O presidente da Assembleia da República garante que a proposta de comemoração do 25 de abril aprovada no Parlamento “será cumprida”. Em declarações ao jornal Público, Eduardo Ferro Rodrigues recordou que essa mesma proposta teve o “apoio dos representantes de 90% dos deputados eleitos”.

Ferro Rodrigues afirmou que, “mais do que em qualquer outro momento”, o 25 de abril “tem de ser e vai ser celebrado” no Parlamento. “A Assembleia da República não saiu do terreno da vida política democrática com a pandemia, o estado de emergência ou a pressão de saudosistas, anti-parlamentares ou seguidores de fake news“, acrescentou. As declarações surgiram depois de o presidente do CDS ter comunicado que não ia participar das tradicionais comemorações. Ferro Rodrigues já tinha reagido às reservas levantadas pelo deputado do CDS, João Almeida, em pleno Parlamento.

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Também o autarca de Cascais, Carlos Carreiras, anunciou que não ia permitir as comemorações no concelho, considerando mesmo um erro enorme as habituais celebrações do 25 de abril, mas também do 1.º de maio e do 10 de junho, pelo potencial de concentração de pessoas.

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Para a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, as críticas feitas às comemorações têm uma motivação “ideológica” e não de defesa da saúde pública. Em declarações à Agência Lusa, a líder parlamentar do PS lembrou que a “democracia não está suspensa” e que por isso mesmo a celebração do 25 de abril “ganha particular significado neste momento de estado de emergência, em que é preciso homenagear todos aqueles que construíram a nossa democracia e que por ela têm lutado”. “É errado pensar que os políticos estão acima de qualquer outro português quando assinalamos esta data”, concluiu Ana Catarina Mendes.

A líder parlamentar socialista garantiu que o partido não vai pactuar com “inverdades” e que está preocupado com o combate à pandemia como está “preocupado em simbolicamente assinalar o dia da liberdade, o dia da democracia em Portugal”. “Em abril, importa relembrar a importância da nossa liberdade, e ganha particular significado este ano que em abril preparemos a liberdade futura que vamos ter quando acabar este estado de emergência”, disse Ana Catarina Mendes, acrescentando que a celebração no Parlamento terá essa “carga simbólica”. “As críticas que têm vindo a ser feitas não se prendem com preocupações de saúde pública, mas essencialmente com questões ideológicas”, reforçou.

E para o presidente da Assembleia da República, o socialista e ex-líder do PS, Ferro Rodrigues, celebrar o 46.º aniversário do 25 de abril “é também a forma de impedirmos que no futuro a exceção seja glorificada como regra e realidade permanente” e também “de homenagearmos mortos, doentes e os que estão no combate contra este vírus assassino, de dizermos que da crise que vamos continuar a viver não sairá qualquer alternativa anti-democrática”. As comemorações do 25 de abril de 1974 no Parlamento, agendadas para o próximo sábado, vão contar com 77 parlamentares e 50 convidados.

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Eduardo Ferro Rodrigues destacou ainda que a Assembleia da República “continuará a fazer-se ouvir” e e garantiu que, no contexto que atualmente vivemos, “a unidade entre órgãos de soberania, o combate aos que promovem petições com números sem credibilidade nem controlo e a defesa da democracia constituem valores fundamentais”. O número 2 do país referia-se à petição online que pede o “cancelamento imediato” da sessão solene e que conta já com mais de 15 mil assinaturas, onde se defende que “não se admite que a Assembleia queira comemorar o 25 de abril, juntando centenas de pessoas no seu interior” quando “se pede a todos os portugueses que se abstenham de sair de casa”.

Também Catarina Martins disse este sábado que o que está previsto é “uma sessão muito reduzida no Parlamento” que “só pode realizar-se nas condições em que as autoridades de saúde entenderem”. A líder do Bloco de Esquerda sublinhou ainda que a sessão solene, com intervenções de todos os partidos, “corresponde à obrigação dos titulares de cargos políticos que foram eleitos”. “Ninguém compreenderia que os profissionais de saúde estejam a trabalhar, tal como as forças de segurança ou o setor da alimentação e distribuição, e os partidos políticos emigrassem para parte incerta e não tivessem a clareza da proposta”, terminou a líder bloquista.

Já este sábado, o presidente do CDS garantiu que não irá participar nas comemorações do dia que marcou o fim da ditadura em Portugal. Francisco Rodrigues dos Santos defendeu, numa nota divulgada à imprensa, que a sessão solene será “um péssimo exemplo aos portugueses” e “não respeita os sacrifícios” que a população está a fazer. “Enquanto partido fundador da nossa democracia, o CDS apelou a que se alterasse o modelo de comemoração do 25 de abril, mas infelizmente não foi ouvido”, disse o líder centrista, acrescentando que “a Conferência de Líderes insistiu em manter a cerimónia, apesar da discordância do CDS, concentrando centenas de pessoas num espaço fechado, algumas delas pertencentes a grupos de risco”.

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“A democracia fora do parlamento não pode valer menos do que a democracia dentro do parlamento”, disse Francisco Rodrigues dos Santos, que argumenta que “o 25 de abril não se fez para separar ainda mais as elites do povo, nem para que uns fossem mais livres do que os outros”.

O presidente do CDS garantiu que vai usar “a liberdade que se assinala naquele dia para agir com responsabilidade e honrar os sacrifícios dos portugueses”. “Não sendo deputado, irei comemorar a data como todos os portugueses que estarão confinados e prescindirei do lugar que o Protocolo do Estado me reservaria”, indicou Francisco Rodrigues dos Santos, adiantando que o grupo parlamentar do CDS se irá fazer representar por “um único deputado”, apesar de discordar deste modelo de comemoração. “Portugal pede-nos que estejamos à altura do nosso povo, mas não que estejamos acima dele”, atira.