Os Estados Unidos e Macau detetaram o primeiro caso de infeção com coronavírus. O primeiro caso detetado, esta quarta-feira, em Macau diz respeito a uma mulher de 52 anos, comerciante, oriunda da cidade chinesa de Wuhan, onde foi detetado o coronavírus, que chegou a Macau no dia 19 e que foi submetida a dois testes que confirmaram a doença, refere a Lusa, que cita as autoridades locais. Atualmente em regime de isolamento, é considerada uma paciente de alto risco. A mulher está a receber tratamento no Centro Hospitalar Conde de São Januário.

O Centro de Controlo de Doenças (CDC) norte-americano confirmou, esta terça-feira, o primeiro caso no país. É o primeiro caso de infeção com o novo vírus no ocidente. Trata-se de um homem que está internado no Centro Médico Regional de Providence, em Washington, e tinha viajado de Wuhan, a terra chinesa de origem deste vírus (inicialmente tratado como uma doença misteriosa) para os Estados Unidos. Mas não frequentou o mercado de animais onde ficou infetada a maioria dos contagiados confirmados até agora.

De acordo com o CDC, que confirmou o caso em conferência de imprensa, as autoridades estão a fazer a lista das pessoas com quem este paciente esteve em contacto desde que chegou aos Estados Unidos.

Pelo menos 17 pessoas já morreram e 473 pessoas estão comprovadamente infetadas só na China com esta nova estirpe do coronavírus — uma família de vírus — que provoca complicações respiratórias graves que conduzem à morte. A Comissão Nacional de Saúde da China alertou que este novo tipo de coronavírus “pode sofrer mutações e espalhar-se mais facilmente”.

Os primeiros casos foram detetados em Wuhan, na China, em 41 pessoas com sintomas semelhantes aos de uma pneumonia, todos eles frequentadores do mercado de animais local. Entretanto, já são 17 os mortos e 473 os contagiados.

Paramédicos levam paciente infetado com a nova estirpe do coronavirus para o interior do Hospital Jinyintan a 18 de janeiro em Wuhan. Créditos: STR/AFP via Getty Images

Já apareceram doentes no Japão, Tailândia, Taiwan e Coreia do Sul. Há um homem a ser examinado em Brisbane, na Austrália, porque apresentou sintomas de problemas respiratórios pouco tempo depois de ter regressado de uma viagem à cidade chinesa de Wuhan. Mas o caso norte-americano é o primeiro a ser confirmado no ocidente.

A possibilidade de o vírus chegar à Europa e, concretamente, a Portugal, existe, embora o risco seja baixo. Foi isso mesmo que disse o presidente da Associação Nacional de Médicos da Saúde Pública, Ricardo Mexia, esta quarta-feira à TVI: “Fruto da mobilidade que hoje temos a nível global, não podemos ignorar que existe um risco, ainda que baixo, que o vírus possa chegar ao continente europeu e a Portugal, concretamente”, alertou. O facto de o vírus já ter chegado a Hong Kong, Macau, Tailândia e EUA, locais distantes de Wuhan (onde o surto teve origem) “pode ser um indicador de que a mobilidade propicia a expansão do vírus“, acrescentou o clínico.

A notícia de uma infeção com a nova estirpe do coronavirus nos Estados Unidos e em Macau surge depois de a Organização Mundial de Saúde marcar uma reunião sobre o surto para esta quarta-feira. No encontro em Genebra, na Suíça, a OMS decidiu, porém, que ainda não está em causa uma emergência global de saúde pública. Ainda assim, a China decidiu suspender os voos e comboios de e para Wuhan.

Agora, em declarações à TVI24, questionada sobre se os aeroportos portugueses vão tomar medidas adicionais para evitar a entrada do vírus em Portugal, a diretora-geral da Saúde disse que ainda não há essa necessidade: “A OMS, noutras situações, o que recomenda é que seja feito um rastreio às pessoas que saem do país de origem da doença. Temos um protocolo estabelecido com os aviões e com os navios para que uma pessoa que adoeça durante a viagem seja logo referenciada para os nossos serviços”.

