Não houve alegria, nem êxtase, embora Assunção Cristas tenha sido recebida com aplausos. Esteve pouco mais de meia hora no pavilhão do Congresso e regressou à base, a casa. Foi num clima pesaroso e num tom confessional que disse: “Falhei“. Disse que se tratava de “reconhecer uma evidência”, mas levou com ela todo os militantes, lembrando que a estratégia que todos agora criticam foi, afinal, aprovada por todos: “Este caminho foi sufragado em Gondomar e depois em Lamego“. E acrescentou: “Cumpri um caminho traçado e a estratégia proposta”.

Assunção Cristas destaca assim que falhou no “resultado” e “porventura na análise das possibilidades que se abriam com as novas circunstâncias políticas” e assumiu: “Os resultados ficaram muito aquém das minhas e das vossas expectativas”. Essa estratégia, recorda, mais não era que “um caminho de oposição firme e construtiva, com ambição e responsabilidade“. E que apostou nesse “caminho próprio, num posicionamento de oposição responsável e construtiva, de oposição intensa e permanente. Quer na substância, quer no estilo.”

Se há dois anos tinha sido anunciada pelo speaker como a “futura primeira-ministra de Portugal”, desta vez a Assunção Cristas restou-lhe o palanque para o mea culpa. Ainda assim, quase a pedir desculpa por o fazer, de quem está diminuída na sua autoridade, fez um pedido para os próximos dias: “Se vos posso fazer um pedido é que o debate deste congresso seja profundo, sério, leal e a olhar para o futuro”. Para Cristas, o Congresso deve promover um “debate assente nas ideias e nas pessoas, porque em política não há boas ideias sem boas pessoas para as defender e o inverso também é verdade”.

Cristas revisitou o seu percurso na liderança lembrando que em autárquicas e nas regionais dos Açores, antes do Congresso de Lamego, o CDS provou estar “acima de muitas expectativas.” Mas foi um ciclo difícil, lembra, pelo sucesso da “geringonça”. “Durante quatro anos a solução de governo minoritário socialista apoiado nas esquerdas funcionou”, lembrou, numa alusão aos orçamentos e programas de estabilidade aprovados quando ninguém esperava.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ainda sobre a sua falha, Cristas lembrou que “uns dirão que a estratégia estava errada, outros que se cometeram erros táticos ou de comunicação ou que falhámos na avaliação das circunstâncias”. A líder cessante confessa que ouviu “atentamente muitas análises e, naturalmente, tenho a minha própria”. Mas não a quis dar: “Não é nem o momento nem o dia apropriado para dissecar os erros desse roteiro. O tempo encarregar-se-á dessa análise detalhada”.

E deixou ainda uma frase que mostra o seu estado de espírito: “Não me desiludi porque nunca tive ilusões e sempre soube que em política nunca se pode esperar reconhecimento”.

Ouça aqui o discurso completo de Assunção Cristas: