“Orgulhosos de sermos de Bérgamo!
Hoje à noite tínhamos de viver uma das noites mais bonitas da nossa história, em vez disso, esta situação de emergência obrigou a que tudo passasse para segundo plano.
Porque nestas semanas, na nossa cidade e província, há heróis que estão a enfrentar este momento, a trabalhar com meios insuficientes e turnos massacrantes para a saúde de todos.
É por isso que decidimos dedicar ao hospital de Bérgamo a soma dos nossos ingressos do setor de visitante desta noite. Nos próximos dias vamos fazer a transferência de 40.000 €.
A quem nos perguntou como pode contribuir, convidamos a doar para o IBAN do hospital de Bérgamo”.

Foi com esta mensagem da Curva Nord que ficou dado o mote para uma noite que podia ser de glória mas que, na verdade, estaria sempre afetada pelo surto do coronavírus que se tem feito sentido em Itália e sobretudo na região da Lombardia. A Atalanta, que nunca tinha participado na Liga dos Campeões, tinha na mão a hipótese de chegar aos quartos da competição depois da goleada em Milão frente ao Valencia na primeira mão dos oitavos (4-1). O jogo, esse, seria à porta fechada. Mas nem por isso a devolução do dinheiro dos bilhetes foi preocupação.

Perante todos os recentes acontecimentos em território transalpino, os adeptos decidiram doar todo o montante a hospitais locais, em mais uma ação que faz cada vez mais da Atalanta um clube diferente: inspirado pelo nome da personagem da mitologia grega, o clube nascido em 1907 e que em 2011 estava na Serie B teve um extraordinário trajeto até conseguir alcançar a Liga Europa na temporada transata e o terceiro lugar e consequente acesso à Liga dos Campeões desta época, sobretudo sendo um clube de uma cidade com cerca de 120 mil habitantes onde nas redondezas (mais ou menos próximos) se concentram gigantes como Juventus, Inter ou AC Milan. Mas este é também um clube que, por exemplo, faz questão de oferecer a todas as crianças que nasçam na cidade um kit da formação de Bérgamo, com uma camisola e demais materiais para bebé com o emblema da equipa.

É assim que, fora de campo, o clube vai crescendo, também alicerçado noutras operações maiores e com outro grau de complexidade como a compra do estádio Atleti Azzurri d’Italia ao município de Bérgamo para fazer as necessárias reformas (aumentando ligeiramente a lotação para 24.000 espetadores) e vender o naming num negócio que permitiu “pagar” mais esse passe no crescimento. O investimento podia ser maior, o número total de lugares também, mas tudo é feito com tanto de apaixonado como de racional. Aí e também dentro de campo – Gian Piero Gasperini encontrou um lote promissor de jogadores assente num scouting competente e no bom trabalho feito pelas camadas jovens, montando uma equipa com ADN holandês no plano ofensivo, capaz de marcar muitos golos a qualquer equipa mas sempre exposta na retaguarda. As “regras de jogo” são essas, com o que têm de bom e de mau (sendo que os guarda-redes de Bérgamo são os que têm menos defesas da Serie A), e foi isso que se voltou a ver em Valencia, num estádio sem adeptos e de porta fechada. Ou melhor, com um “especial”.

Vicente Navarro foi um fiel adepto do clube che que perdeu a visão em 1985, quando deslocou a retina. Ainda assim, com o filho ao lado a narrar os jogos, nunca deixou de se deslocar ao recinto do Valencia, tornando-se um verdadeiro símbolo. Em 2016, por ocasião do centenário, foi construída uma estátua de bronze no lugar onde via habitualmente os encontros, num marco icónico no lugar 162 da 15.ª fila da bancada central. Cá fora, mais de um milhar de adeptos quis saudar a equipa na chegada ao Mestalla, acreditando ainda numa reviravolta que seria histórica na eliminatória; lá dentro, só as pessoas necessárias para a realização do encontro, num total de 250 com as mais diversas funções entre transmissão televisiva, limpeza e organização. Até por aí, foi uma pena não ter existido pessoas a encher o estádio (primeira vez de sempre) porque a qualidade do jogo valia bem a pena.

Logo a abrir, no terceiro minuto, Ilicic inaugurou o marcador de grande penalidade, antes de Kevin Gameiro sair a ganhar numa atrapalhação defensiva dos transalpinos para fazer o empate (21′). Foi nessa fase que o Valencia teve mais bola no meio-campo contrário (e a posse é uma das imagens de marca da Atalanta), conseguiu fazer alguns remates com perigo mas acabou por sair a perder para intervalo com mais um penálti de Ilicic (43′).

No segundo tempo, Kevin Gameiro, com um cabeceamento oportuno na área, fez de novo o empate (51′) antes de Ferrant Torres colocar pela primeira vez os espanhóis na frente do marcador (67′), abrindo porta a um milagre que seria sempre de improvável concretização e que caiu em definitivo com o póquer de Ilicic (71′ e 82′), em mais uma grande saída para o ataque do conjunto de Gasperini que “matou” por completo o encontro e a eliminatória, naquela que foi uma noite atípica mas de merecida felicidade não só para o projeto desportivo da Atalanta mas também para a própria cidade de Bérgamo, que tem sido fustigada pelos recentes desenvolvimentos do surto do coronavírus e que teve notícias menos infelizes muito por culpa do avançado bósnio de 32 anos que fez carreira na Eslovénia antes de brilhar em Itália por Palermo (2010-2013), Fiorentina (2013-2017) e Atalanta.

No final, entre cumprimentos com o cotovelo mantendo o protocolo e abraços de quem esqueceu por momentos as recomendações perante tamanha emoção, os jogadores da Atalanta juntaram-se para exibir uma t-shirt de apoio aos habitantes locais num período difícil. Esta era a noite em que Bérgamo merecia sair à rua. Mas esta foi a noite em que viu a Atalanta ganhar dentro e fora de campo, em nome de um projeto e de uma pequena cidade.