Ao fim de dois dias de Portugal Fashion (num total de três), já é possível emitir um veredito sobre o estado da moda portuguesa no que diz respeito às camadas mais jovens dos designers em cartaz. Bloom, o espaço que dá palco aos criadores emergentes, abriu espaço por entre o calendário desta 47ª edição e permitiu a sete designers, em nome próprio ou com as respetivas marcas, apresentar pequenas coleções. Estas foram exercícios de resistência, originalidade e síntese — no momento da apresentação, limitadas a uma dezena de coordenados, e claro, concebidas no auge da pandemia.

Num ano marcado pelo confinamento, a moda pode muito bem proporcionar uma viagem sem limites. João Sousa virou a página de uma passaporte repleto de carimbos e visitou a Grande Barreiral de Coral australiana, pela lente da bióloga Emma Camp. As cores vivas e os folhos ondeantes remeteram para estas matérias vivas. O branco, integral no look que abriu o desfile, uma forma de aludir ao aspeto que ganham depois de mortos.

Desfile de João Sousa © Melissa Vieira/Observador

O jovem designer partilhou o momento com Arieiv. Por sua vez, a marca de José Vieira dramatizou as silhuetas. Entre o exagero de folhos e mangas, o criador exibiu um guarda-roupa usável, composto por peças versáteis o suficiente para se moldarem consoante as diferentes intenções de cada styling, da red carpet ao dia-a-dia.

Entre vestidos e silhuetas fluidas, já a pensar na próxima primavera, houve quem dirigisse o foco para o menswear. Filipe Ferreira, designer por trás da marca 0.9 Virus, foi o primeiro a fazê-lo. A paleta de cores marcou o curto desfile — o bege, combinado com tonalidades pastel de verde e cor-de-rosa, foram o caminho encontrado pelo jovem criador para conectar roupa e sentimentos como o amor, a alegria, o medo e a ansiedade.

Rita Sá, embaixadora de um guarda-roupa masculino utilitário e quotidiano, foi outro dos criativos a viajar — no espaço e no tempo. A partir do filme “Palmeira na Neve”, do espanhol Fernando González Molina, revisita um passado colonial. Tingida de branco e azuis, a coleção percorre itens clássicos (o colete e as calças de fato), mas também peças descontraídas, à medida que a inspiração se afasta dos códigos de vestuário da metrópole. Detalhes como bolsos de chapa em t-shirts e camisas e o encurtar progressivo de calças e calções destacaram-se durante o desfile.

Desfile de Rita Sá © Melissa Vieira/Observador

A intemporalidade foi a linha orientadora de Carolina Sobral, ela que se cingiu a cores naturais como o branco, o cru, o índigo e variações de ocre, responsáveis por manter a coleção do próximo verão ligada à terra. A usabilidade das peças encabeçou a lista de prioridades. A designer privilegiou itens praticamente universais dentro do vestuário feminino, entre os quais vestidos, tops e blazers.

A pandemia tem levado inúmeros designers a revisitarem memórias e arquivos próprios. Maria Meira incluiu-se neste grupo quando decidiu que “Amélia/Cacilda”, o título da coleção, partisse das figuras das duas avós. Segundo o descritivo da coleção, “uma fusão do estilo de ambas e da época em que nasceram”, os anos 30 do século passado. Da avó Amélia, resgatou uma camisa azul com flores, os lenços ao pescoço e os fatos com ombreiras. Da avó Cacilda, os vestidos às bolinhas — peças que não se limitaram às fotografias antigas e que foram orgulhosamente herdadas pela jovem criadora. Amor e lembrança vieram à tona, numa coleção jovem e pensada para o dia-a-dia.

Desfile da Unflower © Melissa Vieira/Observador

Igualmente balançada e concebida para a vida de todos os dias é a coleção “She & I”, da Unflower, marca das designers Ana Sousa e Joana Braga. À leveza das peças, acrescentaram detalhes enriquecedores como os franzidos causados por atilhos e os volumes resultantes de folhos. O conforto espreitou nas silhuetas oversized. Na cores — branco, creme e azul céu — a promessa de uma primavera serena ao sol.

Na fotogaleria, veja as imagens dos sete desfiles do Bloom, nesta 47ª edição do Portugal Fashion.