Tal como uma matrícula regista um carro ou como um chip regista um animal, também a Vet-OncoNet (Veterinary Oncology Network) pretende registar os tumores surgidos em animais de companhia, para posteriormente investigadores poderem estudar que influências externas e que fatores de risco lhes podem estar associados.

Para isso, a equipa responsável, chefiada pelo professor e investigador João Niza Ribeiro, pretende avançar com uma iniciativa de crowdfunding destinada à sensibilidade dos donos dos animais que contraem doenças.

A criação pioneira em Portugal é de uma equipa que une dois institutos da Universidade do Porto, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e o Instituto de Saúde Pública. Como parceiras estarão ainda a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto e a Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, que ajudarão a sistematizar duas áreas distintas: uma vertente de comunicação, dirigida ao público em geral, que quer “criar uma comunidade que partilhe questões e dúvidas para ajudar as pessoas que têm de cuidar dos animais doentes”, afirma João Niza Ribeiro.

Numa vertente “muito mais científica”, a plataforma vai disponibilizar um registo de todos os casos de cancro, com a ajuda dos laboratórios de diagnóstico e das clínicas veterinárias. A ideia é “gradualmente ter uma imagem mais concreta do que é que acontece no país e até internacionalmente”, à semelhança do que acontece com o registo oncológico em humanos, numa altura em que se sabe que 70% dos casos de cancro têm influência do exterior.

Saber mais sobre cancro em animais ajuda à investigação sobre oncologia humana

Do que João Niza Ribeiro apelida de “iniciativa muito ambiciosa” espera-se também que cumpra um segundo e igualmente ambicioso objetivo: o de criar conhecimento que seja útil à investigação no cancro em humanos.

Katia Pinello é outra das investigadores ligadas à Vet-OncoNet e estudou no âmbito do doutoramento a relação entre a incidência do linfoma em humanos e em cães. A professora assegura ao Observador que estes animais “podem servir como sentinelas para prevenção do cancro nos humanos”. Como?

“Ao viverem menos tempo, o desenvolvimento de neoplasias, com influência do ambiente vai ocorrer mais cedo. Enquanto um humano precisa de estar 20 anos exposto a um perigo, um animal precisa de estar apenas oito”, refere a título de exemplo.

Mas Katia Pinello também pôde testemunhar uma distribuição semelhante de tumores em humanos e em animais, na mesma zona geográfica. “Onde há mais linfomas humanos também aparecem evidências de existirem mais linfomas caninos”, já que as duas espécies “são muito parecidas anatomicamente e patologicamente”.

João Niza Ribeiro acrescenta que as evidências recolhidas pela investigadores têm agora “de ser cientificamente aprofundadas e validadas. Se conseguirmos chegar a demonstrar concretamente que fatores e em que situações”, para posteriormente serem criados indicadores que sejam partilhados e que ajudem a perceber de que forma é que esta ligação acontece, “isso será de uma grande utilidade na prevenção da oncologia humana”, conclui o professor.

O estudo comparativo de tumores em humanos e em animais faz parte do conceito de “One health” (Uma Saúde), que defende a influência dos fatores ambientais tanto no surgimento de cancro nos humanos como nos animais de companhia, por compartilharem espaços e, portanto, fatores de influência externa.

“Os animais de companhia têm um tempo de vida curto, relativamente à espécie humana — um animal de companhia vive 10 ou 15 anos, por norma — então os problemas de saúde que têm processam-se muito mais rapidamente neles do que em nós humanos. Portanto, uma das linhas que vamos explorar é esta possibilidade”, explica o professor e investigador.

Lançada a 6 de dezembro, pelas 10h30, no Salão Nobre do ICBAS, a rede de conhecimento permitirá avanços “na medicina animal com o conhecimento que temos da medicina humana, mas também que a medicina humana use modelos animais para progredir”, conclui João Niza Ribeiro.