O Presidente-candidato aproveitou o debate com o comunista João Ferreira para lançar duas novidades — uma sobre a sua posição face aos apoios económicos da pandemia e outra sobre a polémica do momento — e, assim, arrumar o debate. É o que fica para a história deste frente-a-frente emitido pela TVI na noite desta segunda-feira: uma defesa pouco comum em Marcelo de uma medida que considera que deve ser pensada pelo Governo e uma antecipação do que o primeiro-ministro viria dizer uma hora depois no caso do procurador europeu. Isto num debate em que João Ferreira o acusou várias vezes de falta de “neutralidade” no exercício dos poderes presidenciais, agitando o fantasma de um Presidente mais interventivo no segundo mandato.

De pé no púlpito instalado no estúdio da TVI, Marcelo usou os 11 anos de comentador na estação de televisão a seu favor, precisamente quando o candidato apoiado pelo PCP o acusava de, no exercício dos poderes presidenciais, ter “mostrado não ser neutro” e ter “coincidido com as posições dos partidos mais à direita”. “Esta casa conhece bem a minha independência”, argumentou. Mas João Ferreira não largou a acusação e até deixou no ar a suspeita de um segundo mandato mais ativo por parte de Marcelo: “É legítimo questionarmo-nos porque quer uma votação expressiva”.

A verdade é que Marcelo não se atravessa na negação dessa imagem pintada pelo adversário. O mais que diz é que a sua “predisposição é para ser o mesmo”. O que encontrará pelo caminho fará o resto. Não o disse, mas ficou nas entrelinhas mesmo que tenha sido taxativo no afastamento do uso do poder-maior presidencial: a demissão do Governo, ou a chamada “bomba atómica”.

Uma bomba atómica não é uma pistola de pressão. Só se utiliza quando há uma razão para utilizar”, afirmou defendendo que “deve fazer-se tudo para não a utilizar”. Jura que a sua intenção é continuar na linha do passado que diz colocá-lo como “um factor de estabilidade”. “As minhas intervenções foram estabilizadoras evitando crises, superando crises e contribuindo para evitar crises”. Não tem dúvidas que “esta legislatura tem de ir até ao fim” e convive bem, a julgar pelas suas palavras, com a existência de um “ partido de esquerda” no poder “apoiado por partidos de esquerda”. “É assim que deve ser”, disse colocando a direita noutro capítulo, à parte, nesta legislatura.

Para esse lado da barricada política disse ser “fundamental” que “seja forte no futuro para concorrer às eleições de 2023, porque um sistema político manco, coxo, é um sistema político onde entram radicalismos populistas”.

Depois foi entrando nas novidades, quando o debate resvalou para a pandemia. Quando João Ferreira pedia medidas de proteção do SNS em vez de renovações sucessivas do estado de emergência, Marcelo atirava com o que achava que devia ser feito no futuro próximo. E defendeu mesmo, a propósito das moratórias às empresas que vão até setembro, que o período de pagamento seja “alongado”. “Seis meses, um ano, é curto para os pequenos empresários”, considerou o Presidente-candidato, que defende “três ou quatro anos de moratórias para os empresários terem folêgo”.

Quanto à outra novidade, foi direita para o tema do momento, com o invulgar pré-anúncio presidencial de uma nota que estava para sair do gabinete do primeiro-ministro a segurar um membro do Governo, no caso, a ministra da Justiça.

A questão era sobre a polémica escolha do procurador José Guerra, que o seu adversário João Ferreira classificou de “trapalhada”. Marcelo elencou os vários passos da história, ponto por ponto, incluindo os erros no currículo do procurador nomeado José Guerra, entretanto corrigidos pela ministra, e “depois disto tudo o primeiro-ministro decidiu reafirmar a confiança na ministra” Francisca Van Dunem, concluiu. E Marcelo soube-o na qualidade de Presidente, quando seguia para o debate da TVI e Costa lhe ligou a dar conta de uma nota que iria emitir dentro de momentos a segurar a ministra.

Com tudo isto, Marcelo esquivou-se a dizer — apesar da insistência — qual a sua opinião sobre o caso e a manutenção da ministra no cargo depois deste caso.

Para o comunista ainda lançou uma picardia, quando este o acusava de não ter feito o suficiente pelos trabalhadores e de ter dado mais apoio às confederações patronais, apontando como exemplo o valor do salário mínimo fixado para este ano.  “Não é o ideal mas é o possível” num ano de crise pandémica e económica, argumentou Marcelo ao lado do Governo, atirando aos comunistas: “Se há partido que percebe as limitações é o PCP que viabilizou cinco orçamentos, três da autoria do Presidente do Eurogrupo, dizendo que não concordava com tudo o que lá estava socialmente, mas que tinha pontos de vista sociais”. António Costa dificilmente utilizaria argumento diferente.