Segundo Graça Freitas, não se costuma fazer um rastreio à entrada do país porque, além de já ter sido feita à saída do país de origem onde a doença já chegou, “teria de ser uma grande coincidência que alguém que estivesse sem sintomas adoecesse exatamente no momento em que estivesse a chegar a Portugal“: “Habitualmente, a OMS não o recomenda. No entanto, amanhã aguardamos novas recomendações e agiremos sempre conforme o que a OMS achar que é a melhor prática”.

A diretora-geral de Saúde realçou que “todos os dados são provisórios“: “Há caso para continuarmos muito atentos porque houve um aumento de casos e ainda não foi identificada a fonte deste novo vírus. Temos de estar atentos, temos de ir tomando medidas à medida que a avaliação do risco nos indicar. A China está a fazer um esforço muito grande para conter a doença”.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, tinha convocado esta quarta-feira o Comité de Emergência da organização para que se avaliasse a possibilidade e as recomendações a seguir se fosse declarada a emergência de saúde pública internacional, aplicável às epidemias mais graves. Os especialistas de vários países não chegaram a um consenso, pelo que se decidiu prolongar a reunião até quinta-feira de manhã para uma decisão.

Os aeroportos por todo o mundo estão a equipar os sistemas de segurança com ecrãs que detetam alterações da temperatura corporal para sinalizar possíveis casos de pessoas infetadas. A estratégia já está a ser adotada não só na China, mas também no Japão, Hong Kong, Itália, Estados Unidos, Nigéria, Coreia do Sul, Estado Unidos, Índia, Singapura, Malásia, Bangladesh, Austrália e Rússia.

Em Macau estão a ser tomadas várias medidas de reforço de prevenção e controlo para combater a transmissão deste novo coronavírus. Em conferência de imprensa, as autoridades anunciaram que estas medidas serão tomadas junto dos casinos, nas fronteiras, nos espaços e serviços públicos, bem como durante a realização de grandes eventos, num momento em que Macau atrai milhares de pessoas durante o Ano Novo Lunar.

Tendo em conta o maior fluxo de visitantes, as autoridades vão realizar testes de medição de temperatura, uma medida promovida também nos serviços públicos, tendo sido determinado o uso de máscaras para trabalhadores em atendimento ao público. A medida será também alargada aos trabalhadores dos casinos, com as autoridades a indicarem que vão emitir uma instrução.

Os espaços públicos estão a ser alvo de operações de limpeza, casos das paragens de autocarro e de táxis, e mercados municipais.

As autoridades anunciaram ainda que após o período das férias do Ano Novo Lunar vão ser tomadas medidas de reforço de prevenção e controlo nas escolas do território.

Na altura, as indicações dadas pela diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, foram no sentido de desvalorizar os alertas da OMS. Em declarações aos jornalistas, afirmou então que “não temos de estar alarmados, a natureza é assim, aparecem novos vírus, é preciso é estarmos atentos”: “Um dos indicadores que nos deixa tranquilos é o facto de nenhum dos profissionais de saúde que trataram estes doentes em internamento, inicialmente mesmo sem saberem o que era, ter, até à data, adoecido”, afirmou. Mas a China acabou por confirmar que esse contágio entre humanos existe mesmo.

Graça Freitas considerou então “um bocadinho excessivo” o alerta de potencial contágio em massa emitido pela OMS ainda antes da reunião de emergência convocada para esta quarta-feira, ainda sem a novidade da chegada do vírus a um país ocidental: “Obviamente há sempre esse potencial na natureza, mas neste caso não há evidencia de contágio entre pessoas, sem a qual não pode existir essa massificação. A eventual propagação não é uma hipótese neste momento a ser equacionada”.

