Como decerto saberão se tiverem a escolaridade completa, o Velho do Restelo não reagiu entusiasticamente à inovação ou à mudança. É aliás o traço definitivo dessa figura marcante e eterna da literatura Portuguesa — eterna porque sabemos que enquanto houver portugueses, vão haver portugueses rezingões e pessimistas, que criticam as modas que todos os outros parecem adorar.

Há quem diga que esses velhos estão bem é caladinhos. Nós dizemos: calma aí. Apesar de incompreendido, um bom Velho do Restelo, noutro tempo e neste, sabe ser a voz pessimista, e por pessimista leia-se munida de um sentido crítico necessário à sociedade atual. É esse espírito que muitas vezes permite identificar as fragilidades de uma ideia, por muito boa que pareça ser. São estas pessoas que sacrificam o seu deslumbramento à nascença, para que outros, como vocês, saibam o que evitar.

De resto, poucas vezes nesta nossa narrativa histórico-mitológica se equaciona a alternativa. Talvez se tivessem ouvido o Velho do Restelo, ok, provavelmente não teríamos dado mundos ao mundo, mas por outro lado também não teríamos de ver tanta gente chorar por sermos uma amostra residual do espírito subjacente à era dos Descobrimentos. Mas, tão ou mais importante, tivesse o Velho do Restelo sido ouvido e hoje teríamos menos textos que arrancam com referências aos Descobrimentos. Desculpem.

Só há um problema. Ou dois problemas. Duas coisas que apoquentam um Velho do Restelo mais do que startups:

1 – ser chamado de Velho do Restelo
2 – aperceber-se um dia que é efetivamente — ou se tornou pelo caminho — um Velho do Restelo.

Não perguntem como é que sabemos isto tão bem. Limitem-se a acreditar em nós. Ou melhor, aproveitemos estes crachás que dizem que somos jornalistas para nos esconder atrás das palavras “temos duas fontes bem posicionadas que preferem manter-se anónimas.” Sirva este crachá para alguma coisa!

É por tudo isto que, no espírito de evitarmos parecer um velho do Restelo, terminaremos este ciclo de crónicas dando a mão à palmatória: nós adoramos dizer mal da Web Summit. Não foi o Velho do Restelo que escolhe ir à Web Summit. Foi esta que ressuscitou o Velho do Restelo que há em nós. Mas a grande verdade é que até a Web Summit tem alguns pontos a seu favor:

É um bom exemplo de empreendedorismo

São dezenas de milhares de pessoas a lutarem pelas suas ideias, a maioria das quais sem grande capacidade financeira (presumimos isto pela forma como se vestem). É um facto que muitas destas ideias não serão assim tão boas, novas ou necessárias, mas não é a primeira ocasião na história em que um grande conjunto de pessoas começam por querer refletir acerca da sua condição e desistem algumas horas depois, já encharcadas em álcool. Mas quando dizemos que não há aqui empreendedores a sério, ou histórias de sucesso, estamos a exagerar. Há pelo menos o Paddy, que é o motherfucking OG disto tudo. Bilhetes a milhares de euros (esgotados), camisolas de lã a 700 (esgotados), e cerveja ao preço do vinho (esgotada). Se as suas palavras fossem fiéis aquilo que pensa, o Paddy diria: empreendam-mos.

A segurança é fortíssima

Imaginamos que muitos quarteirões em Raqqa não tenham tantos checkpoints de segurança ou sejam tão rigorosamente controlados quanto este espaço que abrange quase todo o Parque das Nações. E por muito que de vez em quando nos apetecesse que alguém mandasse com esta coisa toda pelos ares — ou até, quando um qualquer empreendedor se aproxima de nós e nos prende no seu pitch, que nos mande a nós pelos ares também, porque até ser transformado numa nuvem de cérebro, osso e sangue e espalhado pelo Tejo é melhor do que ser apanhado por um networker a vender-nos uma criptomoeda que só funciona numa aldeia do Paquistão.

Bom. Onde é que nós íamos?

Certo, por muito que de vez em quando nos apetecesse que alguém mandasse com esta coisa toda pelos ares, provavelmente é bom que isso não aconteça. A segurança sentida produz conforto e é esse sentimento que, aliado à sofreguidão dos milhares de pessoas que chegam aqui sedentos por conhecerem outros iguais a si, torna toda a experiência uma coisa fixe. Dissemos há uns dias que não percebemos porque é que Paddy abriu a cerimónia com um agradecimento especial às forças de segurança, mas concordamos com ele. Estiveram bem, sim senhor*.

