“Nunca conheci um silêncio destes”, disse Shubhankit Gupta, dono de um café agora sem fregueses à vista na estação de comboio de Lucknow, no estado de Uttar Pradesh. A sul, no bairro de Shakarpur em Nova Deli, o dono de uma mercearia apontava o oposto: “Nunca tinha visto tanto caos na minha vida”.

É assim, entre estas duas reações (a primeira captada pelo Washington Post, a segunda pela agência Press Trust of India), que a Índia se preparou para o início de uma quarentena decretada para todo o país e com poucas exceções. A partir das 00h00 desta quarta-feira (18h30 de terça-feira em Lisboa), os indianos receberam ordens para se fecharem em casa e só saírem de lá daqui a 21 dias.

Ao todo, 1,3 mil milhões de pessoas — que é o mesmo que dizer a população inteira da Índia, com raríssimas exceções — ficarão fechadas atrás de portas durante três semanas. Esta medida é única num país desta dimensão perante a crise do novo coronavírus. Nem a China, epicentro inicial do surto que hoje é pandemia, chegou a impor medidas de quarentena a todo o país.

Narendra Modi pediu aos indianos: “Durante 21 dias, não se lembrem do que é pôr os pés fora de casa” (Avishek Das/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

A ordem partiu do primeiro-ministro, Narendra Modi, que sublinhou a urgência daquele momento. “Se não nos isolarmos estes 21 dias, o país atrasar-se-á em 21 anos”, sublinhou o nacionalista hindu. “Isto é para salvar a Índia, para salvar cada cidadão e para salvar a vossa família. Não saiam de casa. Durante 21 dias, não se lembrem do que é pôr os pés fora de casa.”

Narendra Modi tem razões para se preocupar, tal como toda a Índia.

Com uma média de 450 pessoas por cada quilómetro quadrado, a Índia é um dos países com maior densidade populacional em todo o mundo. Essa realidade sente-se nas casas (onde em média vivem até cinco pessoas em habitações pequenas e que misturam várias gerações, incluindo os mais velhos, que são um grupo de risco) e também nos transportes públicos.

Além disso, o sistema de público de saúde da Índia apresenta-se perante esta pandemia com uma escassez de meios que, perante uma verdadeira crise, não está apto para dar uma resposta adequada. “O número de camas disponíveis nos hospitais estatais é abissalmente baixo”, lê-se num artigo do think-tank Brookings India, onde é referido que naquele país o rácio de camas em hospitais públicos é de 0,55 por cada mil habitantes. “Uma epidemia como o coronavírus pode piorar ainda mais, e muito rapidamente, este problema.”

Para já, o número de casos diagnosticados na Índia é de 562 e o total de mortes está nos 10. Apesar de serem números relativamente reduzidos, a alta probabilidade de haver vários casos não diagnosticados preocupa as autoridades indianas — ao ponto de abrirem muito poucas exceções para esta quarentena.

Todos os estabelecimentos comerciais (com exceção para supermercados) vão estar fechados, além de fábricas, oficinas, escritórios, mercados ou locais de culto religioso. Também os transportes públicos vão ficar suspensos. O setor da construção foi igualmente suspenso, com vários trabalhadores daquela indústria, que depende muito de trabalho informal, a regressarem a casa numa situação de particular fragilidade.

Corrida aos supermercados perante a incerteza do abastecimento

Ao contrário do que acontece na maior parte dos países que estão em quarentena, não é claro se na Índia será permitido sair de casa para fazer compras. Num documento publicado pelo Ministério da Administração Interna da Índia, lê-se que os supermercados estarão abertos. Porém, é colocada a hipótese de cada estado levar a cabo programas de entrega de comida ao domicílio — ficando por esclarecer se essa possibilidade poderá tornar-se numa regra e não apenas numa exceção.

Esta incerteza começou no discurso de Narendra Modi, onde não ficou claro se os supermercados iam sequer abrir durante este período. Ainda assim, o primeiro-ministro disse: “Não há qualquer razão para entrar em pânico. O país vai trabalhar em conjunto para garantir a disponibilidade de bens essenciais, medicinais e outros”.

