É o mais intenso calendário de moda e chegou ao fim na última terça-feira. Coube à Louis Vuitton encerrar a Semana da Moda de Paris, a primeira a acontecer em plena pandemia de Covid-19. Antes disso, vários gigantes do pronto-a-vestir anteciparam as tendências do próximo verão — Chanel, Balmain, Dior e Hermès não viraram as costas ao tradicional formato de desfile. Entre as exceções encontramos a genialidade por trás de nomes como a Loewe e a Schiaparelli. Na Givenchy, Matthew Williams teve a sua estreia em tempos difíceis. Veja as imagens.

Dior e o conforto dentro de casa

Para uma mente prática como a de Maria Grazia Chiuri, o atual contexto só podia exigir uma resposta centrada, sobretudo na funcionalidade do guarda-roupa. A designer deu a volta à rigidez característica do visual Dior e apresentou uma coleção pensada para a nova vida em casa, com a tónica nos conceitos de intimidade e bem-estar. Para isso, descontraiu (ainda mais) as silhuetas, explorando ao máximo o conforto das malhas. Túnicas, casacos ao estilo quimono e vestidos leves e esvoaçantes foram as peças fortes, acompanhadas de uma nova valorização de texturas e acabamentos como rendas, franjas, bordados, tie-dye e a mistura de estampados.

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Kenzo, uma lição de apicultura

Na tentativa de refletir sobre uma nova conexão com a natureza — uma ideia inspirada pela estreia relação de interdependência entre alguns apicultores e as suas colmeias –, Felipe Olveira Baptista acabou por conectar moda e crise pandémica através do elo mais elementar, o vestuário de proteção. Contudo, foi o otimismo perante o futuro e, claro, a engenharia das peças, que deram consistência à segunda coleção desenhada pelo português para a marca francesa. Dos arquivos resgatou os vibrantes estampados florais, outra usados por Kenzo Takada para traçar os limites de uma selva urbana. Estes voltaram a sair à rua num reconhecimento de frescura e genialidade, dias antes da morte do mestre japonês.

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Do arquivo ao futuro, as gerações Balmain

O estilo Balmain é composto por traços indeléveis, dos ombros exagerados às cinturas esculpidas, dos blazers e casacos assertoados às cores eletrizantes que surgem quase sempre entre o preto, o branco e o cinzento. Venha o que vier, há coisas que não mudam e num momento de extrema incerteza, o designer Rousteing agarrou-se à herança deixada por Pierre Balmain. A abrir o desfile, exibiu fatos praticamente decalcados da década de 70, ao mesmo tempo de o monograma PB, repetido em padrão, atravessou toda a coleção, da mesma forma que a silhueta cunhada pelo mestre costureiro tem atravessado gerações, das monarquias europeias ao clã Kardashian. Ao refletir sobre o amanhã, Rousteing sente o peso da responsabilidade. Na plateia, estiveram dezenas ecrãs com os rostos dos convidados que assistiram remotamente ao desfile. Na passerelle, as gangas e os cristais Swarovski (cerca de dois milhões) apresentaram-se à luz de um futuro próximo: 100% reciclados.

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Loewe e a moda como recreio

Sem desfile, Jonathan Anderson, diretor criativo da marca espanhola, tirou partido do estático dispositivo fotográfico. Num lookbook divulgado em plena fashion week, o designer colocou ênfase numa face recreativa da moda. Como é que o fez? Através de volumes, técnicas manuais e peças aparatosas, muitas teatrais. Em tempos de crise e ameaça, e mesmo com o atelier limitado aos tecidos que estavam à mão, a Loewe deu prioridade à fantasia.

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Hermès, a receita sem excessos

Foi no Tennis Club de Paris que a marca apresentou as suas propostas de pronto-a-vestir feminino para a próxima estação quente. Um exercício de depuração das silhuetas mas também de valorização do simples e do minimal através do design, exercício no qual Nadège Vanhee-Cybulski, diretora criativa da marca centenária, passa invariavelmente com distinção. A pandemia exigiu que a Hermès se adaptasse. Depois da desafiante apresentação na semana da moda masculina, em julho, a maison retomou um formato bem mais convencional, embora a coleção trouxesse escondidas outras subtilezas — cerca de metade das peças já estavam desenhadas para a coleção resort, desfile programado para abril mas que acabou por ser cancelado. Ao lado de peças intemporais e praticamente sem estação, desfilaram detalhes veraneantes — as costas abertas e os múltiplos recortes denunciaram as intenções da designer. Afinal, Vanhee-Cybulski só quis atenuar os efeitos do confinamento, neste caso, a falta que sentiu da pele e do toque.

