Com uma capacidade total de 500 camas, o Centro Hospitalar Tâmega e Sousa (CHTS) – formado pelo Hospital Padre Américo, em Penafiel, e o Hospital de São Gonçalo, em Amarante – contabilizou esta quarta-feira 235 doentes internados por Covid-19, dos quais 11 em cuidados intensivos, um número que representava 9,3% do total nacional de internamentos (2.255) relacionado com o novo coronavírus. Fonte do CHTS revelou à Lusa que os números desta quinta-feira são diferentes: 190 doentes Covid-19 internados, dos quais 10 em cuidados intensivos.

“A diminuição dos internados tem a ver com a transferência de doentes para outros hospitais da região. Estas transferências têm-se intensificado, prevendo-se que diminua a pressão no funcionamento do hospital nos próximos dias”, referiu à agência Lusa fonte do CHTS.

Em entrevista à TSF, esta quinta-feira, a ministra da Saúde admitiu que a situação do CHTS “foi muito grave”, mas assegurou que o problema está a ser resolvido e espera que até ao final desta semana a instituição consiga responder melhor ao número elevado de internamentos.

“Neste momento, a informação que tenho é que baixámos daquilo que têm sido os números de doentes internados no Tâmega e Sousa que, em vários dos últimos dias, ultrapassaram os 200 internados, numa capacidade hospitalar de camas que é de cerca do dobro para 173 doentes internados por Covid-19 esta manhã. Temos ainda um conjunto de transferências a acontecer e o nosso objetivo é chegar ao final da semana com cerca de 150/160 doentes de Covid-19 internados neste hospital, o que lhe permitirá já conseguir responder melhor”, sustenta Marta Temido.

“Estamos a assistir a uma desgraça.” Relatos do dia a dia no Hospital de Penafiel

Ao Observador, o presidente da Secção Regional Norte da Ordem dos Enfermeiros, João Paulo Carvalho, adiantou que esta quinta-feira em apenas três horas o Hospital de Penafiel internou 19 doentes infetados com o novo coronavírus. “Pelas 9h tinham 183 internados e às 12h já tinham 202”, afirma, acrescentando que o serviço de urgência continua “com muita pressão”, defendo ser necessário encaminhar as pessoas para outras urgências na região, de forma a diminuir o risco de infeção e libertar “profissionais completamente exaustos”.

Doentes transferidos para Porto, Gaia, Gondomar ou Vila Real

Um enfermeiro do Hospital de Penafiel, que preferiu não ser identificado, adiantou ao Observador  que “doentes com melhor prognóstico” estão a ser reencaminhados para outros hospitais, como Braga, Guimarães ou Gondomar, mas também para unidades privadas, como o Trofa Saúde de Vila Real, Viana do Castelo ou o Hospital Fernando Pessoa.

Fonte do CHTS adiantou à Agência Lusa que já transferiu cerca de 50 doentes para outros hospitais da região. “Cerca de 45 já estão no hospital de Amarante [que pertence ao CHTS]. Outros cerca de 50 foram para a rede.” Na passada sexta-feira o Hospital das Forças Armadas divulgou que acolheu 10 doentes “na sequência de um pedido do Hospital de Penafiel”. Já o Hospital Fernando Pessoa, uma unidade privada de Gondomar, acolhia naquela data 20 doentes provenientes do CHTS, de acordo com fonte da Administração Regional de Saúde do Norte.

Esta quinta-feira, fonte do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho afirmou que também está a receber doentes da região do Tâmega e Sousa, tendo sido disponibilizadas 10 camas. “Entretanto, estão a ser preparadas mais 10”, referiu a mesma fonte.

Durante as últimas semanas, o hospital de Penafiel internou doentes no serviço de urgência e num corredor por falta de espaço. (Foto: DR)

Nas urgências do Hospital Padre Américo, em Penafiel, a Ordem dos Enfermeiros diz ter tido conhecimento do caso de um doente infetado que necessitava de ventilação, tendo estado grande parte da noite desta quarta-feira à espera de vaga na unidade de cuidados intensivos. O presidente da Secção Regional Norte da Ordem dos Enfermeiros, João Paulo Carvalho, revelou ao Observador que o doente em causa foi transferido “ao final da manhã para o Hospital de Viseu”, tendo-lhes sido relatado de que não haveria camas de cuidados intensivos na região Norte. O Observador questionou o conselho de administração do CHTS sobre esta matéria, mas até ao momento sem sucesso.

Questionada pelo Observador, a ARS do Norte garante que “a dotação de camas na região Norte em cuidados intensivos é de 405 camas, das quais 195 estão destinadas à Covid-19. “Até às 24h de ontem estavam ocupadas 176”, acrescentou.

Um pedido de ajuda e mais 15 profissionais de saúde contratados, mas “não é suficiente”

Os mais de 100 profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros e assistentes operacionais, infetados ou em isolamento profilático levaram Carlos Alberto Silva, presidente do Conselho de Administração do CHTS, a pedir a contratação de mais médicos de clínica geral para trabalharem nas urgências ao Ministério da Saúde e à Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte.

Em resposta ao Observador, o gabinete de relações públicas da ARS do Norte garante estar “a acompanhar a situação” e a “agilizar respostas”. “O Conselho Diretivo da Administração Regional de Saúde do Norte, está a acompanhar a situação e, juntamente com o Conselho de Administração do CHTS, a agilizar respostas, numa primeira fase potenciando a resposta em rede dos hospitais de âmbito do SNS – colocando aqui doentes Covid-19 provenientes do referido Centro Hospitalar – e, em paralelo, promovendo a celebração de convenções, quer com o sector privado, quer com o sector social.”

Sobre o pedido de mais profissionais de saúde para combater a “afluência muito elevada, acima do esperado para a fase epidemiológica que estamos a viver” no Serviço de Urgência da Unidade Hospitalar Padre Américo, em Penafiel, a ARS do Norte avança que o Conselho Diretivo emitiu “de imediato” um parecer “favorável”, não adiantando, no entanto, o número de médicos nem a data prevista para a sua contratação.

“Está complicado”. Administração do hospital de Penafiel diz que é “mesmo preciso ajuda”

Na habitual conferência de imprensa da DGS, o Secretário de Estado e Adjunto da Saúde, António Lacerda Sales, referiu, esta quarta-feira, que tinham sido contratados para a região Norte, no âmbito da Covid-19, 120 médicos até ao dia 26 de outubro, dos quais oito médicos e sete prestadores de serviço para o CHTS. No entanto, para o presidente do Conselho Regional da Ordem dos Médicos, António Araújo, o número “é claramente insuficiente” para uma instituição “que já tinha falta de recursos humanos e de espaço mesmo antes da pandemia”.

“Com o acréscimo de trabalho, este centro hospitalar precisa que a tutela esteja mais atenta e facilite a contratação de mais profissionais. Além disso, é necessário mais espaço e uma rede maior e generalizada para aliviar o número de camas”, salientou ao Observador, sem ter ainda dados atualizados sobre o número de internados no CHTS. Para António Araújo, a qualidade médica também “está em causa” face à situação atual. “Não é possível garantir bons atos clínicos sem recursos humanos e sem espaço”, concluiu.

Com unidades em Penafiel e em Amarante, o CHTS presta apoio a cerca de 520 mil pessoas de uma região que inclui Paços de Ferreira, Lousada e Felgueiras, concelhos onde vigora o dever de permanência no domicílio desde 22 de outubro, medida que foi alargada sábado a um total de 121 municípios do país. Vários médicos e enfermeiros têm vindo a denunciar a situação de pressão sobre os serviços deste hospital, evidente neste vídeo: