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O número crescente de infeções pelo coronavírus SARS-CoV-2 na Índia deixou os hospitais sem camas, sem oxigénio e sem capacidade de resposta para os milhares de pessoas que procuram assistência médica. Para tornar a situação ainda mais difícil, estão a aumentar os casos de doentes vulneráveis, incluindo doentes Covid-19, infetados com um fungo preto raro que tem uma elevada taxa de mortalidade — cerca de metade das pessoas infetadas morre.

Até domingo já tinham sido registados cerca de 300 casos da infeção, chamada mucormicose, causada por fungos que entram pelas vias respiratórias e se instalam nas cavidades (espaços vazios) do crânio. Quando o sistema imunitário não os consegue combater, como acontece nos doentes com o sistema imunitário debilitado, pode instalar-se na base do cérebro e é nesse momento que o problema se torna sério.

É muito grave, tem uma alta mortalidade e precisa de cirurgia e muitos medicamentos para ser tratada uma vez instalada”, disse Peter Collignon, que faz parte do comité de especialistas da Organização Mundial de Saúde sobre resistência a antibióticos e doenças infecciosas, citado pelo jornal The Guardian.

Estes fungos, do grupo dos mucorales, existem no solo e nas plantas e os esporos podem ser inalados em locais onde existe muita movimentação de terras e poeiras no ar. Mas estes bolores oportunistas também se desenvolvem nas roupas de cama dos hospitais, viajam pelos sistemas de ventilação ou podem ser transmitidos por adesivos.

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Os doentes Covid-19 nos cuidados intensivos, especialmente numa situação de sobrelotação dos hospitais, ou aqueles que são ventilados nos carros (ou onde é possível) com poucas condições de higiene, são um alvo fácil para o fungo, refere o jornal The New York Times. Nos cuidados intensivos, os doentes recebem grandes doses de esteróides para controlar a inflamação associada à Covid-19, mas isso inibe o sistema imunitário e pode justificar que outras infeções tenham oportunidade para se instalar.

Os casos de infeção com o bolor-preto têm sido reportados tanto em doentes Covid-19 como em pessoas que recuperaram da doença, noticia a BBC. Os tratamentos antifúngicos são altamente tóxicos e têm de ser administrados ao longo de oito semanas. Além disso, o doente deve ser sujeito a uma cirurgia para remover o fungo dos locais onde se encontra — por vezes zonas muito sensíveis do cérebro. A BBC reporta, por exemplo, casos de pessoas a quem foi preciso retirar o olho para lhes salvar a vida ou mesmo uma parte do maxilar.

Muitos dos casos reportados são de doentes recuperados de Covid-19, cerca de duas semanas depois da alta médica. Entre os casos é comum encontrar pessoas que são diabéticas — outro fator de vulnerabilidade para a infeção com o fungo — e jovens.

Os médicos reportam ter visto mais casos nesta vaga da pandemia do que nos últimos anos em condições normais — quatro ou cinco vezes mais, disse um especialista em doenças infecciosas à AFP — e indicam que muitas pessoas chegam num estado tão avançado ao hospital que já nem é possível operar. As autoridades nacionais recusam, no entanto, dizer que há um surto no país.

Houve casos relatados em vários outros países — incluindo no Reino Unido, Estados Unidos, França, Áustria, Brasil e México —, mas o volume é muito maior na Índia”, disse David Denning, professor da Universidade de Manchester e especialista no Fundo de Ação Global para Infecções Fúngicas (GAFFI), citado pela Reuters. “E uma das razões é existirem muitos, muitos diabéticos e haver muita diabetes mal controlada.”

Em meados de abril, a Índia ultrapassou as 200 mil novas infeções registadas em cada dia e desde aí não conseguiu baixar essa marca, tendo já, em vários dias, ultrapassado a marca das 400 mil infeções diárias. O número de mortes por Covid-19 registadas em cada dia ultrapassou os 3.000 no final do mês de abril, cerca de duas semanas depois do aumento exponencial dos casos, e nos últimos dias já ultrapassou as 4.000 mortes por dia.

Muitas pessoas morrem sem chegarem a ter qualquer tipo de assistência médica e sem terem um profissional de saúde que lhes possa passar uma certidão de óbito, noticia a Reuters. E muitos dos que conseguem certidão não chegam a ter a indicação da Covid-19 como causa de morte porque nem sequer foram testados para a presença do vírus, o que faz suspeitar, que mesmo a registar metade dos casos de infeção em todo o mundo e 30% das mortes (dados da Organização Mundial de Saúde), as estatísticas reais na Índia sejam ainda mais preocupantes.