A capacidade de o SARS-CoV-2 se esconder do sistema imunitário ou desencadear reações agressivas, de provocar uma infeção sem sintomas ou uma doença grave, ou de atingir de forma mais severa os mais velhos, está escrita nos genes, não só nos do vírus, mas também nos dos hospedeiros (neste caso, os humanos). Pelo menos três equipas mostraram, esta quarta-feira, na conferência online da Sociedade Americana de Genética Humana que há genes no cromossoma 3 que podem explicar a doença nos humanos. Além disso, um outro grupo descobriu uma variante na porta de entrada do vírus.

Uma das equipas, a do Instituto de Medicina Molecular da Finlândia, que analisou os dados da colaboração internacional Covid-19 Host Genetics Initiative, identificou uma variação no cromossoma 3 que estava fortemente associada à gravidade da doença, mas não tanto à suscetibilidade. Ou seja, essa variação não fazia com que a pessoa tivesse mais facilidade em ser infetada, mas quando mostrava sintomas, estes podiam ser mais graves.

Atualmente sabemos muito pouco sobre esta região genética, que pode ter valor terapêutico, mas duvido que isso aconteça num curto prazo”, disse Andrea Ganna, investigadora na equipa finlandesa, citada pelo El Mundo.

A equipa da Universidade de Yale, por sua vez, identificou seis genes associados ao desenvolvimento de doença grave e encontrou também uma ligação entre a inflamação e alterações em algumas análises, como níveis de colesterol LDL, de cortisol e contagem de monócitos (um tipo de glóbulos brancos).

Identificámos tanto genes provirais — aqueles que compõem o vírus — como genes antivirais — aqueles que o combatem —, que podem ajudar-nos a prever quem é mais suscetível a adoecer gravemente e quais os tipos de drogas que podem ser úteis ou prejudiciais para o tratamento dos doentes”, disse Craig Wilen, professor de Medicina de Laboratório e Imunobiologia da Universidade de Yale, citado pelo jornal espanhol.

Num caminho diferente, a investigação do Instituto Nacional do Cancro, pertencente aos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos, encontrou uma variante da proteína ACE2, que existe na superfície das células humanas e onde a proteína spike do vírus se liga para invadir as células. A produção desta variante dACE2 é induzida pelas infeções virais, como a de SARS-CoV-2.

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É preciso perceber que genes e mecanismos relacionados com o cromossoma 3 estão envolvidos no desenvolvimento de doença severa ou que papel tem a variante dACE2 na Covid-19. Por enquanto, estas descobertas podem ser vistas como potenciais alvos de tratamento.

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Para encontrar medicamentos o mais rapidamente possível, nomeadamente recorrendo aos que já existem, uma equipa da Universidade da Califónia, em São Francisco está a comparar, com recurso a simulações informáticas, se há drogas que podem ter efeitos terapêuticos no tratamento da Covid-19. Esta proposta também já tinha sido feita por Anika Chebrolu, de 14 anos, e valeu-lhe um prémio no valor de mais de 20 mil euros.

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