Com as equipas em teletrabalho, as pessoas preocupadas em relação ao futuro e a tentarem equilibrar trabalho e vida familiar, “as organizações que não conseguirem estar de forma sistemática a mostrar o que estão a fazer e não souberem dar informação sobre aquilo que preveem fazer no futuro vão causar um desligamento [entre os funcionários], vão perder as pessoas – e algumas não irão recuperá-las”. O aviso é de Pedro Carvalho, presidente-executivo da Tranquilidade/Generali, gestor que diz ter retirado já algumas lições importantes a partir da análise diária dos níveis de satisfação e produtividade das pessoas em teletrabalho – e que na semana passada quis dar uma “injeção de adrenalina” às pessoas com uma mega-videoconferência que reuniu mais de 1.300 colaboradores, quase todos os que a seguradora tem em Portugal.

Na sexta-feira, “montámos uma reunião de quadros com mais de 1.300 pessoas presentes (quase todos os 1.400 funcionários) em que ao longo de uma hora e meia fizemos apresentações, tivemos discussões multilaterais com os colaboradores através de uma plataforma digital em que as pessoas se conectaram para se poder ver imagens e poder colocar questões em tempo real”, diz Pedro Carvalho, em conversa telefónica com o Observador. E ficou claro que as pessoas “não estão com medo de se chegar à frente e fazer perguntas difíceis: Quanto é que o mercado vai cair? Vamos ter de trabalhar a tempo parcial? Vai haver planos de rescisões voluntárias ? Vamos receber bónus?”.

Principal conclusão dessa iniciativa? “Deu para perceber que ajuda muito a que as pessoas se sintam próximas, todos nós precisamos muito disto, mais do que nunca“, diz Pedro Carvalho, acrescentando que este esforço tem de estar no topo das prioridades das empresas: “as empresas têm de comunicar frequentemente com os funcionários, porque isto pode demorar várias semanas, meses e pode voltar a repetir-se num futuro próximo…“.

Pedro Carvalho compara a sessão a uma “injeção de adrenalina” que foi dada aos colaboradores da Tranquilidade, a seguradora que pertencia ao universo Espírito Santo e que, depois de passar por uma reestruturação e modernização feita pelo fundo norte-americano Apollo, foi comprada no início do ano pela gigante mundial dos seguros Generali. Entretanto, “recebi algumas centenas de e-mails de colaboradores, a felicitar, a fazer mais perguntas, o que mostra que as pessoas se sentem próximas mas também que estão algo ansiosas e preocupadas – o que é perfeitamente natural”. O efeito sobre o ânimo das equipas foi inegável, mas “sabemos que vai desvanecer-se, pelo que temos de inventar coisas novas para fazer nas próximas semanas”, diz o responsável.

Regularmente, a gestão da empresa convida os colaboradores a preencher um formulário simples para avaliar o estado de espírito e a satisfação de cada um. A análise desse barómetro já deu para perceber o impacto claríssimo que existe entre a forma como evolui a moral e a produtividade em teletrabalho: “as pessoas estão confortáveis com as soluções tecnológicas que encontrámos – que envolveram (numa primeira fase) comprar portáteis e a transportar computadores fixos para casa das pessoas – mas é óbvio que sentem o distanciamento”. Percebe-se que em determinadas alturas o barómetro anda para baixo, o que tem reflexos na produtividade, mas é igualmente interessante verificar que “o barómetro explodiu” após a mega-videoconferência de sexta-feira.

Temos de estar sempre a alimentar as pessoas para podermos receber de volta. Quando a motivação dispara a produtividade também dispara”, afirma Pedro Carvalho.

O presidente-executivo da seguradora explica que os níveis de produtividade têm sido, em média, “razoáveis, não são espetaculares – o que é perfeitamente compreensível porque há muitas pessoas com filhos pequenos em casa, cerca de 70% da nossa força de trabalho”. O que se nota é grandes diferenças não só entre os colaboradores mais jovens ou sem filhos e aqueles que têm filhos – para cuidar e, também, ensinar – mas, também, entre o estado de espírito daqueles que têm casas maiores e os que têm casas mais pequenas, diz Pedro Carvalho.

“É muito complicado, há pessoas que têm recursos diferentes, casas maiores, estamos a ver que isso faz diferença… Mas o grande desafio é quando passar a Páscoa e os filhos continuarem por casa, com a telescola… aí há algum risco de que nem os filhos aprendam nem os pais consigam trabalhar como gostariam“, diz Pedro Carvalho, deixando um aviso: “corremos um risco de standstill“, ou seja, arrisca-se uma quase paragem muito penalizadora da atividade à medida que as semanas passam.

Para já, porém, Pedro Carvalho garante estar a afastar as previsões mais pessimistas e a garantir que a vida continua, até mesmo dentro de uma empresa que está a fazer uma fusão complexa que, agora, passou a ter de ser feita à distância – “definir equipas, escolher líderes, dar formação a colaboradores e agentes”. Mas tudo se faz, confia o gestor, garantindo que mesmo com a renovação do estado de emergência no país vai avançar na mesma, dentro de duas semanas, com a convenção que já estava planeada para falar sobre o setor dos seguros. Deverá reunir cerca de 4.000 pessoas, com oradores e apresentações – só com uma pequena diferença: “já não será na Altice Arena, será na nuvem“.