Além de um casal de 38 anos, a polícia britânica deteve mais uma pessoa esta sexta-feira, no aeroporto de Stansted, em Londres, por suspeita de tráfico humano e homicídio no caso das 39 pessoas que foram encontradas mortas no interior de uma câmara frigorífica de um camião em Essex, no Reino Unido. Trata-se de um homem de 48 anos, da Irlanda do Norte, confirmou a polícia daquela cidade. O motorista do camião está detido desde quarta-feira.

Apesar de a polícia não ter revelado qualquer identidade dos detidos até agora, os jornais britânicos, como o The Guardian, avançam que o casal detido esta sexta-feira serão Joanna e Thomas Maher. Joanna Maher, acrescentam, é a proprietária do camião onde foram encontrados os 39 cadáveres. A mulher, juntamente com o marido, que será chefe de transporte, disseram na quinta-feira aos jornalistas que eram os donos do camião, mas que o venderam há 13 meses a uma empresa em County Monaghan, perto do local onde Mo Robinson, o camionista detido, vive.

Ainda antes, esta quarta-feira, Joanna tinha abordado o caso das 39 pessoas encontradas no camião como sendo “um horror”. “Fui à polícia britânica porque éramos os proprietários [do camião] registados na Bulgária”, referiu ao Daily Mail.

De acordo com a Sky News, os 39 mortos poderão não ser todos de nacionalidade chinesa, como foi inicialmente avançado pela polícia — que agora diz que o caso das nacionalidades está “em desenvolvimento”. Há a suspeita de que uma mulher vietnamita de 26 anos possa ser uma das vítimas, ainda que esta informação não tenha sido confirmada pela polícia. A Sky News avança ainda que a embaixada vietnamita já está a trabalhar com a polícia britânica para confirmar esta informação.

Foi a família desta jovem, Phan Thi Trà My, que lançou o alerta sobre o seu desaparecimento, temendo que tenha viajado a bordo do camião onde os cadáveres foram encontrados. A rapariga terá enviado uma série de mensagens na terça-feira à noite a explicar que a “viagem não tinha chegado a bom porto” e que “estava a morrer” por falta de ar.

A BBC adianta que falou com familiares desta e de mais dois vietnamitas que receiam terem estado dentro do camião. Uma das famílias que a BBC abordou foi precisamente a de Phan Trà My, que lhes confessou ter pagado 30 mil libras (35 mil euros) pela entrada ilegal da jovem no Reino Unido.

As outras duas famílias terão uma relação de parentesco com um homem de 26 anos e uma jovem de 19 anos.

Uma viagem de 10 horas sob temperaturas de -25ºC

Ainda esta manhã as autoridades descobriram novos detalhes sobre o caso. As 39 vítimas viajaram pelo menos durante 10 horas debaixo de temperaturas de -25ºC antes de chegarem à fronteira da Bélgica. As autoridades belgas afirmaram ao The Guardian que já estariam dentro do camião muito antes de terem entrado no porto de Zeebrugge na terça-feira à tarde.

Joachim Coens, chefe executivo do porto, garantiu à comunicação social belga que os 31 homens e oito mulheres não podem ter entrado no camião em Zeebrugge. E que o mais provável é terem chegado ao porto, às 14h29 locais, já no interior do veículo, uma vez que “os contentores frigoríficos na zona portuária estão completamente selados”: “Durante a verificação, a selagem é examinada, assim como a matrícula do veículo. O condutor é verificado pelas câmaras”, explicou.

Dirk de Fauw, presidente da Câmara de Bruges, concorda: “A probabilidade de partir a selagem, colocar 39 pessoas a bordo e aplicar uma nova selagem sem que ninguém notasse é extremamente baixa”, disse ele numa entrevista a uma televisão belga.

China empurra responsabilidade para o Reino Unido

A polícia está a estudar uma possível ligação do episódio a um grupo criminoso do sul de Armagh, uma cidade da Irlanda do Norte, que no passado esteve envolvido no recrutamento para o Exército Republicano Irlandês, mais conhecido por IRA. No entanto, a investigação ao caso concentra-se na hipótese de tráfico humano — uma tese que ganhou força quando a nacionalidade das vítimas foi revelada.

De acordo com o The Guardian, os meios de comunicação social chineses criticam as autoridades britânicas e empurram as responsabilidades para o Reino Unido. Os jornais argumentam que os britânicos deviam ter tomado medidas mais apertadas para evitar uma situação semelhante à de 2000, quando 58 cidadãos chineses foram encontrados sem vida num contentor em Dover. Todos morreram sufocados.

“O Reino Unido deve assumir a responsabilidade”, escreve taxativamente o jornal Global Times no editorial de sexta-feira: “Imaginem que medidas aprofundadas os países europeus teriam feito se dezenas de europeus tivessem morrido da mesma forma. Deixei-me questionar o governo britânico e europeu porque é que falharam a evitar uma tragédia semelhante depois da de Dover. Tomaram mesmo ações sérias para isto não acontecer?”, disse o jornal citado pela Reuters.

O tablóide, apoiado pelo Partido Comunista da China, prossegue: “Um desastre humanitário com esta gravidade ocorreu debaixo do olhar dos britânicos e dos europeus. É claro que a Grã-Bretanha e os países relevantes da Europa não cumpriram a responsabilidade de proteger estas pessoas desta morte”. E termina: “Esperamos que a Grã-Bretanha e os países europeus ponham em prática os seus vários compromissos com os direitos humanos e façam os esforços devidos para os chineses serem livres de abuso e de mortes repentinas”.

