Aqui estamos, poucas horas depois de termos sobrevivido a mais um dia memorável para toda uma comunidade sequiosa de conhecimento e reflexão. É, aliás, a única sede que convém ter na Web Summit, ou não custasse uma imperial a módica quantia de 3 euros.

Mas, dizíamos, o conhecimento e a reflexão abundam no recinto da Web Summit. É por isso que um dia passado ali dentro equivale a obter muitas respostas para todo o tipo de perguntas. Se formos curiosos e passarmos o dia no recinto a absorver conteúdo como se fôssemos versões humanas de esponjas, serão muitas perguntas e demasiadas respostas. Tal como o condutor Uber que não sabia onde ficava o El Corte Inglês, também nós saímos do Parque das Nações com mais dúvidas do que certezas.

Foi a passagem desnecessária pelas Olaias de que precisávamos para ligar o nosso Waze existencial e atalhar caminho rumo ao conforto moderadamente acrítico de que precisamos enquanto aguardamos pela morte. Por isso, sem mais demoras, aqui vão respostas pragmáticas à maioria das perguntas colocadas hoje no âmbito do certame de variedades Web Summit.

How do you win fans and influence people? (Como ganhar fãs e influenciar pessoas?)
Fácil. Leiam os nossos artigos. Estudem tudo aquilo que fazemos. E façam o contrário.

Is design thinking overrated? (Está o design thinking sobrevalorizado?)
Óbvio. Aliás, o próprio nome já anuncia ao que vem. Se o design thinking fosse uma pessoa, seria um tipo com óculos de massa que coloca underscores entre as palavras e acha que isso é um ponto de vista sobre o mundo. Não sei se já alguma vez cheiraram um design thought, mas tresanda a excremento de touro ou a conversa fiada, conforme a circunstância. Todas as metodologias de projeto ou de produção criativa que foram inventadas pelo homem tiveram como objetivo não um melhor resultado criativo, mas um aumento do lucro. Não há nada de fundamentalmente errado nisso – se forem vocês a emitir a fatura.

The whole Humanthing. Can marketing save our species? (Pode o marketing salvar a nossa espécie?)
No dia em que a sociedade considerar que o desígnio do marketing é salvar a nossa espécie, estes dois autores irão ponderar o suicídio.

What does it take to be a modern CMO? (O que é preciso para ser um líder de marketing moderno?)
Uma capacidade extraordinária, quase sobrehumana, de trabalhar em marketing durante tempo suficiente até conseguir chegar a CMO, mas acima de tudo a mais importante das virtudes: noção. Sem essa simples qualidade, podemos dar por nós a promover gelados do McDonalds com trocadilhos como “sundae bloody sundae”. Aí está alguém que dificilmente chegará a CMO.

Can brands save the planet? (Podem as marcas salvar o planeta?)
Ver resposta a “The whole Human thing.”

Planes, trains and automobiles. How can we travel sustainably? (Como podemos viajar de forma sustentável?)
Santa Greta nos perdoe, mas depois de um dia destes, nós não queremos saber da sustentabilidade. O que nos levar mais rápido e para mais longe fora daqui serve. Se passasse agora uma locomotiva a vapor ou uma jangada empurrada até à FIL por uma mancha de crude, nós apanharíamos alegremente a sua boleia.

Cells to space to salads. What’s a robot good for? (Para que é que é bom um robô?)
Se perguntarem aos criadores da Sophia, serve para três anos de convites à Web Summit. Diz quem tem um Rumba ou uma Bimby em casa que também são fixes.

What makes a SaaS star? (O que faz de alguém uma estrela de SaaS?)
Sabe Deus, mas arriscamos uma resposta: nada. Rigorosamente nada. Não há nada que torne uma sigla que significa “software as a service” relevante, a não ser talvez uns quantos milhares de pessoas absolutamente deslumbrados com toda e qualquer pergunta.

GenZ consumers. What do they want? (O que querem os consumidores da geração Z?)
As boas notícias é que se calhar vamos deixar de falar em como os millennials são tão diferentes das gerações que os precederam, apesar de não serem. Poderíamos aprofundar a explicação, mas digamos apenas que uma parte dos jornalistas à nossa volta contam o Clickhole como “uma fonte” e ir ao Google como “fazer investigação.” A má notícia é que vamos repetir tudo de novo com a geração que os segue, a chamada Gen Z. E, respondendo à pergunta, a Gen Z quer o mesmo que todos nós — ou pelos menos o mesmo que quem assina este artigo: que os deixem em paz, quer sejam uma marca, um jornalista ou um sociólogo. Sigam o nosso lema: é viver e deixar beber.

