A não-recandidatura de Mário Centeno à liderança do Eurogrupo coincide com um momento de “crise existencial” para o organismo que na última crise europeia e no conflito com a Grécia pareceu conseguir impor-se de forma mais notória, como fórum em que se tomavam importantes decisões sobre o futuro da zona euro.

Com a renovação da liderança – no que deverá ser, como o próprio Centeno descreveu, um “processo muito competitivo” – o próximo líder terá de afirmar-se não só no combate aos efeitos da pandemia mas, também, de lutar pela própria relevância política deste fórum dos ministros das Finanças da união monetária.

E entre os três prováveis candidatos estão uma espanhola, um italiano e um luxemburguês.

Nadia Calviño tem larga experiência em Bruxelas e em cargos públicos em Espanha.

Nadia Calviño tem sido apontada, há várias semanas, como a mais provável sucessor de Mário Centeno – seria a primeira mulher no cargo. A economista espanhola diz que não perde “um segundo” dos seus dias a pensar numa eventual candidatura à presidência do Eurogrupo mas é indisfarçável que já começou o trabalho de reunião de apoios com vista a preparar uma investida. O ministro da Segurança Social espanhol, José Luis Escriva, reconheceu na TVE que “a presidência do Eurogrupo é um cargo da maior relevância”.

O governo espanhol, que tem sido muito criticado pela sua gestão da pandemia (designadamente pelo processo que autorizou as manifestações de 8 de março), está a precisar de vitórias e a nomeação de Nadia Calviño poderia dar algum elã ao executivo liderado pelo socialista Pedro Sánchez. “Seria uma boa notícia” se Calviño conseguisse ascender ao lugar, fez questão de afirmar Escriva, que falou em nome de todo o governo espanhol.

Calviño tem a particularidade de vir do mesmo quadrante político (e da mesma península) que Mário Centeno, o que faria com que se mantivessem relativamente inalterados os equilíbrios de poder na seio do Eurogrupo. São-lhe atribuídas boas hipóteses de vitória porque poderá ter o apoio da França mas, também, da Alemanha – em especial porque é uma defensora da ideia de um orçamento da zona euro.

A economista é ministra da Economia de Espanha desde 2018, sendo também primeira-ministra-adjunta de Pedro Sánchez. Antes de ir para o governo espanhol, Calviño teve um cargo relevante em Bruxelas: diretora-geral do departamento orçamental da Comissão Europeia, experiência que faz com que conheça muito bem a “máquina” europeia. Internamente, embora sempre tenha estado ligada ao PSOE, é criticada pelos partidos mais à esquerda (incluindo pelo Podemos, que está no governo) por não eliminar as reformas do mercado de trabalho, por exemplo, que foram aprovadas pelo governo de centro-direita (de Rajoy).

A economista, que nasceu na Galiza (A Coruña) em 1968, é filha de um ex-presidente da RTVE – José Maria Calviño. Desde 2006 que está em cargos públicos, depois de um início de carreira em consultoria e na academia (Complutense).

Pierre Gramegna concorreu contra Centeno em 2017 mas perdeu, à segunda volta.

Pierre Gramegna também concorreu no momento em que Mário Centeno acabou por ser eleito e deverá, agora, voltar a tentar a nomeação. Na altura, o também luxemburguês era presidente da Comissão Europeia, o que não terá ajudado às hipóteses de Gramegna. Ao contrário de Calviño (e de Centeno), porém, Gramegna vem de um quadrante político mais liberal, o que poderia, assim, alterar o quadro de apoios políticos.

O luxemburguês veio recentemente sublinhar que a solidariedade europeia é a única forma de responder à crise económica provocada pelo novo coronavírus. “Todos somos iguais quando falamos em enfrentar esta crise sanitária, criada por um vírus que ataca em todo o lado. Temos de tomar todas as medidas necessárias”, afirmou, defendendo o pacote de (até) 540 mil milhões de euros anunciado pelo Eurogrupo – o plano que se tornou a última contribuição de Mário Centeno na liderança do organismo.

O ministro das Finanças do Luxemburgo, nascido em 1958, defendeu que a única forma de sair desta crise é “investimento, investimento, investimento”.

Roberto Gualtieri (à direita) é um nome que tem ganho força nos últimos dias.

Roberto Gualtieri, o ministro das Finanças italiano, é um nome que parece estar a ganhar força nos últimos dias – e uma das razões para que isso esteja a acontecer é que alguns supõem que dar a presidência do Eurogrupo a um italiano poderia atenuar o anti-europeísmo que está a intensificar-se no país, um dos mais atingidos em toda a Europa (e em todo o mundo) pela crise sanitária.

O italiano tem chamado a si boa parte do combate político, no seio do Eurogrupo, contra os ministros dos chamados “quatro frugais” (Países Baixos, Dinamarca, Finlândia e Áustria), o que lhe deu maior protagonismo. A Itália tem exigido que os fundos que sejam disponibilizados aos países mais atingidos pela pandemia não incluam quaisquer tipo de condicionalidade, ou seja, sem qualquer pacote de reformas associado – e, de preferência, que nem sequer sejam empréstimos que contem para a dívida pública.

Gualtieri destacou-se, também, enquanto eurodeputado ao longo de 10 anos (até ir para o governo de Giuseppe Conte no final de 2019). Nasceu em Roma, em 1966, e tem uma carreira mais ligada à Literatura e à História – chegou a ser professor universitário de História Contemporânea. Mas acabou por assumir funções mais ligadas à Economia no Parlamento Europeu, tendo chegado a presidente da Comissão de Assuntos Económicos e Monetários.

Guitarrista, é descrito por fonte europeia citada pela Agence France Presse como alguém que, além de conhecer muito bem as instituições europeias, “é uma pessoa muito calma, razoável, nunca levanta a voz – e tem, também, muita auto-confiança”.

Um quarto possível candidato, que tem parecido perder alguma força, é o irlandês Paschal Donohoe. Mesmo a imprensa irlandesa o descreve como um candidato “outsider“, com menores probabilidades de ser eleito (ou, mesmo, de avançar). Mário Centeno sai do Eurogrupo a 13 de julho, mas a sucessão do português será decidida alguns dias antes: dia 9.