Uma fotografia com 18 anos atirou Justin Trudeau para o centro de uma polémica que pode minar o caminho político do primeiro-ministro do Canadá nas próximas legislativas. Nas imagens, Justin Trudeau, à época com 30 anos, surge com roupas orientais e rosto pintado de preto numa festa com o tema “Mil e Uma Noites”. Agora, o líder político, normalmente consensual em matérias sociais, está a ser acusado de racismo. Mas porque é que uma máscara pode ser insultuosa?

A resposta tem quase 200 anos, recordou a BBC, quando surgiram nos Estados Unidos e pela Europa espetáculos em que os artistas caucasianos pintavam-se de negro ou castanho para fazerem pouco da comunidade negra. Foi nesses tempos que surgiu a personagem Jim Crow, criada pelo norte-americano Thomas D. Rice quando caricaturava o homem negro com base nos estereótipos negativos associados àquela comunidade. Thomas D. Rice pintava a cara de preto, carregava os lábios de vermelho e usava gestos exagerados.

Desde então que esse tipo de interpretações não são bem vistas dentro e fora da comunidade negra pelo mundo, já que recordam os longos séculos de discriminação e escravatura sofridas nos Estados Unidos e na Europa. Foi por isso que o cantor Childish Gambino inspirou o videoclip de “This Is America” nesse tipo de espetáculos, aproveitando uma imitação de Jim Crow para criticar as histórias de preconceito que ainda se destacam na sociedade norte-americana.

À BBC, Kehinde Andrews, professor de Estudos Negros da Universidade de Birmingham, explicou que as maquilhagens usadas em 2001 por Justin Trudeau “é uma tradição baseada no racismo, que consiste principalmente no medo dos negros e no ato de fazer deles uma piada”. “É um problema que existe há muito tempo. Desde os tempos de Shakespeare em diante, pode-se ver essa figura de brancos ‘enegrecidos’. É interpretado como um demónio, um perigo ou uma maneira de fazer pouco das pessoas”, concretizou.

Quem critica este tipo de maquilhagem — conhecida por “blackface” — sublinha que há quem a use sem maldade, mas que se deve compreender a “dimensão histórica” dessas máscaras para entender o preconceito que ela esconde: “O uso do blackface é uma prática ultrapassada que não é vista muito hoje em dia, o que mostra que as atitudes do público avançaram desde então e que as representações vulgares de pessoas negras devem ser consideradas inaceitáveis”, afirmou o ativista Antumi Toasijé à BBC.

Foi este contexto que levou o primeiro-ministro do Canadá a pedir desculpa assim que as imagens polémicas se tornaram públicas: “Estou vestido com um fato de Aladino e maquilhado. Não devia ter feito isso (…) É algo que não considerei racista na altura, mas reconheço hoje que era. E lamento imenso por isso. Não o devia ter feito. Foi um erro. Lamento profundamente”, admitiu.

No entanto, o pedido de desculpas não foi suficiente para suportar o lugar de Justin Trudeau nas últimas sondagens em vésperas de eleições legislativas no Canadá. Se as eleições legislativas no Canadá fossem este sábado, os conservadores venceriam com 36,8% dos votos, mais 4,8 pontos percentuais do que os liberais de Trudeau (32%), segundo a Nanos, uma empresa canadiana especialista em sondagens.