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Schiaparelli: a herança surrealista de Elsa

Quando se trata de transportar a estética fundada por Elsa Schiaparelli para o guarda-roupa de todos os dias, Daniel Roseberry já provou, no último ano e meio, ser capaz de passar no exame com distinção. Na última semana, foi um dos nomes que trocou a passerelle física por um álbum fotográfico, mas com as ruas de Paris a servir-lhe de cenário. Foi o próprio designer quem apontou a câmara e oxalá a sessão tenha sido tão divertida quanto a própria coleção. Entre transparências, seios bordados, corpos nus, marcas de fita métrica e bocas e olhos em bordado inglês, a herança surrealista de Schiaparelli chegou a 2020.

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A Givenchy de Matthew Williams

Entre a sujidade e a imperfeição deliberada de um visual underground e o polimento de uma alfaiataria andrógina e até futurista, Matthew Williams estreou-se no último domingo no papel de diretor criativo da Givenchy. Sucessor da britânica Clare Waight Keller — autora do vestido de noiva de Meghan Markle –, o designer norte-americano não veio para Paris de mãos a abanar. As afinidades com a streetwear espreitaram nas entrelinhas da primeira coleção desenhada para a marca francesa. Inspirado pela era Alexander McQueen, mas sobretudo focado no produto, Williams pisou a passerelle francesa (em sentido figurado, porque não houve desfile) com noção de statement. Fê-lo em harmonia com a linguagem da maison, mas também a piscar o olho a novos públicos.

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Chanel, as divas do cinema e os anos 80

Foi sob um letreiro imponente montado no Grand Palais, com as letras que compõem o nome da maison, que a Chanel apresentou a sua coleção para o próximo verão. A estrutura não foi erguida por acaso — tratou-se de uma alusão a Hollywood e aos caracteres gigantes que anunciam a chegada à terra dos sonhos, que é como quem diz do cinema. Foram, na verdade, as atrizes, que durante o último século se afirmaram como os grandes barómetros de estilo, que inspiraram a sucessora de Largerfeld. As silhuetas dos anos 80 foram o carro chefe do desfile. Blusões, tops e calções desportivos assumiram os detalhes e as texturas Chanel, ao passo que o velho tweed marcou presença nos habituais coordenados de duas peças, mas também em vestidos.

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Miu Miu: uma ligação Milão-Paris

Menos de duas semanas depois de apresentar a coleção da marca mãe, Miuccia Prada voltou a montar um cenário para transmitir, em direto, um desfile em tempos de pandemia. A partir de Milão, mas inserida no calendário da Semana da Moda de Paris, a jovem Miu Miu apresentou uma versão desportiva e ao mesmo tempo glamorizada do guarda-roupa de quarentena. Vestígios de uniformes e equipamentos misturaram-se com saias e blusas femininas e delicadas. Laços, folhos e pedraria não tardaram em ganhar terreno à medida que o desfile avançou.

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Louis Vuitton e a moda não binária

Coube, mais uma vez, à Louis Vuitton, marca bandeira do maior conglomerado de luxo do mundo, encerrar a Semana da Moda de Paris. E fê-lo num tom claramente desafiante. Nicolas Ghesquière deixou-se levar pelos anos 80 (tentação à qual já tinha cedeu antes) e utilizou o jogo de formas e proporções característico da década para explorar um guarda-roupa de fronteira, ou seja, o território situado entre feminilidade e masculinidade. Com silhuetas menos cintadas do que o habitual, as peças deram liberdade ao corpo. Houve espaço para explorar o sportswear, o boyish e a alfaiataria clássica. A política não ficou de lado. Ghesquière não deixou as eleições de lado e abriu o desfile com um apelo ao voto.

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