O governo espanhol vai passar a permitir que os jornalistas façam perguntas por videoconferência durante as conferências de imprensa do primeiro-ministro Pedro Sánchez. A decisão surge depois de críticas de jornalistas e de alguns jornais espanhóis terem mesmo anunciado que iam deixar de marcar presença nas “farsas” que se tornaram as conferências de imprensa de Sánchez.

Desde que foram adotadas medidas de contenção, os jornalistas espanhóis deixaram de marcar presença física nas conferências e as perguntas passaram a ser enviadas para um grupo de WhatsApp com o nome “Chat Preguntas SEC”. Problema: as perguntas estavam a ser previamente selecionadas pelo secretário de Estado da Comunicação, Miguel Angel Oliver, que escolhia apenas as questões mais favoráveis ao primeiro-ministro.

Esta atitude levou mais de 400 jornalistas a subscreverem manifesto “A Liberdade de Perguntar”, em que acusam o governo de um novo tipo de censura. Várias associações de jornalistas contestaram o método. O presidente da Federação de Associações de Jornalistas da Espanha, Nemesio Rodríguez, afirmou ao El País: “Não gostamos do sistema. A prestação de contas a que os governos são obrigados perde a transparência necessária se os jornalistas não puderem fazer perguntas diretamente ”. Já o governo alegava até agora que a fórmula seguida era “simples e eficiente” e alertou para o elevado número de jornalistas e perguntas (o grupo tem mais de 200 participantes).

Apesar de já existirem outros órgãos a anunciar que não participariam em mais conferências de imprensa. Já a 23 de março o jornal Libertad Digital – o primeiro a boicotar estas conferências – denunciava que tinham sido vetadas doze perguntas de órgãos como esRadio-Libertad Digital, Antena 3, 20 minutos, ABC, El Confidencial, RNE, La Sexta, InfoLibre, El Independiente, Cadena Cope, Diario 16, Vértigo Político.

Mas no último sábado, 4, o boicote ganhou estatuto. O jornal diário El Mundo escreveu um editorial muito duro contra o governo, onde classificava os momentos como “conferências de imprensa-farsa”. No texto, o El Mundo começava por dizer que “o direito à informação é um dos direitos fundamentais dos espanhóis, consagrado na Constituição”. Que os órgãos de comunicação não são “donos desse bem precioso, mas o veículo necessário para que os cidadãos obtenham informações verdadeiras e formulem os seus próprios juízes.” O trabalho jornalístico é por isso “essencial em circunstâncias como a atual, do estado de emergência”.

Por estas razões o El Mundo entendeu no sábado que “não pode continuar a participar de uma anomalia democrática que já adquiriu a categoria de um verdadeiro escândalo que são as conferência de imprensa que o governo impôs com a desculpa da pandemia”.

O El Mundo registava que “apesar das reclamações das associações de imprensa, o secretário de Estado da Comunicação, atuando como comissário político, continua a controlar as perguntas feitas a Pedro Sánchez, filtrando-as da forma que entendo, impedindo que sejam respondidas e permitindo que o primeiro-ministro, em vez de responder aos media, aproveite a oportunidade para iniciar longas sessões de autopromoção.”  O editorial dizia ainda que o “governo prefere usar a mordaça” e que enquanto isso não fosse corrigido o El Mundo ia afastar-se daquilo que considerava um “fraude para os cidadãos”.

Depois da polémica se arrastar ao longo de várias semanas, este domingo o secretário de Estado da Comunicação, enviou uma nota às redações para informar  que “a metodologia utilizada nas conferências de imprensa irá mudar”. O Governo garante agora que vai implementar um sistema seguro de videoconferência que terá rondas de perguntas similares às que acontecem no Conselho de Ministros. A forma como serão selecionadas as perguntas será feito através de “mecanismo aleatório, público e verificável”.

Como é em Portugal?

Em Portugal existe um sistema misto. Alguns jornalistas – em particular algumas televisões – estão presentes em algumas conferências de imprensa. Se se deslocarem ao local, não é vedada a entrada aos jornalistas e – estando presentes presencialmente – têm a primazia da pergunta (principalmente se estiverem em direto). À parte disso – embora varie conforme as circunstâncias e a situação –, os jornalistas que estejam fora daquele espaço podem fazer perguntas por videoconferência (televisões e rádios têm, normalmente, prioridade, mas por vezes é sorteado que órgãos têm direito à pergunta).

No caso do briefing do ministério da Saúde (onde pode estar a ministra ou um dos secretários de Estado) em conjunto com a DGS, as questões são enviadas via WhatsApp após um sorteio que dita que jornais podem fazer perguntas naquele dia.

Em alguns casos – as reuniões das lideranças partidárias e principais figuras do Estado no Infarmed, por exemplo – só mesmo os jornalistas no local podem fazer perguntas.