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Um armazena memórias, criar pensamentos e gera discursos. O outro produz espermatozoides e é uma parte essencial da reprodução. E poderíamos continuar a enumerar as diferenças entre os dois órgãos — cérebro e testículos —, mas uma equipa liderada e composta por investigadores portugueses assegura que têm mais semelhanças do que poderíamos à partida imaginar.

Compreender as semelhanças e as suas implicações tornou-se um tema de interesse entre a comunidade científica”, escreve a equipa de investigadores na revista científica Open Biology.

Este tópico ainda “subexplorado”, como o descreve a equipa coordenada por Margarida Fardilha, é alvo da atenção da comunidade científica há cerca de 40 anos. Neste tempo, “tornou-se cada vez mais evidente que estes tecidos partilham várias características”, apesar de as diferenças nas funções, forma e estrutura serem claras, diz a equipa liderada pela investigadora do Instituto de Biomedicina da Universidade de Aveiro.

Por incrível que pareça, o cérebro e os testículos humanos são, entre todos os órgãos do corpo, os que têm o maior número de genes em comum, referem os investigadores — o grupo é composto por cientistas das universidades do Porto e de Birmingham. Neste trabalho, compararam o proteoma (conjunto de proteínas) do cérebro, testículos e de 31 outros tecidos do organismo (como tecido adiposo, do pulmão ou do ovário).

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Considerando que são os genes que encerram a mensagem para a produção de proteínas, não é de espantar que os tecidos do cérebro e dos testículos apresentem também proteomas semelhantes. Do total de 14.315 proteínas que constituem o proteoma do cérebro e das 15.687 que constituem o proteoma dos testículos, 13.442 são comuns em ambos os tecidos, verificaram os autores. Mais, entre as 13.193 proteínas dos neurónios e 6.653 dos espermatozoides, 5.048 eram comuns aos dois tipos de células.

O que é que isto significa exatamente a comunidade científica ainda não sabe dizer, mas muito se tem especulado sobre a importância evolutiva dos genes no cérebro e nos testículos dos humanos ou sobre a semelhança entre os processos degenarativos num e noutro órgão.

“Resultados em ratos sugeriram que alterações numa proteína podem ser simultaneamente responsáveis ​​pela desregulação no cérebro e testículo”, escrevem os autores. A inativação do gene da doença de Huntington no cérebro e nos testículos de ratos, por exemplo, leva à degeneração progressiva dos neurónios e à esterilidade em ratos.

Perceber melhor a função e disfunção das proteínas comuns e como podem afetar o cérebro e os testículos, pode ajudar no desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, defendem os investigadores.