Contrariando as previsões da diretora-geral de Saúde, esta segunda-feira foi assinalada a primeira transmissão entre humanos desta nova estirpe de coronavirus — um dos indicadores que, segundo Graça Freitas, por ser improvável também dificultaria um contágio em massa. O caso foi detetado em Guangdong, na China, no seio de uma família que ficou inteiramente infetada depois de um dos membros ter adoecido com o novo vírus.

A população chinesa em Wuhan tem usado máscara para aumentar a proteção contra o novo coronavirus. Créditos: China / Barcroft Media via Getty Images

O que é o coronavirus?

O coronavírus não é apenas um vírus, mas uma grande família de vírus que podem infetar seres humanos e causar doenças mais ou menos graves, como uma simples constipação, uma diarreia, ou complicações respiratórias mais graves que podem conduzir à morte. Nalguns casos, o vírus passa de animais para humanos, noutros pode ser transmitido apenas entre humanos.

Segundo o professor Jaime Nina, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, “há uma dúzia de coronavírus que se sabe que infetam humanos” que vivem entre nós e que podem provocar “sintomas banais”. Até agora só duas estirpes se revelaram “catastróficas” provocando surtos, e galgando fronteiras, que acabaram em mortes.

Em dezembro, na China, depois de 41 pessoas terem sido assistidas com uma pneumonia em Wuhan, e de se ter verificado que todas elas tinham frequentado um mercado de animais naquela zona, as autoridades chinesas investigaram a então conhecida como apenas como ‘doença misteriosa’ e perceberam que estes doentes tinham sido infetados com uma nova estirpe do coronavírus. Este sábado a comunidade científica identificou o seu genoma e percebeu que se estava perante uma nova estirpe do coronavírus.

Uma imagem captada através de um microscópio de vírus da família coronavirus, a que pertence a nova estirpe identificada na China. Créditos: Cavallini James/BSIP/Universal Images Group via Getty Images

Como reagiu a OMS ao aparecimento deste novo vírus?

Depois de se perceber que o vírus não estava contido naquela cidade chinesa, e que já tinha chegado à Tailândia através de uma mulher, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou todos os países, temendo contágios em massa e pedindo a hospitais de todo o mundo para se prepararem para surtos semelhantes aos de 2002 e 2012 — já lá vamos. O alerta foi emitido porque, só entre 31 de dezembro de 2019 e 11 de janeiro de 2020 foram reportados 59 casos de pneumonia cujos pacientes tinham algo em comum: frequentaram um mercado de peixe em Wuhan, China.

A mulher tailandesa, no entanto, apesar de ter frequentado os mercados do centro de Wuhan, garantiu não ido ao mercado de peixe que todos os outros pacientes frequentaram e que levou ao seu encerramento por parte das autoridades. Um especialista em medicina respiratória da Universidade da China revelou que esta informação pode significar “que o vírus pode estar a alastrar para outras zonas de Wuhan”, afirmou David Hui Shu-cheong, citado pelo South China Morning.

A OMS emitiu  depois um comunicado e deu também a informação de que esta nova estirpe seria transmissível entre humanos através do contacto com a pessoa doente, seja no local de trabalho, em casa ou numa unidade médica. A possibilidade de ser transmitida entre humanos não foi confirmada pelas autoridades de saúde de Wuhan, no centro da China, mas uma declaração publicada no portal oficial, a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan explicou que, embora não haja nenhum caso de contágio entre seres humanos comprovado, a possibilidade de ocorrência “limitada” não pode ser descartada.

E em Portugal, o que fez a DGS?

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, relativizou o perigo que o coronavirus podia significar para o resto do mundo, fora da China. Há seis dias, em declarações aos jornalistas, a infecciologista considerou “um bocadinho excessivo” o alerta da OMS: “Obviamente há sempre esse potencial na natureza, mas neste caso não há evidencia de contágio entre pessoas, sem a qual não pode existir essa massificação. A eventual propagação não é uma hipótese neste momento a ser equacionada”.

