Rui Rio foi entrevistado esta manhã na Rádio Observador. Começou pelas autárquicas, onde disse desde logo que mantém o que disse há três anos: “As próximas autárquicas não são só vitais para o presidente do PSD, são vitais para o partido e importantes para o país, e até mais importantes do que as legislativas”. Isto porque “nenhum partido teve tantas câmaras como o PS tem atualmente, devido ao desastre eleitoral de 2013 e 2017”, diz. Ou seja, Rui Rio põe a fasquia no alto, embora não estabeleça metas para as autárquicas. Diz que “não está agarrado ao lugar” e que tirará “responsabilidades” perante um mau resultado. Rejeita impor nomes como o de Santana Lopes às concelhias, e diz que só a partir de março é que nomes começarão a ser fechados.

Questionado sobre se o processo autárquico não está atrasado por não ter ainda nomes fechados para as principais câmaras, Rui Rio diz que em 46 anos de história do partido, esta é a primeira vez que o PSD vai gerir autárquicas “em que o presidente do partido foi um autarca”. “Isto só aumenta a responsabilidade que tenho sobre mim”, diz. “Eu sei do que estou a falar, deem-me o benefício: eu sei o que estou a fazer”.

Rui Rio critica de forma dura alguns autarcas do PSD, como Carlos Carreiras (que “é o pior”) que foi o coordenador autárquico do PSD há quatro anos quando o resultado foi “desastroso”, mas garante que vai aceitar os nomes propostos pelas concelhias e aceites pelas distritais. Ou seja, não será por ele que Carreiras não será recandidato a Cascais.

Esse é o pior, o mais incompetente, sendo ele o primeiro responsável pela desgraça de 2017, acha que tenho alguma coisa a aprender?”, ironizou sobre Carlos Carreiras.

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Pegando no seu exemplo na câmara do Porto, Rui Rio diz que não está atrasado na indicação de nomes porque no seu caso apresentou-se como candidato em abril e foi “tempo a mais”. “Porque é que o PSD está com dificuldades e os outros que ainda não apresentaram candidatos não estão com dificuldades?”, atira, admitindo no entanto que as autárquicas “assumem um papel muito relevante para o PSD” porque ter mais 10 ou 15 deputados não faz diferença, mas “os milhares de autarcas eleitos no terreno fazem diferença”.

Sobre o nome de Ricardo Batista Leite para Lisboa, Rui Rio diz que em Lisboa aquilo que as pessoas esperam é um candidato que apareça na televisão, seja conhecido, seja uma figura pública — “daí ser relativamente fácil” encontrar um nome para Lisboa. E Ricardo Batista Leite “tem essa visibilidade”, mas há “outros” que também têm, embora a temática da pandemia esteja a ser mais impulsionadora da figura de Ricardo Batista Leite, médico e deputado do PSD. Questionado sobre que “outros” nomes encaixam nesse perfil, Rui Rio atira apenas o exemplo de Filipa Roseta. “Mas há mais”.

Sobre a coligação com o CDS em Lisboa, Rui Rio rejeita a opção de dar o cabeça de lista ao CDS na capital. “Aqui em Lisboa não”.

Rio arrasa Rui Moreira: “Não é uma pessoa confiável”

Sobre o processo autárquico no Porto, Rui Rio diz que “há muito” que tem vindo a alertar “que tipo de pessoa é Rui Moreira”: “Não é uma pessoa confiável”. E dá o exemplo do jantar que foi noticiado esta semana, em que Rui Moreira veio a público dizer “uma mentira”. “Rui Moreira queria que o PSD não apresentasse lista e ele integrava nas suas listas pessoas do PSD. Perante essa proposta nós contrapusemos o contrário: o senhor não se candidata e nós ouvimo-lo na escolha do candidato. O PSD disse que não à proposta dele e ele disse que não à nossa”, explica.

Rui Rio insiste que há muito que está a avisar para o tipo de pessoa que Rui Moreira é e remete para o processo judicial do qual Rui Moreira está a ser investigado (caso Selminho): “Ele tem interesses imobiliários num dado município e vai para presidente da câmara desse município, ao ponto de ter uma acusação pesada e grave por força de ter misturado gestão autárquica com a gestão do património imobiliário da sua família”.

O líder do PSD insiste que nunca apoiaria um candidato como Rui Moreira porque “não vale tudo”. “Não quero ganhar autárquicas a qualquer preço, não vou apoiar um candidato que não corresponde ao modelo que entendo que deve ser um autarca”, diz.

Meta autárquica? “Não estou agarrado ao lugar”

Questionado sobre se o nome de Vladimiro Feliz seria um nome aceitável no Porto, Rui Rio diz que “foi dos melhores vereadores que teve na câmara do Porto e e foi responsável por grandes coisas”, por isso nunca rejeitaria o nome. “É óbvio que eu só posso dizer bem dele”, diz, rejeitando contudo fechar nomes. Isso só começará a acontecer a partir de dia 1 de março, avança. Já sobre Paulo Rangel, que rejeitou uma candidatura ao Porto, Rui Rio admite que Rangel foi contactado pela concelhia, com o seu consentimento. E que era um nome que fazia sentido por não haver muitas pessoas no Porto “com projeção pública e mediática”.

Questionado sobre a hipótese Pedro Santana Lopes, Rui Rio diz que não vai impor nada às estruturas locais. “Não sei qual é a vontade dele, nem sei qual é a vontade do próprio partido. Não serei eu a impor o nome, isso não posso fazer”, diz.

