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Uma só tentativa, o único a saltar acima dos 17 metros, um apuramento para a final alcançado com a melhor marca tendo apenas mais dois saltadores a fazer mais do que os 16,80 que estavam como mínimo de qualificação. Havia quase uma conjugação cósmica que levava Pedro Pablo Pichardo à primeira grande medalha por Portugal e o luso-cubano tinha quase um caminho para percorrer que fazia destes Europeus de Pista Coberta apenas um ponto de partida para uma época memorável. “Sinto-me bem. A Arena de Torun é muito, muito boa, gosto disto. O meu objetivo aqui é ganhar, o meu objetivo de época é ser o melhor do mundo”, disse. E cumpriu.

Pedro Pablo Pichardo na final do triplo salto dos Europeus de Pista Coberta com melhor registo da qualificação

O primeiro-ministro António Costa já felicitou o atleta pelo resultado obtido este domingo.

Pichardo esteve em destaque nas provas da Liga Diamante em 2020 e começou da melhor maneira o novo ano em Pista Coberta, nos Campeonatos de Portugal: saltou a 17,36, bateu o recorde pessoal que estava fixado em 17,32, fez um novo máximo nos Campeonatos que pertencia ainda a Carlos Calado há mais de 20 anos e ficou apenas a quatro centímetros do melhor registo nacional que pertence ainda a Nelson Évora (17,40). Mais do que isso, deixou um sinal importante para o que se seguia – a regularidade, com cinco tentativas entre 17,11 e 17,36 depois de um primeiro salto nulo. Assim, chegava a Torun de longe com a melhor marca da época, tendo apenas o alemão Max Hess (17,00) como adversário mais próximo. Até o azeri Alexis Copello, segundo do ranking europeu, fez o seu melhor resultado do ano na qualificação dos Europeus com um salto de 16,84.

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Se a estreia em grandes provas pela Seleção trouxe um amargo quarto lugar nos Mundiais ao Ar Livre de 2019, a quatro centímetros de Hugues Fabrice Zango e atrás dos sempre dominadores Christian Taylor e Will Claye, a primeira grande prova continental colocava-o como principal favorito, numa medalha que em termos de carreira teria tanto ou mais significado do que aquelas de prata que conseguiu nos Mundiais ao Ar Livre de 2013 e 2015 e a de bronze que ganhou nos Mundiais de Pista Coberta de 2014 ainda por Cuba – por ser a primeira por Portugal, por ser a primeira na Europa, por ser a primeira de um ano que tem como ponto alto os Jogos Olímpicos.

Pedro Pablo Pichardo termina em quarto e falha medalha na final do Mundial por quatro centímetros

E bastou a primeira ronda de saltos para se perceber o domínio esmagador em causa: Alexis Copello abriu o seu concurso com 16,68, Max Hess passou para a liderança com 16,96, ninguém superou os 16,50 no primeiro salto entre Tobia Bocchi (Itália), Jesper Hellström (Suécia), Adrian Swiderski (Polónia), Dimítrios Tsiámis (Grécia) e Levon Aghasyan (Arménia) e Pedro Pablo Pichardo, numa tentativa onde se percebeu pela corrida que queria sobretudo marcar, chegou de imediato aos 17,30, deixando a concorrência muito longe logo a abrir.

O principal adversário de Pedro Pablo Pichardo era a marca e a tentativa de fazer melhor do que no primeiro salto superando o seu recorde pessoal e também o recorde nacional em Pista Coberta. Depois, Hess e Copello teriam a sua luta pelas medalhas de prata e de bronze, sobretudo depois da melhor marca do ano do azeri que saltou para a segunda posição com 16,98. Por fim, entre os cinco restantes, discutia-se o quarto posto. O luso-cubano teve uma segunda tentativa a 17,09 e um terceiro salto nulo, sendo percetível o risco que estava a colocar para melhorar a sua marca inicial. De seguida, fez 17,06, prescindiu do quinto salto e festejou o título sem voltar a saltar mas a ver um duelo interessante pela segunda posição, com Max Hess a subir para 17,01 e Alexis Copello a responder de imediato com 17,04, antes de Pichardo fazer a segunda melhor marca do concurso com 17,12.

A medalha de ouro estava garantida e Portugal passava a ser apenas o segundo país com duas medalhas de ouro nestes Europeus de Pista Coberta a par da Bélgica, que ganhou os 1.500 metros femininos por Elise Vanderelst e o pentatlo pela inevitável Nafissatou Thiam, tendo ainda mais uma prata no pentatlo por Noor Vidts. Em paralelo, esta foi a terceira vitória de sempre de Portugal no triplo salto masculino em Europeus de Pista Coberta e apenas nas últimas quatro edições da competição, depois dos triunfos de Nelson Évora em 2015 (Praga) e em 2017 (Belgrado), tendo ficado com a prata em 2019 (Glasgow, apenas atrás de Nazim Babayev).

Caiu mas não vacilou: Auriol Dongmo conquista no peso a primeira medalha de ouro de Portugal nos Europeus de Pista Coberta

De recordar que Portugal já tinha conquistado uma medalha de ouro no lançamento do peso feminino por Auriol Dongmo e é candidato também ao pódio na final do triplo salto feminino com Patrícia Mamona. Em paralelo, a Seleção somou resultados acima das expetativas noutras provas, nomeadamente o quarto lugar de Francisco Belo no peso com recorde pessoal e nacional em Pista Coberta; a quinta posição de Carlos Nascimento, naquele que foi o segundo melhor resultado nacional após a vitória de Francis Obikwelu em 2011; o 11.º lugar de Mariana Machado na final dos 3.000 metros depois de bater o recorde pessoal e nacional Sub-23 que pertencia a Jéssia Augusto; o recorde pessoal de Samuel Barata nos 3.000 metros, no terceiro melhor registo nacional de sempre apenas atrás daqueles que Rui Silva e Luís Feiteira conseguiram no passado; e a passagem direta esta manhã de Rosalina Santos às meias-finais dos 60 metros, marca que Lorene Bazolo não conseguiu atingir.

Patrícia Mamona mostra a sua força: melhor marca do ano logo a abrir e qualificação direta para final do triplo salto