O secretário-geral comunista discordou este domingo da líder bloquista, estabelecendo como desafio eleitoral, “pela positiva”, o “reforço da CDU”, que junta PCP e “Os Verdes”, à margem de um encontro com artistas e outros trabalhadores do setor da cultura.

“Não tenho de fazer comentários em relação a declarações de Catarina Martins, mas acho que o nosso combate, da parte do PCP e da CDU, é o seu reforço, naturalmente com esta questão de o PS poder ficar com as mãos livres se alcançar uma maioria absoluta”, disse Jerónimo de Sousa, no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, no primeiro dia do período oficial de campanha eleitoral para as legislativas.

A coordenadora do BE, Catarina Martins, afirmara sábado que a disputa nas eleições legislativas de 6 de outubro é entre o PS e a esquerda.

“Mas a nossa luta e campanha eleitoral vai ser pela positiva, pelo reforço da CDU, mais do que estar a atacar qualquer perspetiva eleitoral. É para a frente, com a confiança do reforço da CDU, que estaremos profundamente empenhados”, insistiu.

Durante a reunião deste domingo, primeiro dia oficial de campanha eleitoral, Jerónimo de Sousa reiterou a defesa da consignação de pelo menos 1% do Orçamento do Estado para a cultura.

Trabalho sempre ditou “conflito e separação” entre esquerda e direita

Jerónimo de Sousa defendeu que as “leis laborais sempre foram um espaço de conflito e separação entre esquerda e direita”, acusando o PS usar os “pronto-socorro” PSD e CDS-PP.

“Estas questões das leis laborais sempre foram um espaço de conflito e separação entre esquerda e direita. E por isso mesmo é que consideramos que o PS voltou a apresentar um eixo de política de direita, avançando com medidas gravosas para os trabalhadores, através de alterações à legislação laboral”, disse hoje Jerónimo de Sousa num almoço-comício da CDU em Barcarena, Oeiras, distrito de Lisboa.

O secretário-geral referia-se às alterações à lei laboral aprovadas em votação final global, em julho, viabilizadas com os votos favoráveis do PS, abstenção de PSD e CDS-PP e voto contra das restantes bancadas.

“E o Partido Socialista fez isto. E fez isto como? Com os parceiros do costume, com o pronto-socorro do costume do PSD e do CDS”.

Jerónimo de Sousa considera que um “partido de esquerda” não pode “admitir o fim da caducidade da contratação coletiva”, “os graus de desregulamentação dos horários de trabalho”, “estar de acordo com precariedade que trama a vida a tantos portugueses, particularmente jovens”, ou assumir “o alargamento do período experimental” para seis meses.

Um jovem pode estar cinco meses e 29 dias com esse vínculo do período experimental, chega ao fim, e o patrão diz ‘vai-te embora’. Não recebe nem indemnização, nem qualquer retribuição, nem nenhum direito, nem conta para o fundo de desemprego”, explicou o também cabeça de lista da CDU por Lisboa.

O deputado considera que o PS se aliou a PSD e CDS-PP tal “como tinha feito em relação às PPP (pacerias publico-privado)”, “ao Banif” ou ao “setor do táxi, no confronto com uma multinacional”. “O PS não mudou, e por isso mesmo não mudará se não existir o reforço da CDU”, afirmou Jerónimo de Sousa aos apoiantes.

O grupo parlamentar do PCP já enviou aos homólogos de BE e “Os Verdes” o texto do requerimento de fiscalização sucessiva da constitucionalidade das alterações às leis laborais, disse este domingo à Lusa fonte comunista. O documento vai ser agora analisado por bloquistas e ecologistas para ser “brevemente” entregue de forma formal aos juízes do Tribunal Constitucional (TC).

Segundo a mesma fonte, o pedido de fiscalização “inclui as matérias relativas ao alargamento do período experimental e à generalização e facilitação do recurso aos contratos de muito curta duração, bem como da caducidade da contratação coletiva”.

“Quem ganha com a nova composição da Assembleia da República: o povo ou os banqueiros?”

O que está em causa nas legislativas é uma escolha entre a reposição dos direitos, para a qual disse que a CDU contribuiu, ou um recuo do país à “política de direita”, defendeu Jerónimo de Sousa, no encerramento da festa/comício da CDU nas instalações dos Bombeiros Voluntários de Loures.

Para o secretário-geral do PCP, os últimos quatro anos foram uma lição para os que se habituaram a afirmar que o PCP e a CDU “só serviam para protestar”. E acrescentou: “Esses, não nos perdoam cada proposta, cada conquista alcançada”.

Mas Jerónimo reconheceu que não é possível baixar os braços, principalmente perante a ameaça do PS, “de mãos livres para fazer entrar pela porta grande a política de direita”. As eleições marcadas para 6 de outubro serão, assim, determinantes para definir “quem ganha com a nova composição da Assembleia da República: o povo ou os banqueiros?”.

Jerónimo de Sousa aproveitou para enumerar algumas das conquistas alcançadas nos últimos anos e que, na sua ótica, teve o contributo do PCP e da CDU, como a gratuitidade dos manuais escolares, a reposição das 35 horas de trabalho semanal, a reposição do subsídio de Natal, uma “conquista de Abril”, ou dos feriados.

Apresentou-se, por isso, como um líder de um partido com “o dever cumprido” e aproveitou a apresentação do hino da CDU para esta campanha, intitulado “pelo sonho e pela razão”, para afirmar que “são muitos, mas mesmo muitos”, os que acreditam na importância de uma solução que combata as políticas de direita no Parlamento.

Insistiu na consignação de 1% do orçamento do Estado para a cultura, creches gratuitas para todas as crianças até aos três anos de idade e o aumento das pensões dos reformados.

Notícia atualizada às 19h43 com declarações de Jerónimo de Sousa sobre o que está em causa nas legislativas