*Fica desde já um agradecimento àqueles membros da Polícia que nos deixaram passar dois cantis de whiskey à socapa pelo raio-x. Vocês são os verdadeiros MVPs**

**Nota para o improvável leitor empreendedor. No mundo real, MVP é o Most Valuable Player, não o Minimum Viable Product. Ou seja, o melhor jogador em campo e não um esboço de uma ideia saída de uma Hackathon de dia e meio em Mafamude.

A secção de Medtech

A startup americana Theranos foi a estrela de alguns dos melhores conteúdos que se fizeram este ano. A investigação de uma empresa como tantas outras que prometia tudo e entregou quase nada, deu livros, podcasts e dois documentários que recomendamos imenso. Por isso agradecemos também a oportunidade de percorrer alguns corredores populados por ideias na área da saúde, todas elas aspirando a ser, talvez um dia, a próxima Theranos, mas rigorosamente nenhuma que se assemelhe à gigantesca poia ou mão cheia de nada que a startup liderada por Elizabeth Holmes revelou ser. De resto, esta é a única zona de todo o recinto em que vimos de facto um empreendedor capaz de salvar vidas.

Aqueles empreendedores famintos de networking

Porque achávamos que a seguir a QR CODE e HR AND CONSULTING STARTUP não havia combinação de palavras que conseguisse competir por imediatamente perder o nosso interesse e, ao mesmo tempo, nos ficar a apetecer bater em alguém. À primeira vez que nos perguntaram “posso scanear o teu crachá?” apercebemo-nos de quão errados estávamos e ganhámos um novo apreço pela linguagem e a sua habilidade de nos surpreender.

A organização tem muito que se lhe diga

Quem nunca foi a uma Web Summit pode dar-se como sortudo. Quem nos dera a nós poder dizer o mesmo. Mas ao mesmo tempo, não consegue imaginar bem o que é o tamanho deste evento. Altice Arena, 4 pavilhões enormes da FIL e algumas tendas de campanha enchem o olho até de dois céticos como nós. E se pensarmos que muitos dos conteúdos e dos stands mudam de um dia para o outro, não conseguimos deixar de apreciar o esforço e o trabalho que isso implica.

A roulotte da Lagunitas

Para pelo menos um grande fã do podcast This American Life, a oportunidade de experimentar uma cerveja que se orgulha de “put the Pub in public radio” era meia razão para ir à Web Summit. Ter descoberto que não só era ótima, como estava quase ao preço da Sagres foi a cerveja no topo do bolo. E digamos que nos alimentámos muito, e bem, desse bolo para escrever estes artigos.

O verão de São Paddy

Já nada é como era, especialmente no que toca à meteorologia. O verão são duas semanas de maio e o inverno dura quase o ano todo. Ou vice-versa, já nem sabemos. Mas sabemos que todas as Web Summits podemos contar com três dias de sol em Novembro ou pelo menos umas pausas da chuva. Já muito se escreveu sobre os acordos entre Paddy e a Câmara Municipal de Lisboa. Nós gostávamos era que se investigasse melhor o que é que ficou acordado com São Pedro.

Enquanto escrevemos este último parágrafo, Marcelo já fechou a Web Summit falando de uma revolução tecnológica liderada por Portugal, sem com isso arrancar gargalhadas da plateia, os investidores já começaram a dirigir-se para o aeroporto com o seu livro de cheques maioritariamente intacto e, dizem os entendidos, está prestes a começar a melhor noite do ano no Tinder. O que também começa é uma chuva séria, com a violência redobrada de quem esperava há dias por este momento (aqui podia ir mais uma piada sobre movimentos intestinais, mas vamos poupar-vos).

E nós, a tentar não molhar os portáteis na esplanada do Café Dias, chegamo-nos um pouco atrás e lembramo-nos que há mais uma coisa para elogiar, ou pelo menos agradecer:

Hoje, ao menos não vamos ter de nos despedir dos leitores com até amanhã: é com um ‘até para o ano.’ Acabou o Verão de São Paddy, acabaram os pitches desesperados, o Networking, o speed dating profissional, os crachás, os stands das grandes empresas Portuguesas (e pelo menos uma universidade) que nos deixam com uma imensa vergonha alheia, as imperiais a 3 euros. Podem finalmente guardar a Sophia na caixa de onde nunca deveria ter saído, porque finalmente acabou a Web Summit.

Graças a Steve.

*Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras copywriter e content strategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar.