A venda, pelo Novo Banco, de imóveis abaixo do preço de mercado a um fundo das ilhas Caimão, e o financiamento dessa venda pelo Fundo de Resolução, como revelado por uma investigação do jornal Público, “tem uma gravidade do ponto de vista judicial, eventualmente criminal, que o Ministério Público tem de ver”, defendeu Rui Rio, no programa Grande Entrevista, da RTP3. Para o presidente do PSD, há também responsabilidades políticas do Executivo.

O Governo não cuidou de aferir ou até de conferir as fatura que o Novo Banco lhe mandou. (…) Recebe a fatura, vai pagando e não cuida de ver se as fatura e as perdas são reais ou são criadas”, criticou, em entrevista ao jornalista Vítor Gonçalves.

Se acha que há uma questão eventualmente criminal? “Acho”, respondeu.

O líder do PSD voltou ainda defender uma investigação pelo Ministério Público ao contrato de venda do Novo Banco ao fundo norte-americano Lone Star e à “forma como o contrato está a ser executado”. É que uma coisa são as auditorias (como a que está a ser feita pela Deloitte após a injeção de capital, em maio, pelo Fundo de Resolução) realizadas “pelas grandes empresas, as mesmas que fazem as certificações legais e as auditorias às contas de muitas empresas, como bancos”. “Coisa diferente é uma investigação a sério que o Ministério Público possa fazer”, desafiou.

Novo Banco vendeu casas a fundo das Caimão e emprestou dinheiro para financiar compra — Fundo de Resolução pagou prejuízo da operação

Rio faz “grande oposição” ao Governo: depois do Novo Banco, atira com TAP e Hidrogénio

Quando o Governo anunciou o reforço da participação do Estado no capital da TAP, de 50% para 72,5%, Rui Rio sugeriu uma venda “à primeira oportunidade” para evitar que a empresa se transformasse numa “espécie de Novo Banco”, com sucessivas injeções de dinheiro público. Quer isso dizer que o presidente do PSD teria deixado cair a empresa, se estivesse no poder?

“Poderia deixar, depende”, disse Rio. De que dependeria a decisão? Do plano de reestruturação — que o Governo disse que seria apresentado, mas que “ainda não apareceu”.

Venha o plano de negócios, venha o plano de reestruturação. Eu olho: é exequível, faz sentido? Depende do plano de negócios. Numa coisa, desculpe o termo, mal amanhada, porque numa folha de Excel mete-se lá os números que se querem sem grande coragem para reestruturar a empresa, acho que para o contribuinte português mais vale deixar cair”, disse Rui Rio.

Se há uns meses, a TAP estava, como defendeu no Parlamento, “tecnicamente falida”, agora “está falida”. “Se o Estado pondera entrar na empresa, a primeira coisa que tem de exigir é um plano de negócios e de reestruturação para a TAP. Esse plano não apareceu”, critica.

Rio atirou ainda com o plano do Governo para o hidrogénio, que prevê um investimento de 7 mil milhões de euros, quando “os custos de produção vão baixar 60 a 50% nos próximos 10 anos”. “Aquilo que suspeito é que o hidrogénio vai ser a desculpa para dar outra vez rendas garantidas às EDPs, neste caso à EDP em Sines, com a desculpa que é para produzir hidrogénio”, voltou a apontar. E lembrou os “projetos megalómanos, que tinham acontecido no tempo do engenheiro José Sócrates”.

Questionado sobre o fim dos debates quinzenais, proposto e aprovado pelo PSD, Rui Rio mantém que os debates “apenas existiam para o sound bite” e que o Governo continuará a ir ao Parlamento. “O primeiro-ministro vai ao plenário, em 11 meses, oito vezes obrigatoriamente, e pode ir até 13 vezes.”

Negociações com o Chega? “Não depende do PSD, depende do Chega”

Uma sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop) feita pela Universidade Católica para o jornal Público e a RTP, concluiu que o Chega é a força política que mais “está a crescer nesta legislatura”, com  7% das intenções de voto, a mesma percentagem do que o Bloco de Esquerda. Estaria o PSD disponível para negociar com o partida de André Ventura? Rui Rio é claro: “Não depende do PSD, depende do Chega”.

Chega iguala Bloco de Esquerda em sondagem da Universidade Católica

Se o partido que se senta no extremo direito do hemiciclo “continuar numa linha de demagogia e populismo”, Rio descarta a possibilidade de uma negociação. Mas “se o Chega evoluir para uma posição mais moderada”, o cenário poderia ser diferente e haveria possibilidade de um entendimento, reconhece.

Já quanto às eleições presidenciais, não se compromete com o apoio a Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda assim, diz, o atual Presidente da República é o “candidato natural do PSD”.

PSD vai dar a mão ao Governo no Orçamento de 2021? “A probabilidade é reduzidíssima”

Por outro lado, Rui Rio foi perentório ao dizer que a postura do PSD quanto ao Orçamento de 2021 será muito diferente da que teve no Orçamento Suplementar (que os social-democratas viabilizaram). É que o contexto é distinto.

“O Orçamento suplementar era um orçamentozinho adicional que já existia para permitir ao Governo ter mais despesa sabendo que vai ter menos receita, aumentando o défice e a dívida publica. Eu aí disse que se não viesse uma monstruosidade enorme no Orçamento suplementar o meu dever era deixá-lo passar, senão não havia dinheiro para o subsidio de desemprego, para o layoff, para o Serviço Nacional de Saúde”.

Mas o Orçamento para 2021 “encerra opções políticas nas quais a Covid está integrada”. Além disso, o documento “será negociado” à esquerda, com o PCP e o BE. “O PSD o mais que tem é recuar para a bancada.” Por isso, a probabilidade de o partido “concordar com aquele orçamento feito pelo BE, PCP e pelo PS é grande? Não, é reduzidíssima, mas não posso dizer logo à cabeça ‘concordo, discordo’, sem conhecer o documento.”