O formato já tinha sido anunciado. À semelhança da Semana da Alta-costura, também o calendário dedicado à apresentação das coleções masculinas primavera-verão 2020/21 em Paris decorreu sem os habituais desfiles. No total, foram quase 70 as marcas e designers obrigados a contornar os ditames do vírus e a encontrar alternativas para mostrar as suas criações ao mundo ou simplesmente levar acabo um exercício artístico e estética onde acabaram por convocar outras expressões artísticas.

Um teste no qual a Hermès passou com distinção. No dia 5 de julho, a maison transmitiu em direto o primeiro olhar sobre a nova coleção. Em vez de uma passerelle com janela para todo o mundo, a câmara comportou-se como um olho espião dentro de um dos ambientes que mais curiosidade desperta — os bastidores de um desfile de moda. No centro da ação estiveram Véronique Nichanian, a diretora criativa da linha masculina da marca há mais de 30 anos, e Cyril Teste, a mente por trás do conceito do vídeo.

O palco escolhido foram os ateliers da Hermès, em Pantin, nos arredores de Paris. Entre aderecistas, fotógrafos e assistentes de produção, a lente do realizador e encenador francês acompanhou os manequins durante a preparação para fotografar lookbook da coleção. Uma escala de cinzentos e azuis reforçou a sobriedade natural do guarda-roupa masculino. A par com peças de alfaiataria estival, a marca explorou detalhes desportivos e entrecortou alguns dos visuais com um amarelo néon, como um piscar de olho à contemporaneidade.

Longe de ser a única marca a explorar o registo cinematográfico para mostrar uma coleção, a Hermès fê-lo com a naturalidade e fluidez que a caracteriza. A Études seguiu um caminho criativo semelhante e, num único plano-sequência, acompanhou os modelos numa caminhada pelas ruais da capital francesa. As narrativas de Uniforme, Auralee e Davi Paris foram ao encontro da linguagem de uma curta-metragem, nos três casos com um trabalho notável de fotografia.

Dior. Uma viagem ao Gana

Para Kim Jones, diretor criativo da linha masculina da Christian Dior, a semana da moda digital foi o pretexto ideal para partir à descoberta de uma nova cultura. O destino foi o Gana e, numa carreira recheada de colaborações com o mundo das artes, a próxima estação quente cruza dos códigos de vestuário da maison com a estética do pintor ganês Amoako Boafo.

O resultado é um filme de dez minutos, protagonizado pelo próprio artista, que mostra e dá contexto ao próprio trabalho diante de uma nova e maior audiência, e pela coleção, vestida exclusivamente por uma seleção de modelos negros. “A moda é uma inspiração para o meu trabalho, por isso tendo a olhar para personagens que têm esse senso de estilo”, explica o pintor, filmado no próprio atelier.

A colaboração surge depois de um primeiro contacto de Jones com os quadros de Boafo, em dezembro, no Rubell Museum, quando apresentava a coleção pre-fall em Miami. “Senti-me imediatamente atraído. A intensidade dos seus retratos dele, o poder do movimento e a escolha das cores — tudo na forma como ele vê as coisas me toca”, referiu o designer em comunicado. “A desenhar esta coleção, quis partilhar esta paixão e celebrar o poder o trabalho dele para ajudar a que seja ainda mais conhecido”, rematou.

De Acra para o mundo, coleção e vídeo são tudo menos inocentes — surgem num momento em que o movimento Black Lives Matter continua a fazer-se ouvir e menos de dois meses após a morte (de George Floyd) que lhe serviu de gatilho. Ao panorama global somam-se as críticas que apontam para um racismo enraizado na própria indústria da moda. “Durante muito tempo quis trabalhar com um artista africano porque cresci em África e a arte deste continente sempre foi algo importante para mim”, explica Kim Jones no vídeo. De nacionalidade britânica, a infância do criador foi dividida entre o Gana, o Quénia, a Etiópia e o Botsuana, devido ao trabalho do pai como geólogo.

Amoako Boafo © Francis Kokoroco

O trabalho desenvolvido por Jones e Boafo, apresentado na última segunda-feira, contrasta com vídeo elaborado pela marca para revelar a coleção de alta-costura. As críticas têm apontado o casting de manequins, composto exclusivamente por mulheres brancas.

O engenho de Jonathan Anderson e a estratégia de Virgil Abloh

Para a Loewe, marca espanhola dirigida pelo britânico Jonathan Anderson, o momento continua a ser marcado pela fisicalidade. Sem um desfile, mas na procura de algo palpável, a inspiração veio de La Boîte-en-valise, de Marcel Duchamp. O resultado está numa caixa, onde cabe toda a coleção masculina (e também a feminina) primavera-verão 2021 da marca — volumes, formas e páginas pop-up que mostram o círculo no centro do processo criativo, a mesma forma sucessivamente refletida nas peças propostas por Anderson.

Enquanto isso, o norte-americano Virgil Abloh aproveita a semana da moda digital para atenuar a rigidez do calendário sazonal. Quando todos esperavam um vislumbre da coleção masculina do próximo verão, a Louis Vuitton divulgou um vídeo com alguns cartoons a invadirem a cidade de Paris. As peças e visuais serão revelados nas próximas semanas com passagem garantida por Xangai, já no dia 6 de agosto. Ainda assim, desconhecem-se os moldes em que o designer tenciona apresentar a sua mais recente coleção para marca francesa.

As apresentações continuam em Milão. Até sexta-feira, as grandes marcas italianas apresentam as coleções masculinas para a primavera-verão 2021. O evento é maioritariamente digital, embora haja exceções — Etro, Dolce & Gabbana e Ermenegildo Zegna planeiam eventos com público. A próxima semana também reserva importantes momentos para o calendário internacional da moda — o desfile de alta-costura da Valentino e o da coleção resort da Dior, ambos em Itália.