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Os automóveis modernos estão mais conectados e recorrem a sistemas cada vez mais avançados, geridos por processadores mais rápidos e com maior capacidade de memória. Esta memória superior serve também para armazenar grande parte das informações relativas ao que acontece a bordo, desde os locais que visitamos aos pedidos que realizamos ao sistema de navegação, passando pela escolha de música ou pelas solicitações ao Siri, à Alexa ou a todo o tipo de sistemas de ajuda ou consulta.

A sofisticação tecnológica, que é um elemento cada vez mais diferenciador, traz vantagens associadas ao combate do crime, como já aqui reportámos. Mas esta situação não é propriamente nova, pois já em 2017 a NBC News reportava um caso em que a polícia conseguiu identificar e prender um criminoso, recorrendo às informações armazenadas no automóvel da vítima, Ronald French.

Polícia usa Tesla como testemunha em tentativa de homicídio

French era um mecânico que gostava de ajudar quem precisava. Um dia, em 2017, foi assassinado e deixado num campo. O autor do crime abandonou o local no seu veículo, para se livrar dele pouco depois. Após dois anos de investigações infrutíferas, o caso foi parcialmente colocado de lado, até que um dos investigadores do xerife de Kalamazoo County se lembrou, dois anos depois, de recorrer à mais recente ferramenta no combate ao crime, a investigação forense digital de veículos (IFDV).

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A IFDV permitiu aceder ao sistema multimédia do veículo de French, uma pick-up Chevrolet Silverado de 2016, que registou a voz do criminoso a pedir ao sistema mãos-livres uma música do Eminem na noite do assassínio. A família identificou a voz do criminoso, que aguarda julgamento.

Os sistemas de gestão dos veículos modernos, sejam eles de navegação, multimédia ou outros, não foram concebidos para servir as autoridades, nem para controlar os utilizadores, mas a realidade é que armazenam mais dados do que se poderia imaginar à primeira vista, abrindo a porta a outras possibilidades. O caso de Kalamazoo é apenas um dos exemplos e, aparentemente, nem sequer é o mais significativo, uma vez que a tecnologia IFDV não pára de evoluir. A isto há que juntar as imagens e os sons recolhidos por veículos mais sofisticados, à venda no mercado, que tornam ainda mais difícil os criminosos evitarem a justiça. O que pode ser considerado uma invasão de privacidade por uns, é certamente visto por outros como um meio para reforçar a segurança.