Hu Xijin, um comentador e editor do Global Times, também insiste em apontar o dedo aos britânicos: “Não sei se estes incidentes estão relacionados com a governação social do Reio Unido, mas estes desastres humanitários continuam a acontecer no Reino Unido”, acusa. Hu Xijin termina com “uma pergunta simples”, adjetiva o próprio: “Porque é que estes desastres acontecem sempre no Reino Unido, não na Europa ou na América?”.

O percurso do camião em 9 passos

Mas há mais perguntas do que respostas. Eis o que se sabe até agora sobre o percurso do camião:

O camião envolvido no caso foi registado em Varna, Bulgária, a 19 de junho de 2017, em nome de uma empresa “que tem como proprietária uma cidadã irlandesa”, disse o primeiro-ministro búlgaro em comunicado.

Um dia depois, a 20 de junho de 2017, o camião saiu da Bulgária e nunca mais regressou àquele país.

A 20 de outubro, no último domingo, o motorista Mo Robinson, 25 anos, entrou no Reino Unido a partir de Dublin, na Irlanda, e atravessou o Mar da Irlanda até Holyhead.

Na terça-feira, às 14h49, o atrelado chegou a Zeebrugge.

Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, o atrelado foi enviado para Purfleet, em Essex.

Entretanto, Mo Robinson viajou de Holyhead para Essex para recolher o atrelado.

Às 00h30 de quarta-feira, Mo Robinson recolheu o atrelado.

Às 01h05 desse dia, o motorista deixa o porto de camião com o atrelado.

Às 01h40 de quarta-feira, 39 pessoas foram encontradas mortas no parque industrial de Waterglade, em Essex, no interior da câmara frigorífica.

O percurso de Mo Robinson, da câmara frigorífica e do camião em causa estão a ser analisados, não só através de interrogatórios, mas também de análise de imagens de videovigilância. Neste vídeo aqui em baixo, por exemplo, as gravações mostram dois ângulos da rua por onde o camião passou antes de entrar no parque industrial onde os cadáveres foram descobertos.

Onze corpos já foram levados para a autópsia

Os cadáveres começaram a ser retirados do camião na noite de quinta-feira e enviadas para o hospital de Chelmsford. A polícia garantiu que cada um dos 39 cidadãos chineses vai ser sujeito “a um processo completo de investigação médica para estabelecer a causa da morte”  antes de se proceder à identificação dos corpos. “Esta será uma operação essencial e, nesta fase, não podemos estimar quanto tempo os procedimentos vão demorar”, disse a polícia em comunicado.

Por enquanto, e segundo a BBC, apenas 11 dos corpos foram levados do Porto de Tilbury para o Hospital de Broomfield, em Chelmsford. As vítimas foram levadas às 19h41 desta quinta-feira numa ambulância privada escoltada por veículos da polícia. Questionada sobre a demora na retirada dos corpos, a polícia de Essex confirmou que o processo vai ser demorado e que “a dignidade das vítimas” é a “primeira preocupação” das autoridades.

Richard Shepherd, um especialista em medicina forense, confirmou à BBC que este é um processo moroso: “É um processo muito lento e demorado. É um exame meticuloso que começa por olhar por fora. Que roupas estavam a usar? Há alguma jóia que os possa identificar? Há documentos? Há passaportes”. Depois é que se procede à reconstituição dos momentos que conduziu à morte das vítimas. Nessa fase, questiona-se: “Estas pessoas foram tortutadas? Foram sexualmente abusadas? Foram atacados e forçados a entrar ali?”.

Bélgica abre investigação paralela

Não sabe que circunstâncias levaram à descoberta dos 39 cadáveres no interior do atrelado. Mo Robinson foi detido pelas autoridades para interrogatório. A casa dos pais do motorista em Laurelvale, outra propriedade da família e e uma terceira habitação em Armagh foram alvo de buscas nas últimas horas. Os pais de Mo Robinson viajaram para o Reino Unido para visitar o filho.

“Ao longo do dia de ontem [quarta-feira], os nossos detetives trabalharam com outros parceiros para iniciarem as investigações destas mortes trágicas e continuamos a trabalhar para juntar as peças das circunstâncias deste evento horroroso, que levou à maior investigação da história da nossa polícia”, referiu a polícia de Essex no mesmo comunicado, referindo-se às autoridades belgas.

Entretanto, a Bélgica abriu uma investigação própria a pedido do seu procurador-geral. Eric Van Duyse, porta-voz da procuradoria federal da Bélgica, afirmou que, como “parece que o camião foi enviado a partir do porto de Zeebrugge”, é preciso “verificar esta realidade”. Acrescentou ainda que “não havia nenhuma certeza sobre quanto tempo” o atrelado tinha passado na Bélgica: “Podem ser horas ou dias, não sabemos”.

Segundo camião encontrado em Kent

Um dia depois deste caso, um novo camião que transportava nove migrantes foi intercetado pelas autoridades na zona de Kent. Todos estão vivos. O novo camião foi mandado parar poucas horas depois de se ter descoberto os cadáveres das 39 pessoas que seguiam no outro veículo semelhante, em Essex, mas não se sabe se os dois casos estão relacionados.

O veículo seguia na auto-estrada M20 quando foi mandado parar pela polícia perto da zona de Ashford, causando uma longa fila de trânsito. Um porta-voz da polícia de Kent contou à Sky News que essas pessoas estão a ser observadas por médicos e depois serão entregues aos serviços de imigração do Reino Unido.