A ideia de que mais horas de trabalho são sinónimo de uma maior produtividade já foi várias vezes contrariada, havendo até quem acredite que trabalhar até às 18h ou 19h não faz sentido e “não é natural”, como Nadim Habib, economista, consultor e professor na Nova SBE, defendeu em entrevista ao Observador. As consequências não passam apenas por uma diminuição da produtividade  mas, também, por uma maior propensão a vários problemas de saúde. Mas será que isto sempre foi visto desta forma? Um estudo feito com dados recolhidos durante a Primeira Guerra Mundial mostra que já na altura esta já era uma realidade.

Durante a guerra, conta a BBC, a Grã-Bretanha precisava de produzir armas e munições o mais rapidamente possível. Como grande parte dos homens estava a lutar no terreno, coube principalmente às mulheres fazer esse trabalho. Nessa altura, em 1915, governo britânico decidiu criar o Comité de Saúde dos Trabalhadores de Munições (HMWC, na sigla em inglês), um grupo que tinha como função monitorizar as condições de trabalho destes funcionários e fornecer uma perspetiva sobre as horas de trabalho que estavam a ser exercidas. E as conclusões retiradas desses dados ainda hoje podem ser úteis.

No ramo de trabalho que o grupo analisou, existia apenas um turno e cada trabalhador fazia a mesma tarefa, sendo que os dias e horas de trabalho eram verificados através dos registos de eletricidade da fábrica de munições. Primeira conclusão: a produção atingia o seu máximo nas 40h de trabalho por semana. Ultrapassadas essas horas, a produção caía. Ou seja, a produtividade aumenta com as horas de trabalho, mas apenas até certo ponto.

“A partir de um terminado ponto (um ponto que provavelmente varia entre os trabalhadores e entre as suas tarefas), uma hora a mais de trabalho gerou mais resultados (ou uma performance melhor) se o trabalhador tivesse feito 30 horas por semana do que se o trabalhador já tivesse 40 horas por semana”, explicou à BBC John H. Pencavel, autor de um estudo feito em 2015 a partir destes dados e professor do departamento de economia da Universidade de Stanford.

O investigador acrescenta que naquela altura havia semanas em que se trabalhava mais de 50 horas e momentos em que se chegava, mesmo, às 72h semanais. Nesta categoria, Pencavel indica que as semanas em que a produção era mais alta não correspondiam às semanas em que as horas de trabalho eram mais. Mais uma vez, estes dados indicam que a partir de um determinado limite, trabalhar durante mais horas não significa efetivamente que a produção vai aumentar. 

Foi, ainda, analisado o facto de que, várias vezes, estes fabricantes de munições trabalhavam demasiados dias seguidos, sem descanso, e que isso não era benéfico nem para os trabalhadores nem para as próprias fábricas. Comparando a semana antes de um domingo de trabalho (que naquela altura ainda era comum) e a semana a seguir, Pencavel concluiu que quando se trabalhava sem descanso a produção semanal diminuía entre 13,5% e 17%.

Nas horas de trabalho entre 1915 e 1916, durante a Guerra, uma redução das horas de trabalho teria tido pouco ou quase nenhum efeito prejudicial na produção. Nas semanas sem um dia de descanso o rendimento foi cerca de 10% menor do que as semanas em que não havia trabalho ao domingo”, revela Pencavel no seu estudo.

O investigador diz, ainda, que há outro motivo para que os empregadores se preocupem com a duração dos horários de trabalho: os funcionários que trabalhem durante muito tempo seguido apresentam sinais de fadiga ou stress que não só reduzem a produtividade mas também “aumentam a probabilidade de erros, acidentes e doenças que impõe alguns custos“. Apesar de cada trabalho ser diferente, os especialistas indicam que os resultados do excesso de trabalho não diferem muito do que acontece hoje em dia nas várias áreas.