Dois trunfos da esquerda socialista para tratarem de dar uma ajuda a António Costa na tentativa (que já leva uns dias) de clarificar que o adversário nestas eleições é a direita. Primeiro, José António Vieira da Silva, que está de saída, e, depois, Pedro Nuno Santos, “que está aí fresquinho da costa para muitos e bons anos ao serviço do país e dos interesses de Portugal”, como descreveu o líder do PS.

O cabeça de lista por Aveiro foi o pivot da “geringonça” no Parlamento, até fevereiro passado, e é um dos principais defensores da atual solução governativa no PS. Também é apontado ao futuro do partido, como líder, e Costa também o sabe, daí a provocação sobre o “fresquinho da costa” a quem já teve de avisar, no último congresso, que não tinha metido os papeis para a reforma. Pedro Nuno Santos destaca-se no apoio à esquerda, nem que seja da forma menos direta possível, como fez esta noite no comício no centro de congressos de Aveiro.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Não referiu PCP nem Bloco de Esquerda, mas tentou fazer ver aos socialistas a distância que os separa de PSD e CDS. “A direita tem um projeto de sociedade assente nos valores do individualismo e da competição” e é por isso que “dá tanta centralidade ao mercado e que pouco fala de desigualdades”, afirmou perante a sala cheia. Já a “visão” dos socialistas, firmou:”O que melhor nos define enquanto membros de uma comunidade, é a capacidade para cooperarmos uns com os outros”. “Cooperação” do lado do PS que Pedro Nuno defende, contra “competição e individualismo”.

A linha da direita, defendeu ainda, serve sobretudo a quem já tem poder”, mas só a linha socialista “garante à grande maioria do povo a melhoria das suas condições de vida”, palavra de socialista da ala esquerda do partido que normalmente se diverte em dizer que o PS é afinal “um partido de esquerda com uma pequeníssima ala de direita”.

Mas o homem que ficou famoso, em 2011, por defender que Portugal enfrentasse os alemães ameaçando não pagar a dívida, é agora um fã das contas certas e não comunga com os parceiros parlamentares, com quem lidou de perrto nos últimos anos, quando estes se colocam contra os compromissos assumidos pelo país em Bruxelas. Esse é, aliás, um dos trunfos que Pedro Nuno avança como ganho nesta legislatura ao dizer: “Cumprimos todos os compromissos com o nosso povo e também com as instituições internacionais”.

António Costa aplaude de pé Pedro Nuno Santos na subida ao palco no comício em Aveiro. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Sobre a direita — sem nunca referir a esquerda –, o socialista (que em fevereiro virou ministro das Infraestruturas) disse que a direita no poder “não teria aumentado o salário mínimo. Não teria reduzido o IRS para a classe média. Não teria aumentado as pensões de reforma. Não teria tornado os manuais escolares gratuitos. Não teria apostado na ferrovia. Não teria baixado o preço dos passes para os transportes”, exemplificou antes de pedir “um PS forte, porque nenhuma destas conquistas se fez nem fará sem o PS”.

Viera da Silva e o caso Tancos: A direita pratica a “política da calúnia, da insinuação, das meias palavras”

Antes dele tinha falado Vieira da Silva e foi no mesmo sentido. Não se referiu à esquerda diretamente, chegou lá pela negação da direita, e até assinalou o mesmíssimo valor que Pedro Nuno: “Portugal não pode estar na União Europeia com um pé dentro e outro fora. Tem de estar com os dois pés dentro”. Esquerda, sim, mas a diferença do PS é que é uma esquerda que não quer romper compromissos internacionais, sublinharam ambos os socialistas.

Viiera da Silva avisou logo à cabeça da intervenção que sabe “onde estão os adversários: o PPD de Rio o CDS de Cristas são os mesmos partidos que há quatro anos prometiam, por escrito enviado para Bruxelas, para este ano uma taxa de desemprego de 11,1%. O numero é 6,2%”, valorizou aquele que é também o ministro da Solidariedade e tem a tutela do emprego. “Não, não é pequena a diferença entre as promessas de PSD e CDS e a realidade construída com a liderança do PS”, concluiu.

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Aos dois partidos ainda perguntou pelo corte de 600 milhões de euros nas pensões, previsto no Programa de Estabilidade entregue pelo Governo PSD/CDS entregue em Bruxelas em 2015. “Esqueceram, já não acreditam? Acham que não é preciso? Se acham que não é preciso estão a fazer o maior elogio ao PS sobre o reequilíbrio da Segurança Social”, perguntou e respondeu na mesma tirada.

Mas Vieira da Silva ainda foi mais longe no ataque, trazendo ao comício a picardia entre barricadas eleitorais sobre o caso Tancos . “Hoje PPD e CDS prometem sol na eira e chuva no nabal, mas onde erguem a voz com mais pujança e convicção é na única linha política que os distingue nesta campanha, a do ataque pessoal e da calúnia”. Essa política, repetiu, é a “da calúnia, das insinuação, das meias palavras”. E neste ataque até foi buscar um exemplo de Paulo Rangel, dizendo que em 2017 pediu a demissão do ministro das Finanças por estes estar fragilizado entre os seus pares, em Bruxelas. “Em maio de 2017, Portugal saiu do procedimento de défice excessivo e em dezembro Mário Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo”.

Para António Costa, o último a discursar, já sobrou muito pouco. Aliás, nos últimos comícios a estratégia tem sido exatamente a mesma: pôr os convidados especiais ou líderes locais a fazerem os maiores ataques e deixar para Costa o apelo ao voto mais dramático. O socialista conta sempre a mesma história, sobre o que tem ouvido na rua: “o medo da maioria absoluta” ou o “medo da geringonça”, para chegar sempre ao mesmo: “Todos têm em comum que querem o PS no Governo”. E, nesta espécie de silogismo — muitos querem que o PS ganhe, mas nem todos têm a certeza sobre o modelo de Governo que preferem, então “votem PS”.

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E nesta reta final, o primeiro-ministro que faz campanha “nos tempos livres” quer contar com todos para a mobilização. Pede que convençam todos à volta, até “os que estão a tomar a bica ao lado”. Porque o socialista tem um receio que também vai em crescendo, à medida que as sondagens vão estreitando a diferença entre PS e PSD: “Não se ponham a fazer contas com base nas sondagens porque arriscam a acordar no outro dia de manhã com uma surpresa desagradável”. 

É este o pesadelo de Costa e, curiosamente, foi um diabo que Passos Coelho agitou, nesta mesma fórmula da noite de sono, em 2015, quando já desconfiava do que Costa arquitetava (governo dom esquerdas) e disse, no comício de encerramento da praça da Figueira em Lisboa: “Imaginem o que era os portugueses escolherem esta coligação e escolherem-me a mim para primeiro-ministro e segunda-feira acordarem com António Costa como primeiro-ministro”.  Agora, Costa não pode voltar a ficar atrás do PSD.