To scale or not to scale? (Escalar ou não escalar?)
Eis a questão: quando é que vamos deixar o pobre do Shakespeare descansar? Todos os dias dá mais voltas ao caixão com aquilo que fazem ao seu icónico monólogo do Hamlet. E eis a resposta: sim, escalem à vontade mas não sejam parvos. Façam isso longe de nós. Escalar, um termo raptado pelo establishment empreendedor luso, não significa exatamente aquilo  que o cidadão comum pensa. Esqueçam a escalada. Escalar, conforme usado pelas startups, significa aumentar a operação. É mais um termo pomposo para sinalizar virtudes de gestão em negócios que esperam atingir o break-even em 2045. De resto, obrigado por virem à nossa TED talk. Se quiserem mais destas grandes pérolas de sabedoria também fazemos serviço de consultoria. Passar fatura é opcional, exceto a quem pertence à Iniciativa Liberal. Só porque achamos piada e no fundo no fundo eles gostam tanto de se queixar de pagar impostos quando nós nos divertimos a obrigá-los a pagá-los.

Is collaboration killing us? (Está a colaboração a matar-nos?)
Esta talvez esteja. Mas é lentamente, e do fígado. Esta é uma daquelas perguntas que dão vontade de deixar o perguntador a falar sozinho.

AI: advantage investing? (Há vantagem em investir em inteligência artificial?)
Por uma vez, estamos sem palavras. Qual foi o artista que achou que este nome para uma conversa fazia sentido ou era inteligente? De resto, se há coisa que abunda neste evento é inteligência artificial. Não sabemos é se vale a pena investir nisso.

What makes TikTok tick? (O que faz o TikTok ter sucesso?)
A estupidez da juventude. Não estamos a julgar. Também passámos por isso. Aliás, damos graças a todos os deuses por não existir uma aplicação na altura onde nos pudéssemos humilhar perante todo o país. Já bastava que alguns dos nossos pais insistissem em levar-nos à escola.

Adtech is dead. What’s next? (Tecnologia para publicidade está morta. O que se segue?)
Permitam-nos parar de bater nos empreendedores por um bocadinho. Já voltamos a isso.

Mas. Nesta nossa indústria, os jornalistas da área de marketing e publicidade (atenção: usamos o termo jornalistas na sua forma mais lata) gostam mais de anunciar mortes do que os do Correio da Manhã. Não, a publicidade não morreu. Não, o rádio não morreu. Sim, era fixe que os QR codes morressem. Mas, caramba, nem o raio dos vínis morreram e todos sabemos que não faz sentido nenhum pagar o triplo de uma subscrição do Spotify por uma espécie de CD que ocupa mais espaço, a não ser que se seja um bocadinho hipster. P.S. – Agradecemos desde já aquelas 15 pessoas que nos vão escrever a dizer que a diferença da qualidade de som de um vinil à de uma plataforma digital é imensa, até porque estatisticamente falando 14 de vocês não conseguem ouvir essa diferença.

Time to target a different audience? (Altura de fazer de outra audiência um público-alvo?)
Boa pergunta. Curiosamente será este o eufemismo que a editora do Observador vai utilizar para nos explicar que não pretende mais textos.

What happens to team work when you rapidly increase your workforce in 18 months? (O que acontece ao trabalho de equipa quando cresces muito?)
Efetivamente temos a resposta a isto. Mas estamos à espera de um convite do Observador para escrever esse especial. Talvez tenha de ser uma série de artigos. Nós não desejamos mal a ninguém, mas se uma certa startup Portuguesa se despachasse a fechar as portas, mais rápido se contava esta história.

Smart exits. How can we help? (Inteligência existe. Como podemos ajudar?)
É só simplificarem um bocado. Vimos demasiada gente à procura da saída mais próxima, e demasiados voluntários incapazes de responder. Por favor. Queremos sair daqui. Queremos sair agora.  Mesmo sabendo que vamos ter de voltar amanhã. E mesmo que isso nos custe. Mas vamos, por vocês. Até amanhã.

*Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras copywriter e content strategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar.