Até há duas semanas, Yunice Abbas era um ilustre desconhecido. Era, porque o lançamento do livro Eu sequestrei Kim Kardashian tem valido a este sexagenário uma boa dose de atenção mediática, por mais insólito que seja o motivo. Esteve entre os assaltantes que, na madrugada de 3 de outubro de 2016, entraram no apartamento onde estava hospedada a socialite norte-americana e roubaram cerca de dez milhões de euros em joias.

A aguardar julgamento, que deve ter início este ano, espera-o uma sentença entre os cinco e os 12 anos. Decisão que Abbas não contesta, apenas procura, através do livro lançado no fim de janeiro, dar a sua versão do que aconteceu naquela noite. “O júri terá de decidir. Em teoria, vai fazê-lo apenas com base no que lhe for apresentado em tribunal, mas já foram contadas 50 histórias sobre tudo isto. Quis contar a minha verdade, a que vivi”, afirmou o suspeito, em entrevista à Agence France-Presse.

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Yunice Abbas foi um dos assaltantes envolvidos no roubo de Kim Kardashian em 2016 © AFP via Getty Images

De volta a outubro de 2016, e à noite que Kim jamais irá esquecer, o clã Kardashian encontrava-se em Paris para assistir aos desfiles da semana da moda. O resto é digno de filme — enquanto a família e a respetiva equipa saíram para jantar e beber um copo, a socialite ficou sozinha no apartamento da Rue Tronchet, alugado para a estadia. Por volta das três da manhã, um grupo de homens vestidos de polícias irrompeu pela porta.

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Yunice Abbas era um deles. “O meu amigo Aomar Aït Khedache, que foi quem me meteu nisto, disse-me simplesmente que o alvo era a mulher de um rapper famoso. Nem quis saber mais”, descreveu numa entrevista à Paris Match. Entre outros relatos, explica no livro que não chegou a deparar-se com a estrela norte-americana — enquanto outros assaltantes subiram até ao quarto (onde a amarram e amordaçaram), ele permaneceu no andar de baixo, encarregue de cobrir as câmaras de vigilância e o rececionista.

Na mesma entrevista, garantiu que não sabia quem era Kim Kardashian e recordou o momento em que, no dia seguinte, se apercebeu do mediatismo do caso. “Ouvi o nome dela na televisão e baixei a cabeça. A minha mulher acusou-me logo: ‘Foste tu’. Neguei”. No livro que agora chegou às livrarias, quer apresentar a sua versão dos factos, mas também retratar-se. “Quero pedir desculpa à senhora Kardashian. Lamento muito o que fizemos e não é só porque fui apanhado. Para as vítimas é sempre violento, mesmo quando achamos que até fomos gentis”, referiu ainda.

Pode dizer-se que Abbas é um ladrão profissional, embora tenha reconhecido que “não foi esta a vida que quis levar”. Começou a roubar aos 17 anos. Neste que foi o seu último assalto, diz ter feito questão de não saber nada sobre os restantes elementos. Só conhecia Khedache, o líder do grupo que “sabia que estava com dificuldades financeiras” quando lhe propôs fazer parte do esquema. “É como no casino: quando ganhamos uma vez, voltamos a jogar. Mas só com o tráfico de droga é que se enriquece. Roubar é uma solução imediata, dá para pagar as contas, para trocar de carro, para ir de férias, mas quando voltamos temos de começar de novo”, admitiu.

"J'Ai Sequestre Kim Kardashian" Book By Yunice Abbas Released At Cultura

O livro “Eu sequestrei Kim Kardashian” (J’ai séquestré Kim Kardashian), o testemunho de Yunice Abbas, escrito por Thierry Niemen © Marc Piasecki/Getty Images

No dia 3 de outubro de 2016, estava tudo calculado ao detalhe, até o disfarce, já que na zona as intervenções policiais seriam frequentes devido ao tráfico de cocaína. As informações sobre a presença de Kim no apartamento terão chegado de um elemento da própria equipa da socialite, segundo afirmou o suspeito, que classificou o roubo como rápido. Deixou o local de bicicleta com algumas joias no saco. Apanhou depois um táxi para se dirigir até ao próprio carro. Enquanto guiava, diz ter percebido que o telemóvel de Kim estava a tocar dentro do saco. “Eles tinham-no posto lá por engano. Fui até ao Canal de l’Ourcq e atirei-o”, recordou ainda na mesma entrevista.

No dia seguinte, não tive ilusões. Sabia que íamos ser apanhados. Havia muita pressão, não estávamos preparados o suficiente, nem achámos que tomasse aquelas proporções”, admitiu ainda. Do assalto, a polícia francesa recuperou algumas joias, bem como dinheiro. Contudo, Abbas diz acreditar que, dos cerca de 10 milhões de euros roubados, sete ainda “andam por aí”.