As palavras do primeiro-ministro não impediram que houvesse uma corrida aos supermercados, como aquela de que dá conta o dono de um desses estabelecimentos que dizia: “Nunca tinha visto tanto caos na minha vida”.

Ao Press Trust of India, disse: “Todo o nosso stock, incluindo arroz, farinha, pão, bolachas, óleos alimentares, ficou tudo esgotado”. Também àquela agência, um farmacêutico em Jungpura procurou passar uma imagem de tranquilidade no meio do caos:

“As pessoas estão a comportar-se como se nunca tivessem ido à escola. Está na altura de darem o exemplo. O nosso governo prometeu-nos que não vai haver escassez de bens essenciais e nós temos de ter paciência e de evitar o pânico. Vamos todos passar por isto calmamente”.

No mesmo artigo, um empresário de Patparganj chamado Shailesh sublinha que houve quem subisse os preços perante esta provável corrida aos supermercados. “Os preços dos vegetais, do arroz, da farinha e de outros bens alimentares já está mais alto. O problema aumenta à medida que aumenta inesperadamente a procura e as restrições por causa da quarentena. O Governo tem de fazer alguma coisa contra os açambarcamentos e o mercado negro de bens essenciais”, disse aquele empresário.

País parado, economia em risco

No discurso que fez na terça-feira, Narendra Modi reconheceu que, à semelhança do que já se verificou noutros países que tomaram medidas semelhantes, também a economia da Índia irá perder com a decisão de fechar a sua população em casa. “Vamos pagar um preço muito pesado do ponto de vista económico, mas as vidas são mais importantes do que isso”, disse.

No seu discurso, pediu igualmente aos empresários para continuarem a pagar aos seus funcionários apesar de, por agora, não poderem contar com os seus serviços.

“Em tempos de crise, peço ao mundo dos negócios e aos segmentos com altos rendimentos da sociedade para fazerem tudo o que for possível para olharem pelos interesses económicos das pessoas que lhes prestam serviços”, disse, numa menção a quem recorre a trabalhadores na economia informal.

“Tratem-nos com empatia e com humanidade e não descontem dos salários dele. Lembrem-se que também eles têm de gerir os seus lares e proteger as suas famílias da doença.”

O governador do estado de Uttar Pradesh, Yogi Adityanath, anunciou que cada um dos 1,5 milhões de trabalhadores que trabalham na economia informal, recebendo um salário a cada dia de trabalho, vão receber transferências diárias de mil rupias (12,12 euros) durante os 21 dias da quarentena.

No pano nacional, o Governo da Índia anunciou uma moratória de três meses no pagamento do IRS e também suspendeu as taxas cobradas nos multibancos. Para dificultar os despedimentos, o limiar para as empresas declararem insolvência subiu de cerca de 1.200 euros para à volta de 121 mil euros.

Durante 21 dias, a rede ferroviária da Índia, que transporta 23 milhões de passageiros todos os dias, vai ficar fechada ao público (Ritesh Shukla/NurPhoto via Getty Images)

“Nós podemos estar numa situação semelhante a uma guerra”, disse à BBC o cientista político Neelanjan Sircar. “Se os custos [da quarentena] forem muito altos, as pessoas vão quebrar o isolamento e vão sofrer muito”.

Porém, tal como noutros países que aplicaram políticas de quarentena, também os custos económicos desta medida estão a ser discutidos na Índia. “É extremamente difícil avaliar as implicações económicas num acontecimento tão imprevisível”, disse ao Washington Post Dharmakirti Joshi, principal economista da agência de rating indiana Crisil.

Também àquele jornal, o ex-diretor de administração da ferrovia indiana, Arunendra Kumar, reconhece a singularidade da situação. “Nunca imaginei que pararmos todos os comboios seria algo que fizéssemos para nosso benefício”, disse, sublinhando a necessidade dessa e de outras medidas neste momento: “Este vírus não quer saber se uma pessoa vai de comboio, se vai na estrada ou se vai de avião. O vírus repara no descuido de qualquer pessoa e aproveita-se disso”.