Primeiro, uma carta enviada às autoridades iraquianas; depois, um desmentido do secretário da Defesa norte-americano; por fim, o reconhecimento de que se tratava de uma carta genuína, mas que foi enviada por “engano”.

Esta segunda-feira a imprensa internacional noticiou a retirada das tropas da coligação militar internacional liderada pelos Estados Unidos do Iraque, na sequência do voto do Parlamento iraquiano contra a presença das tropas norte-americanas no país. A fonte era segura e a fundamentação da notícia — uma carta, com o timbre do Departamento de Defesa e a assinatura do comandante das tropas americanas no Iraque, enviada pelas forças armadas dos EUA às autoridades militares iraquianas — também. Ainda assim, pouco tempo depois de ser divulgada em todo o mundo, o Pentágono negou a informação. “Ainda não houve nenhuma decisão de sair o Iraque”, afirmou o secretário da Defesa dos EUA, Mark Esper, sublinhando que a carta divulgada é “inconsistente” com a “posição atual do governo norte-americano”.

“Estamos a reposicionar as forças em toda a região”, limitou-se a confirmar Esper. “Não consigo falar-vos da veracidade dessa carta e posso dizer-vos o que li. Essa carta é inconsistente com a nossa posição atual”, garantiu o governante, ressalvando ainda ter lido o documento apenas uma vez .

Poucos minutos depois, um alto responsável das forças armadas norte-americanas explicou o que efetivamente se terá passado: a carta era verdadeira, mas supostamente não devia ter sido enviada. Seria apenas um “rascunho”. Foi Mark Milley, Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas norte-americanas, quem reconheceu o erro: a carta era “genuína”, mas “não devia ter sido enviada”. De caminho, revela a AFP, Milley apontou mesmo o culpado: “Foi um erro de McKenzie”, disse, referindo-se ao comandante do Comando Central dos EUA, o general Frank McKenzie.

Se o episódio tivesse ficado por aqui já seria inusitado o suficiente. Porém há mais: através do Twitter, a correspondente do Washington Post em Beirute, Liz Sly, revelou entretanto que várias das suas fontes militares, questionadas sobre o assunto, lhe garantiram que as cartas-rascunho costumam ter uma marca de água distintiva — exatamente com a palavra “rascunho”. “Também me têm dito que não é normal que os rascunhos de cartas sejam traduzidos. E este foi”, acrescentou ainda a jornalista britânica, que publicou aquela que se supõe ser uma fotografia da versão do documento em árabe.

Não obstante todas as versões e explicações posteriores, a mensagem divulgada pela carta é clara. E o que o comandante das tropas americanas no Iraque, William H. Seely, escreveu foi: “Respeitamos a vossa decisão soberana a ordenar a nossa saída (…) Em respeito pela soberania da República do Iraque, e como pedido pelo Parlamento e pelo primeiro-ministro, a coligação irá reposicionar as suas forças (…) para assegurar que a saída do Iraque é levada a cabo de maneira segura e efetiva”.

Os Estados Unidos tinham até agora 5.200 militares no Iraque. Na semana passada, o país anunciou o envio de perto de 3.500 militares para a região, na sequência da escalada de tensão entre os EUA e o Irão devido à morte do general Qassem Soleimani, líder militar iraniano. Os EUA mataram Soleimani num ataque aéreo em retaliação contra ataques de uma milícia apoiada pelo Irão contra posições norte-americanas no Iraque e na Síria.

De acordo com a imprensa internacional presente em Bagdade, na noite desta segunda-feira já foi possível ouvir helicópteros norte-americanos em movimentações, não havendo ainda certezas sobre se estarão ou não relacionadas com a retirada dos militares da coligação internacional do território iraquiano. De facto, na carta — que pode ser lida na íntegra aqui — lê-se que durante o período da saída das tropas da coligação do Iraque “haverá um aumento do tráfego de helicópteros dentro e à volta da zona internacional de Bagdade”.