O Jane Austen’s House Museum, estabelecido na localidade de Chawton, em Hampshire, na casa onde Jane Austen escreveu alguns dos seus romances mais famosos, quer rever a ligação da família da escritora ao colonialismo e à escravatura e incluir essa informação em exposições futuras.

Em declarações ao jornal The Telegraph, Lizzie Dunford, diretora do museu, um dos lugares mais populares entre os fãs da autora de Orgulho e Preconceito, explicou que “o tráfico de escravos e as consequências do colonialismo do período da Regência tocaram todas as famílias com posses durante esse período. A família de Jane Austen não foi exceção”.

O chamado período da Regência diz respeito ao final da época georgiana, quando o rei, George III, foi considerado inapto devido a vários problemas de saúde e o seu filho, o futuro George IV, assumiu a regência do reino até à sua morte em 1820. O reinado de George III foi no mínimo atribulado — o monarca não só assistiu à Guerra da Independência norte-americana, como testemunhou ainda a Revolução Francesa e as Guerras Napoleónicas. Este período ficou também marcado pela luta contra a escravatura. O movimento era encabeçado em Inglaterra por William Pitt, duas vezes primeiro-ministro, e tinha como principal oponente o próprio rei. A escravatura só foi abolida em Inglaterra e no império britânico após a morte de George III, em 1833.

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Foi na casa onde fica o Jane Austen’s House Museum que a autora de Orgulho e Preconceito passou os últimos 15 anos de vida e onde escreveu alguns dos seus romances mais famosos (Dukas/Universal Images Group via Getty Images)

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Jane Austen não terá sido alheia a estas movimentações — a autora é conhecida por ter defendido posições abolicionistas, mesmo apesar da ligação direta da sua família ao colonialismo e escravatura. Em 1760, 15 anos antes do seu nascimento, o seu pai, o reverendo George Austen, tinha-se tornado administrador de uma plantação de açúcar em Antígua, nas Caraíbas, onde havia escravos. A propriedade pertencia a James Nibbs, amigo dos tempos de faculdade. George Austen tinha estudado em Oxford, onde conheceu a mulher, Cassandra Leigh, que fazia parte de uma família com antigas ligações à universidade.

É esta ligação ao colonialismo da época da Regência que os responsáveis do Jane Austen’s House Museum querem explorar num renovado espaço expositivo, mostrando também que, apesar de ser contra a escravatura, Jane Austen tinha hábitos que estavam diretamente relacionados com o imperialismo britânico, nomeadamente o seu gosto por chá. “Enquanto compradores de chá, açúcar e algodão, [os Austen] eram consumidores de produtos do comércio [das antigas colónias], com as quais tinham ligações próximas através de amigos e familiares”, apontou Lizzie Dunford ao The Telepgrah.

200th anniversary of the death of Jane Austen

O museu tem vários objetos que pertenciam a Jane Austen, incluindo a pequena mesa onde costumava escrever (Anna Tomforde/picture alliance via Getty Images)

As alterações que serão feitas ao espaço ainda estão a ser desenvolvidas mas, de acordo com o mesmo jornal, haverá uma sala intitulada “Black Lives Matter to Austen” (“As vidas dos negros interessam a Austen”), que examinará os ideais abolicionistas da escritora (cujo poeta favorito seria William Cowper, cujos trabalhos foram lidos por Martin Luther King) e como estas e a ligação do seu pai à plantação de açúcar em Antígua influenciaram Mansfield Park. Publicado em 1814, o terceiro romance de Austen aborda questões como a escravatura.

Jane Austen mudou-se para Chawton em julho 1809, com a mãe, a irmã Cassandra e uma amiga, Matha Lloyd. O seu pai tinha morrido em 1806. Austen viveu na casa onde se encontra atualmente o Jane Austen’s House Museum durante 18 anos, período durante o qual publicou todos os seus romances. O local é, por isso, de grande importância para a história da autora e das suas obras, que foram escritas quase na totalidade em Chawton. Austen só deixou a localidade em maio de 1817, quando, após um período de doença, se mudou para Winchester em busca de tratamento. Morreu dois meses depois, a 18 de julho de 1817.

O museu encontra-se atualmente encerrado devido à pandemia do novo coronavírus, mas está disponível uma visita guiada virtual, aqui.