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“Nós também temos culpa”.

Nos minutos anteriores à chegada de Miguel Pinto Luz ao edifício de cowork LACS, em Lisboa, antes de este passar do silêncio a gritos efusivos de “PSD” (proferidos de mão em riste), havia já quem analisasse o resultado do candidato — terceiro classificado da primeira volta das eleições do partido, com uma votação entre os 9% (a oficial) e os 12% (a que escolheu anunciar, considerando os votos onde houve irregularidades, nomeadamente na Madeira).

Nas primeiras filas junto ao palco da sede da noite eleitoral, contrariando o discurso de derrota disfarçado de discurso de vitória que se ouvira às 20h30 por um porta-voz da campanha, havia quem comentasse: “Nós também temos culpa”. Culpa porque talvez o trabalho de persuasão das bases devesse ter começado “muito” antes. Culpa porque poderia ser precisa mais “disciplina de trabalho”. Mas, dizia-se quase em surdina, “ele esteve bem”. Fez o que pôde, num partido onde a nova geração se sente injustiçada: “Havemos de ter 70 anos e sermos tratados como novos”, queixava-se um apoiante a outro.

Pinto Luz à chegada, com gritos de “PSD” que também ele acompanhou (@ André Dias Nobre / Observador)

O objetivo oficial era a passagem à segunda volta das eleições presidenciais, mas sabia-se que, com os pesos pesados Rui Rio e Luís Montenegro na corrida, o desafio era difícil. Foi o próprio Miguel Pinto Luz quem o assumiu, numa declaração de análise dos resultados sem direito a perguntas que é pouco habitual em noites eleitorais e pouco comum no PSD – embora acabasse por não ser um exclusivo, já que Luís Montenegro fez exatamente o mesmo.

Depois de “dar os parabéns ao dr. Rui Rio e ao dr. Montenegro nesta eleição”, o candidato vincou que a campanha partiu “com expectativas modestas”. Para isso contribuíram, apontou, “todos aqueles que a todo o custo tentaram uma bipolarização destas eleições”. Na primeira fila, o apoiante José Eduardo Martins comentou em voz alta: “Muito bem”. Mas ninguém pôde perguntar a Pinto Luz quem é que tentou bipolarizar as eleições, por impossibilidade de questionar o candidato derrotado.

Miguel Pinto Luz esta noite, no discurso de análise aos resultados da primeira volta das presidenciais do PSD (@ André Dias Nobre / Observador)

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Apesar do resultado, Miguel Pinto Luz sugeriu que este terá sido melhor do que os críticos esperariam. “Surpreendemos todos”, atirou, enaltecendo um feito que considera que a sua candidatura logrou: marcar a diferença “pelas ideias”, pelo “reformismo”, pelo “arrojo”, pela “agenda” que escolheu e pelas “prioridades”. Enaltecendo a “vitalidade e vivacidade do partido”, saiu da sala ao som de aplausos e cumprimentos de apoiantes e do núcleo duro da candidatura. Não sem antes se ter posicionado para o futuro.

A mira num futuro: com o PSD, a “liderar o país”

Na playlist que se ouvia na sala dos Anjos, em Lisboa, onde alguns (bastantes) jornalistas e alguns (poucos) apoiantes passaram a noite — o candidato chegou apenas às 22h40, para falar e ir embora logo de seguida —, chegou a passar “2020”, a canção que Branko, Ana Moura e Conan Osiris lançaram no início deste ano. Foi a primeira colaboração entre os três artistas portugueses, simbolicamente naquele que foi também o primeiro grande desafio de Miguel Pinto Luz a uma liderança do PSD.

Na mira, o candidato tem o futuro: “É com a força das nossas ideias que conseguimos recuperar muitos homens que estavam afastados do PSD. É com a força das nossas ideias que o PSD voltará a liderar o país”, prometeu.

Miguel Pinto Luz: “Rui Rio está com enorme insegurança em relação ao resultado das diretas”

Houve 12% que escolheram “um modelo diferente de fazer política”, segundo as as contas de Pinto Luz, que incluíam os resultados na Madeira, que não foram considerados oficialmente pelo conselho de Jurisdição do PSD por estarem sob impugnação. Oficialmente, ficou-se pelos 9,3% e é esse resultado que o candidato tentará capitalizar de futuro: se a noite eleitoral foi dececionante e o objetivo da segunda volta ficou distante, o social-democrata parece convicto de que as suas ideias têm futuro no partido. E com elas, também ele como político.

O silêncio e o pouco entusiasmo imperaram antes e depois da declaração de não vitória que também não foi derrota, ao final da noite. Houve, porém, quem não desse a noite por perdida, após o ataque aos comes e bebes que incluíam croquetes, rissóis, sandes em miniatura de salmão fumado e águas e sumos de laranja.  “Estou cheio que nem um cabaz”, dizia um apoiante a outro, já Pinto Luz saíra da porta do LACS.