Isabel dos Santos admitiu ser candidata à presidência de Angola em entrevista à RTP. A empresária, que diz “estar a ser perseguida pela Justiça”, diz que fará “tudo” o que tiver de fazer “para defender e prestar os serviços à minha terra, ao meu país, Angola”, e isso inclui uma candidatura presidencial ao cargo que o pai, José Eduardo dos Santos, ocupou durante 38 anos.

Durante a entrevista, em Londres, o jornalista perguntou: “Isso inclui ser presidente?”. Ao que a empresária diz: “É possível”. É a primeira vez que a Isabel dos Santos admite liderar politicamente os destinos de Angola. As próximas eleições presidenciais no país são em 2022.

Não podemos utilizar a corrupção, ou a luta contra a corrupção, ou a suposta luta contra a corrupção, de forma seletiva para poder neutralizar o que nós achamos que podem ser futuros candidatos políticos. (…) O que se está a fazer hoje em Angola são processos políticos. São processos seletivos, que têm a ver a ver com a luta de poder com o MPLA”, diz Isabel dos Santos.

A empresária, de 46 anos, deixou duras críticas à liderança à atual liderança do partido no poder em Angola desde 1976: “Hoje, o MPLA tem um problema porque o balanço, o seu balanço económico, o seu balanço social, nos últimos dois/três anos, é um balanço muito fraco. Não apresenta resultados. Estamos a chegar a um sistema em que o país pode estar em bancarrota”, refere.

Isabel dos Santos mostrou documentos que diz serem provas de contratos que envolvem o Presidente de Angola, João Lourenço, e o antigo vice-presidente do país, Manuel Vicente, que foi também presidente do conselho de administração da Sonangol, com o objetivo de elaborar o que diz ser uma “campanha contratada” contra a empresária, através de entidades de lobbying dos EUA, com o que diz ser “sub-contratos” que passam também por Malta e Portugal.

“Nada aqui é inocente. Querer fazer parecer que eu sou o foco da corrupção em Angola não é nada mais do que neutralizar porque há vozes em angola que acreditam que eu posso fazer política. Trata-se de uma perseguição pessoal. É uma perseguição política. Só estive no cargo da Sonangol 18 meses, a comparar com o engenheiro Manuel Vicente que esteve lá vários anos.”

“Acho que as pessoas são nomeadas pelos cargos pelos seus currículos, e o meu currículo fala por si. A minha capacidade de gestão é uma capacidade reconhecida, uma capacidade de gestão com o mundo de negócio internacional”.

Sobre eventuais consequências em Portugal provocadas pelas acusações que recaem sobre Isabel dos Santos, a empresária quer “acreditar que há um Estado de Direito em Portugal”.

“As alegações são falsas”

Na entrevista à RTP 3, e sobre a acusação de ter provocado prejuízos de mais de cem mil milhões de euros ao Estado angolano, Isabel dos Santos disse estar a levar “bastante a sério” estas alegações. “Os meus negócios são conhecidos. Sempre informei as autoridades das minhas intenções de investimento. Tendo ligações familiares ao Presidente da República, o escrutínio é elevadíssimo. Sempre me foram pedidos todos os documentos. Sempre fui submetida a um grande nível de diligências. Não me foi dada oportunidade de todo para me defender. Não fomos informados que havia uma investigação no tribunal de Luanda”, afirmou.

“Estamos a falar de nove empresas do país”, continuou. “Estamos a falar de empresas com relações diárias com as pessoas. Tendo em vista o impacto social. Imagino a preocupação quando as pessoas ouviram isso a 3o de dezembro. Tive centenas de telefonemas, pessoas a perguntarem-me o que deviam fazer.”

Confrontada com eventuais transferências para a Rússia, que não terão cumprido as exigências legais, Isabel dos Santos defende-se: “As alegações são falsas. Nunca dei transferência ou ordem de transferência alguma para negócio algum na Rússia. Diz-se que tive reuniões com um árabe. […] Não tive reuniões com ninguém. Acho que o tribunal fez um comentário que é um bocadinho racista, desculpe dizer abertamente. E não é verdade que um sócio tenha feito em meu nome transferências. Preocupa-me ter a PGR a fazer representações em frente ao tribunal baseadas em alegações que não aconteceram. Sou empresária à vários anos. Sou uma empresária séria que investe, investi muito no país. Investi muito também em Portugal. Acredito que como parceira do Estado […] trouxe beneficio de 2/3 mil milhões para o Estado.

“José Eduardo dos Santos é um homem que sempre trabalhou por Angola”

A providência cautelar de arresto dos bens de Isabel dos Santos invoca, como justificação, a compra da empresa De Grisogno, de joalharia de luxo por parte do antigo Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, que terá depois oferecido o negócio a Isabel dos Santos e Sindika Dokolo, “sua filha e genro” e que a Sodiam, empresa angolana de exploração de diamantes, assumiriam todos os encargos do negócio.

A empresária confessou, na mesma entrevista, que esta é a alegação que mais a preocupa. “O presidente José Eduardo dos Santos é um homem que sempre trabalhou por angola, sempre foi um patriota, é um homem que tem um grande legado em relação à pátria. É o arquiteto da paz. É um homem que sempre teve os interesses de Angola e dos angolanos acima dos seus. Quando li essa afirmação notei uma grande preocupação. Não só ela é falsa e incorreta, mas, mais profundamente, mostra que há uma vontade política. Por isso é que afirmo que este processo é um processo político e não negocial.”

“O Presidente José Eduardo dos Santos ganhou três eleições democráticas em Angola e, durante todo o seu legado, foi um homem muito amado”, defendeu Isabel dos Santos. “Se formos ver as eleições que ele ganhou, foram eleições com 80%. É uma pessoa muito respeitada. Eu, como todos os outros angolanos, com a chegada do presidente João Lourenço, acreditámos que seria uma nova era e uma nova Angola. Mas hoje, o que denoto é que não é. Não é uma nova era, não é uma nova Angola. O que se está a fazer hoje em angola são processos seletivos e que têm a ver com a luta de poder do MPLA.”

“Caça às bruxas”

Em dezembro, em entrevista ao Observador, Isabel dos Santos disse que existe atualmente em Angola uma “caça às bruxas” e que os seus escritórios “tinham sido alvo de um ataque de hackers”.

No final de 2019, a Justiça angolana avançou contra Isabel dos Santos, com atos que passaram pelo arresto das suas contas bancárias, imputando indiretamente ao ex-Presidente da República cumplicidade nos alegados prejuízos de mais de mil milhões de euros que, segundo o Ministério Público, a sua filha mais velha terá provocado ao Estado angolano.

No início deste mês, a empresária disse que o arresto decretado às suas contas bancárias e participações em empresas — a par das do seu marido, Sindika Dokolo, e do gestor português Mário Leite da Silva — “abrange um património superior a dois mil milhões de euros, pelo que satisfaz, em excesso, a medida preventiva requerida em Angola”. Isabel dos Santos disse que estas medidas da Justiça angolana serviam para “mascarar o fracasso” da política económica de João Lourenço, o atual Presidente de Angola.