“Neste momento não há nenhum motivo para alarme nem sequer para alerta”, garantiu a especialista na semana passada. À época, Graça Freitas garantia que havia uma “fraquíssima possibilidade” de transmissão do vírus de pessoa para pessoa.

Mas menos de uma semana depois, essa possibilidade confirmou-se, quando se detetou a circulação do novo vírus entre membros da mesma família — abrindo mesmo a possibilidade de uma transmissão em massa entre pessoas.

Logo após essa notícia, a OMS organizou uma nova reunião para determinar um plano de atuação caso o coronavírus ganhe maiores dimensões. Já a DGS, num comunicado emitido na manhã desta terça-feira e assinado por Graça Freitas, disse que “não há evidência, até à data, de transmissão sustentável pessoa-a-pessoa” e sublinha que “a maioria dos casos está epidemiologicamente associada a um mercado específico de alimentos e animais vivo em Wuhan”.

A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Créditos: KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Além disso, a diretora-geral da Saúde ressalva que “existe baixa probabilidade de importação de casos nos países da União Europeia/Espaço Económico Europeu”, mas deixa seis conselhos: evitar contato próximo com pessoas que sofram de infeções respiratórias agudas, lavar frequentemente as mãos, especialmente após contacto direto com pessoas doentes, evitar contacto com animais, tapar o nariz e boca quando espirrar ou tossir, lavar as mãos sempre que se assoar, espirrar ou tossir; e procurar um médico caso tenha visitado Wuhan e se sinta doente.

Já houve outras infeções com vírus desta família?

Sim — não com o vírus que já matou pelo menos 17 pessoas no mundo, mas com outros parecidos. Em 2002, foi detetada na China a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV) que acabou por chegar, em 2003, aos Estados Unidos e ao Canadá com um registo total mais de 8 mil casos, 800 dos quais mortais. “Em crianças a incidência era mais baixa, ia aumentando conforme a idade. Metade das pessoas com mais de 60 anos que eram infetadas morriam”, explicou ao Observador o infecciologista, que lembra que o vírus atacava pessoas saudáveis e que levou “muito tempo a conter”.

“Houve uma série de surtos em hospitais. Costumo dizer que foi uma sorte, porque os casos importados a partir da China aconteceram em países desenvolvidos ou em países que, mesmo sendo pobres, tinham uma estrutura rígida e impunham o isolamento ou a quarentena para impedir os contactos, como foi o caso do Vietname”, lembrou. “Se um destes viajantes tivesse ido para África ou para a Índia teria sido uma catástrofe”, disse.

A SARS foi transmitida de animais, neste caso de gatos selvagens, para humanos.

As autoridades chinesas desinfetam uma estação de comboios durante um surto de SARS, semelhante ao que se vive hoje com o novo vírus. Créditos: PETER PARKS/AFP via Getty Images

Quase uma década depois, em 2012, a Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS-CoV) foi detetada pela primeira vez em 2012 na Arábia Saudita, acabando também por passar fronteiras e chegando à Europa. Registaram-se 2.220 casos e 790 mortes. Hoje sabe-se que foi transmitida via camelos dromedários para humanos.

Se no caso da SARS se conseguiu eliminar a epidemia, no caso do MERS ainda hoje se registam casos. Jaime Nina lembra o ano passado, quando um paciente chegou a Portugal, vindo da Arábia Saudita, com sintomas de gripe e disse que tinha estado numa corrida de camelos. Foi imediatamente isolado num quarto para se tomarem todas as medidas para que não se propagasse o vírus. “Este é mais difícil de conter porque naqueles países os camelos são como os cavalos para nós, e os seus donos não os abatem”, exemplificou.

Notícia atualizada às 15h12 com o número de mortos, que passou dos nove para 17, e com o número de feridos, que subiu para 473.