A diretora nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) diz não ter “grandes dúvidas” de que o homicídio do cidadão ucraniano no aeroporto de Lisboa, em março, foi “uma situação de tortura evidente”. Cristina Gatões falou pela primeira vez do caso numa entrevista à RTP e admitiu que não tinha consciência de que estavam 12 pessoas envolvidas no crime e no seu alegado encobrimento.

A descrição que é feita nos relatórios policiais é medonha, hedionda, inqualificável. Aquilo nunca mais pode voltar a acontecer”, afirmou.

A responsável revelou que, na altura, o que lhe foi comunicado foi que “tinha havido um cidadão estrangeiro que tinha morrido no CIT [Centro de Instalação Temporária] na sequência de uma paragem cardiorespiratória na sequência de uma crise convulsiva”. Cristina Gatões confessa que não sabe o porquê de a verdadeira razão da morte de Ilhor Homenyuk lhe ter sido omitida e considera inadmissível. Apesar de no relatório o SEF ter descrito o óbito como natural, o médico legista que autopsiou o corpo não teve dúvidas de que tinha havido um crime, alertando imediatamente a PJ. “Jamais haveria qualquer branqueamento, qualquer ação por parte da direção nacional que não fosse de condenação severíssima e intransigente“, assegurou.

“Isto aqui é para ninguém ver”. As 56 horas que levaram à morte de um ucraniano no aeroporto de Lisboa

A diretora nacional explicou que só agora, oito meses depois, falou publicamente sobre o caso porque não tinha consciência que estavam envolvidas 12 pessoas no alegado crime. “Achei importante manter-me prudentemente em silêncio enquanto as investigações se faziam”, explicou, admitindo que esta foi “a pior situação que o SEF alguma vez viveu”. Ainda assim, Cristina Gatões nunca ponderou demitir-se. “É uma responsabilidade à qual não podia fugir. Por muito duro que seja o momento com que tive de lidar, abandonar não adiantaria nada”, disse, acrescentando:

Para que este trágico e hediondo acontecimento não seja nunca esquecido e nos catapulte para garantir que nenhum Ilhor [Homenyuk] volte a sofrer o que este cidadão ucraniano sofreu”.

Ihor Homenyuk morreu a 12 de março no Centro de Instalação Temporária do aeroporto de Lisboa, dois dias depois de ter desembarcado, com um visto de turista, vindo da Turquia. De acordo com a acusação do Ministério Público, o SEF terá impedido a entrada do cidadão ucraniano e decidido que teria de regressar ao seu país no voo seguinte. As autoridades terão tentado por duas vezes colocar o homem de 40 anos no avião, mas este terá reagido mal: foi levado às urgências do Hospital de Santa Maria e, antes da meia-noite do dia 11, terá sido levado pelo SEF para uma sala de assistência médica nas instalações do aeroporto, isolado dos restantes passageiros, onde terá sido amarrado e agredido violentamente, acabando por morrer.

Três inspetores do SEF acusados do homicídio do ucraniano Ihor Homenyuk no aeroporto de Lisboa

Os inspetores do SEF, de 42, 43 e 47 anos, foram detidos no final de março e encontram-se em prisão domiciliária por causa da pandemia de Covid-19. Nunca prestaram declarações nem contaram alguma vez a sua versão da história: terão feito um “pacto de silêncio”, segundo o Público. Foram acusados no final de setembro e vão responder, cada um, por um crime de homicídio qualificado em coautoria e crime de posse de arma proibida.