O líder de um grupo religioso muçulmano sediado em Nova Déli, capital da Índia, foi formalmente acusado do crime de homicídio por negligência após ter mantido um grupo de fiéis de vários países do mundo num centro espiritual mesmo depois do início do confinamento, primeiro naquela cidade e depois na totalidade do país.

De acordo com a acusação, levada a cabo pelas polícia de Nova Déli, Maulana Saad Kandhalvi, líder do grupo islamita Tablighi Jamaat, juntou uma multidão de fiéis num centro espiritual onde, de acordo com a BBC, há espaço para 5 mil pessoas. Terão sido entre 2.500 a 3 mil os fiéis que se juntaram desta vez, para aquilo que é o evento anual organizado pelo grupo Tablighi Jamaat.

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O evento teve início a 13 de março e estava previsto que acabasse a 15 de março. Porém, alegando que o cancelamento de voos não permitia o regresso aos seus países — que iam desde os EUA ou Indonésia —, muitos daqueles fiéis terão permanecido dentro do centro espiritual do grupo Tablighi Jamaat. Enquanto isso, a 19 de março, Maulana Saad Kandhalvi disse num vídeo transmitido em streaming na internet que a Covid-19 era “um castigo de Deus” e apelou aos fiéis que “acudissem às mesquitas”.

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A situação terá piorado quando, sem que aquele grupo de fiéis pudesse regressar aos seus respetivos países, o primeiro-ministro, Narendra Modi anunciou a 23 de março que a partir da meia-noite a Índia iniciaria um confinamento a nível nacional de três semanas — e que foi, esta terça-feira, alargado até 3 de maio.

De acordo com o que disse um dos membros daquele grupo à BBC, vários fiéis saíram das instalações onde estavam concentrados antes do início do confinamento, mas ainda assim “mais de mil, incluindo muitos estrangeiros”, continuaram por lá por não terem para onde ir.

As autoridades indianas acabaram por determinar que aquele ajuntamento terá sido um dos maiores vetores do novo coronavírus. No início de abril, as autoridades indianas atribuíam ao grupo Tablighi Jamaat e ao seu evento anual um terço do total de casos de Covid-19 confirmados na Índia. Atualmente, a Índia conta com 12.456 casos oficialmente confirmados e 423 mortes.

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Porém, o grupo Tablighi Jamaat e os seus seguidores têm vindo a acusar as autoridades centrais da Índia de islamofobia na gestão deste caso — juntando-o a uma lista de vários acontecimentos e medidas que, na Índia do nacionalista Narendra Modi, têm sido dados como indicador de uma política discriminatória da minoria muçulmana em benefício de uma ideia de supremacia hindu.

“É lamentável que as pessoas estejam a dizer que isto foi uma conspiração e estejam a usar termos como ‘jihad da corona’. Culpar uma comunidade não é acertado. Os media também têm tido um papel nefasto”, disse à Al-Jazeera o constitucionalista Faizan Mustafa. “Os governos têm de demonstrar uma racionalidade maior do que os religiosos.”