de Lisboa devia fazer o mesmo que fez o do Porto, no caso do juiz Neto Moura, e colocá-lo noutra secção que não a criminal. Marques Mendes deixa-lhe mesmo um recado: garantir a independência do juiz é afastá-lo destes processos.

O social democrata atira também ao Conselho Superior de Magistratura, que há quase um ano abriu um processo disciplinar, que sabia que o prazo de suspensão preventiva se esgotava ao fim de nove meses. E não o concluiu.

Marques Mendes ataca também os responsáveis políticos que se mantiveram em silêncio relativamente a este caso e que nada fizeram para mudar a lei que o permite. “O primeiro-ministro deu uma palavra? Zero. A ministra da Justiça? Zero. O líder da oposição?” interrogou. “Porque é que os políticos não dizem nada?”  Para depois responder: “Porque têm consciência pesada”, concluiu. “É que quando suspeitas desta natureza recaem sobre governantes, deputados ou autarcas, os nossos políticos também fecham os olhos e não exigem aos suspeitos que suspendam as suas funções”, disse.

Cartel da Banca: “O Banco de Portugal e o BCE vão fazer vista grossa?”

Um outro tema que Marques Mendes tocou foi o da multa de 225 milhões de euros da Autoridade da Concorrência a um conjunto de 14 bancos suspeitos de partilharem informações sobre spreads de créditos bancários, no que foi chamado o cartel da banca. “É uma ótima notícia para os consumidores”, disse, criticando a atuação da banca. “Onde é que já se viu os bancos andarem a combinar spreads?”, disse, questionando o que irá acontecer aos gestores que, na prática, o fizeram. “E o que vai fazer o Banco de Portugal e até mesmo o Banco Central Europeu? Vão fazer vista grossa?”.

“A maioria absoluta não está ainda no papo”

O comentador político aproveitou, ainda, as três sondagens publicadas esta semana, a três semanas das eleições que aproximam o PS da maioria absoluta. Para Marques Mendes, no entanto, “a maioria absoluta ainda não está no papo”. A sua análise lembra que o PS está “em alta” entre os 40 e os 41%. E para isso beneficiou da boa gestão da greve dos camionistas, por exemplo, da boa prestação de António Costa em entrevistas e debates e de um outro trunfo, chamado Mário Centeno — que considera tão “popular” como o primeiro-ministro.

Costa avança ainda dados sobre uma nova sondagem que será publicada esta segunda-feira pelo JN e pela TSF que mostram que há um crescimento de indecisos, o que faz com que a campanha eleitoral seja “importantíssima” para os resultados.

O comentador referiu, também, que tanto PSD como CDS “nas Europeias entraram em estado de coma e infelizmente lá continuam”. Estas eleições podem mesmo tornar-se num pesadelo.  Para o CDS tudo isto é um pesadelo. Se há um ano o CDS tinha a ambição de liderar o centro-direita e ultrapassar o PSD, “agora corre o risco de perder metade dos deputados que tem”. “No PSD a situação é dramática”, prosseguiu. “Rio corre o risco de fazer ainda pior que Santana Lopes. Pode não ser um drama para Rio, que vai à sua vida. Mas é dramático para o PSD”.

Mais à esquerda, Marques Mendes diz que “O PAN está a ser um travão ao crescimento do Bloco de Esquerda e está a ser vítima da própria campanha, que “confunde e baralha” os eleitores do Bloco. As suas ideias podem fazê-lo passar à frente do PCP como partido de pressão, também, e porque as ideias do partido comunista deixaram, na sua visão, de ser atrativas.

Dos pequenos partidos, destaque para o Aliança. Marques Mendes acredita que o seu líder, Santana Lopes, possa conseguir um lugar de deputado. Mas apenas ele.