António Costa tinha desvendado parte do plano do Governo para o tímido regresso à normalidade no debate parlamentar da renovação do estado de emergência. A ideia é começar a preparar tudo agora, para o plano ir para o terreno em maio. Em entrevista ao Expresso, o primeiro-ministro desvendou mais detalhes desse plano, anunciando que, se tudo correr bem em abril, no dia 30 haverá reunião do Conselho de Ministros para decretar a reabertura de portas. As praias vão ter restrições, até porque “o vírus não hiberna no verão”, e os transportes públicos estão a ser pensados de forma a que trabalhadores e alunos/professores não se cruzem. Teletrabalho é para manter para dar tempo aos transportes públicos de se reorganizarem sem ficarem superlotados. Até os cinemas vão ter novas regras.

Horários de trabalho à vez, creches reabertas, mais transportes e máscaras. O roteiro de Costa para o regresso à normalidade em maio

Em entrevista ao Expresso, o primeiro-ministro anuncia que o acesso às praias, no verão, vai ter restrições, estando o governo a trabalhar com as autarquias e as capitanias para garantir que não haverá aglomeração. “Há praias de grande extensão onde a aglomeração é facilmente evitável, há outras em que todos sabemos que a aglomeração é grande. A aglomeração não vai poder existir”, disse, sublinhando que mesmo depois da reabertura gradual, as regras de distanciamento e higiene são para manter. Até porque “o vírus não hiberna no verão”.

O plano passa por, se tudo correr bem na reunião com os especialistas no próximo dia 28 de abril, no dia 30 o Governo reúna o Conselho de Ministros para “anunciar o calendário e o programa de desconfinamento progressivo de um conjunto de atividades, que têm a ver com o sistema de ensino, com as atividades comerciais e de restauração e com as atividades culturais”, disse na mesma entrevista.

Mas como a reabertura não pode ser toda em simultâneo, o primeiro-ministro admite que as creches e o 11º/12º ano possam reabrir em maio porque “são universos que não se cruzam”. O mesmo não se pode dizer do horário de trabalho normal dos serviços e empresas e do horário das aulas presenciais do secundário que, por serem potencialmente coincidentes, vão ter de ser desfasados. Ou seja, as aulas presenciais poderão começar a meio da manhã, por exemplo, para evitar congestionamento na habitual hora de ponta da manhã.

A par disto, e sempre com a ideia de os transportes públicos não ficarem congestionados, o teletrabalho deverá ser para manter em grande medida em maio, devendo ser libertado de forma faseada. “Uns teletrabalhando de manhã, outros à tarde”, por exemplo, disse. Ou “uns numa semana presencialmente, outros noutra”. Questionado sobre o reagendamento de eventos culturais, Costa diz que o primeiro passo é reabrir aqueles onde há lugares marcados, por ser mais fácil gerir as normas de distanciamento. Os cinemas, por exemplo, deverão poder funcionar com venda de bilhetes limitada a “bilhetes de duas em duas filas ou de três em três cadeiras”.

Sobre a crise económica que se segue, Costa avança que pretende entregar o Orçamento Suplementar no Parlamento ainda antes do verão, em julho, e admite que as transferências para o Novo Banco previstas para este ano (muito contestadas pelo Bloco de Esquerda) – num total de 850 milhões de euros – se mantêm.

Austeridade? Costa já diz “que a despesa de hoje são os impostos de amanhã”

Na entrevista ao Expresso, o primeiro-ministro reiterou que “o país não precisa de austeridade”, e sim relançar a economia, mas recusa dar uma resposta definitiva sobre esse caminho: “Já ando nisto há muitos anos para não dar hoje uma resposta que amanhã não possa garantir”.

Costa até repete uma frase deixada esta semana pelo seu “número dois”, o ministro da Economia Pedro Siza Vieira. Na altura, ao ser questionado sobre empréstimos a fundo perdido às empresas, Siza Veira recusou e acrescentou: “A despesa de hoje são os impostos de amanhã”.

No início da semana, em entrevista ao Observador (e antes de se saber a perspetiva de queda do PIB do FMI), Costa tinha sido muito mais definitivo a recusar um cenário com medidas de austeridade.

“Medidas de austeridade seriam contraproducentes para a retoma” A grande entrevista António Costa