“Imagine que uma concelhia se fecha e diz que é este candidato e eu até tenho um outro candidato com mais aceitação pública, aí meto a cabeça e faço isso. Mas aqui [no caso de Santana Lopes] não, é uma situação especial. Não tenho o direito de fazer isso, isso não posso”, diz.

Sobre Isaltino Morais em Oeiras, Rui Rio diz que está fora de questão Isaltino integrar listas do PSD, mas não é certo que o PSD vá apresentar uma lista própria ao município onde o atual autarca se vai recandidatar como independente. “Há ainda uma grande relação entre Isaltino Morais e os militantes do PSD em Oeiras”.

Questionado sobre metas eleitorais para as autárquicas, Rui Rio recusa números mágicos mas diz que vai “assumir as responsabilidades”. Até porque é o primeiro a elevar ao extremo a importância das autárquicas. “Se tiver um mau resultado assumo a responsabilidade, sou o primeiro a elevar a importância das autárquicas. Não há aqui nada a atenuar, são umas eleições muito importantes para o PSD. Ponto. Não há número mágico nenhum. Eu quero chegar a outubro, ou a dezembro, e ter mais presidentes de câmara e ter muitos mais eleitos. Temos um vereador em 13 no Porto, 2 em Lisboa em 17, 2 em Gaia em 11. Foi aí que levamos uma tareia gigante”, recorda.

“Agarrado ao lugar não estou, estou a fazer um serviço. Estou a fazer um serviço”, repete.

Pandemia. “Não disse ‘não há Natal’ e devia ter dito”

Sobre a resposta à pandemia, Rui Rio admite que concordou com o alívio das medidas no Natal e não o devia ter feito. “Não disse, como Angela Merkel disse, que ‘não há Natal’. E devia ter dito. O primeiro-ministro também devia ter dito, e o Presidente da República também devia ter dito”, afirma.

Sobre a “trapalhada” das vacinas dos deputados, Rui Rio diz que será vacinado quando as pessoas da sua idade forem, mas admite que o processo foi mal conduzido ao nível do Parlamento. Diz que teria concordado que os deputados da Comissão Permanente fossem vacinados, e nesse caso aceitaria ser — “não iria fazer esse populismo” –, mas teria preferido outro critério como a vacinação das direções dos grupos parlamentares. Sem um critério claro, preferiu ficar fora.

Sobre um eventual acordo com o Chega, Rui Rio diz que está confortável com a ideia de o Presidente da República vir a exigir um acordo escrito, tal como Cavaco Silva fez — “e fez bem”, compreendendo que Marcelo não tenha exigido esse mesmo acordo em 2019 por a solução já não ser inédita. “Se houver uma primeira vez de qualquer coisa acho bem que isso seja exigido”, diz. Mas isso é na hipótese de haver acordo, que Rui Rio insiste que, a haver, nunca violará princípio éticos do país e do PSD.

“Nesse acordo que pudesse eventualmente acontecer, nunca poderemos invadir e ferir princípios básicos da Constituição, dos valores do PSD, nunca faria um acordo com quem quer o país fora da UE, ou da Nato, ou que possa ferir o artigo segundo do tratado da UE, que ainda é mais claro do que a Constituição na defesa dos direitos humanos”, diz ainda, voltando a excluir qualquer coligação pré-eleitoral com o Chega, sem nada poder fazer se, após as eleições, algum eleito do PSD decida fazer acordos pontuais com o partido liderado por André Ventura em determinada autarquia.

Questionado sobre a situação da TAP, Rui Rio diz que “há uns meses teria sido melhor liquidar, e nunca devia ter sido feita a nacionalização que foi feita”. Mas recusa rasgar totalmente o acordo. “Teria de olhar para o acordo, mas garanto que o acordo ou era muito mais apertado ou então não valia a pena, senão estaria aqui a deixar uma herança para os portugueses pagarem até quando?”, questiona. O mesmo para o acordo de venda do Novo Banco, que recusa rasgar a qualquer custo, em nome da “responsabilidade”, mas que quer ver apuradas todas as responsabilidades. “Tenho de ter sentido de responsabilidade, mas se auditoria não estivesse pronta e só estiver daqui a um ano, e se fosse preciso pagar antes… teria de pensar”, admite.

Um “elogio” a Passos Coelho. “Desde que saiu falámos, mas pouco”

Questionado sobre os casos de relações familiares no novo governo social-democrata dos Açores, Rui Rio desvaloriza e diz desconhecer o caso. Não se informou? “Falei na altura com o dr. José Manuel Bolieiro sobre outros assuntos e ele disse-me que não era assim, que não havia essa promiscuidade”. Assunto encerrado.

Última pergunta: “Tem falado com Pedro Passos Coelho?“. A resposta sai pronta: “Pouco. Falámos desde que ele saiu e eu entrei, mas pouco”, limita-se a dizer rejeitando avançar conteúdos das conversas. “Isso é da relação dos dois”. Mas deixa escapar um “elogio” ao antigo primeiro-ministro do qual Rui Rio foi muito crítico. “Ele não anda ai, e bem, a meter-se e a falar e a querer intervir”. Vê Passos Coelho a voltar um dia à liderança do PSD? “Isso tem de lhe perguntar a ele, não a mim”.

O líder do PSD foi entrevistado por Miguel Pinheiro, Rui Pedro Antunes e Miguel Santos Carrapatoso. Reveja aqui os principais destaques da entrevista.