Marcelo Rebelo de Sousa marcou esta terça-feira presença no velório de Otelo Saraiva de Carvalho, que considerou ser, independentemente “do juízo efetivo da história”, uma “figura cimeira no 25 de Abril”. O coronel que arquitetou a estratégia militar da revolução morreu no domingo passado, aos 84 anos.

Não havendo tradição de luto nacional na morte de militares de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho não será exceção — apenas António Spínola teve direito a essa homenagem, mas por ter sido Presidente da República. Sobre esse assunto, Marcelo lembrou, em declarações aos jornalistas, que “o Governo tem poder para isso e só ele pode propor” o luto nacional. E afirmou que outras figuras que desempenharam um papel importante na revolução não tiveram luto nacional, como Salgueiro Maia e Ernesto Melo Antunes. Foi para “não abrir um debate sobre vários nomes cimeiros” envolvidos na revolução dos cravos, que o Governo não quis decidir nesse sentido.

Penso que para o Governo pesou o facto de figuras que já referi — Salgueiro Maia e Melo Antunes — não terem recebido essa homenagem. Olhando para trás, é pena que não tenham merecido, na altura não ocorreu”, afirmou o chefe de Estado às portas da Igreja da Academia Militar, em Lisboa.

Questionado sobre a figura controversa de Otelo Saraiva de Carvalho — sobretudo devido à sua participação nas FP-25, organização terrorista de esquerda radical fundada na década de 1980 e que atuou em Portugal durante no período pós-revolucionário —, Marcelo defendeu que “isso é um juízo que a história fará”.

Morte de Otelo sem luto nacional. Costa e Marcelo de acordo em não abrir exceções

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“A história está cheia de personalidades que marcam momentos históricos e que, no entanto, antes e depois, foram controversas e tiveram momentos em que suscitaram paixões e rejeições. Faz parte da história e nós, quando aceitamos a história, aceitamos como um todo.” “Otelo Saraiva de Carvalho teve um papel [no 25 de Abril] para a história”, repetiu, um papel “cimeiro” e “proeminente” enquanto comandante operacional.

Garantido que muitos outros foram importantes no desenrolar da revolução, alguns deles já desaparecidos, Marcelo Rebelo de Sousa reiterou a sua visão sobre o papel de Otelo: “comandante operacional houve um: Otelo Saraiva de Carvalho”.

De acordo com a agência Lusa, ainda antes das 16h que existe uma fila com várias dezenas de pessoas à porta da capela da Academia Militar, onde decorre o velório. Além do Presidente da República, já por ali passou o Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

Costa: “O Estado curva-se perante a memória do coronel Otelo Saraiva de Carvalho”

À saída da capela da Academia Militar, António Costa garantiu que o Estado “tem de procurar manter coerência e consistência relativamente às formas como homenageia aqueles maiores que nos deixam”. Respondendo às questões dos jornalistas sobre o facto de o Governo não ter proposto luto nacional após a morte de Otelo, garantiu que “há formas múltiplas de homenagear os nossos grandes e obviamente o Estado curva-se perante a memória do coronel Otelo Saraiva de Carvalho”. O primeiro-ministro fez ainda uma referência ao passado, ao explicar que “nem todas as figuras têm merecido essa distinção”.

Afirmando que o Governo emitiu “imediatamente” um comunicado na manhã do falecimento, Costa disse ser “inequívoca a forma com o estado homenageia o coronel” e recordou os laços pessoais com a figura do 25 de Abril que morreu no domingo aos 84 anos.

“Tenho especial carinho pelo coronel Otelo”, afirmou, lembrando que quando era criança a mãe foi em serviço mais de seis meses para os Bijagós e Costa ficou sozinho em casa da avó. “O único ponto de contacto que era assegurado entre nós era através do oficial responsável pela assessoria de imprensa do general Spínola em Bissau, que era precisamente o coronel Otelo Saraiva de Carvalho. Era ele que todas as sextas-feiras me ligava com notícias da minha mãe e quando veio ao continente em missão de serviço foi o portador das cartas da minha mãe.”

“O Estado tem de ter critérios consistentes e coerentes”, reiterou. “O importante é não termos uma polémica”, mas sim este ser “um momento de reconciliação em todo o país com a figura do coronel”.

Ferro Rodrigues: “Quem define do luto nacional é o Governo”

A imagem que guarda de Otelo, disse esta terça-feira Ferro Rodrigues, é a “do grande comandante do 25 de Abril de 1974”. Sobre o luto nacional, afirmou apenas que quem o define é o Governo. “Respeito a decisão que foi tomada e compreendo que neste momento essa é uma questão que não se coloca.”

Catarina Martins: “Hoje Portugal está de luto. Governo e Presidente da República não o entenderam”

Já a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, lamentou esta terça-feira que o Governo não tenha decretado luto nacional pela morte do militar de Abril Otelo Saraiva de Carvalho, “um libertador” do país.

“Otelo Saraiva de Carvalho foi um dos obreiros do 25 de Abril, foi o estratega da operação militar que permitiu o 25 de Abril, que pôs fim ao Estado Novo, pôs fim à guerra, pôs fim ao colonialismo e abriu a porta da esperança da democracia, da liberdade em Portugal. Hoje Portugal está de luto, lamentavelmente o Governo e o Presidente da República não o entenderam, mas Portugal está de luto porque como muito bem disse [o ex-Presidente da República] Ramalho Eanes a pátria deve-lhe a liberdade, a democracia e isso ninguém pode recusar ou negar”, afirmou Catarina Martins.

A líder do BE falou aos jornalistas pouco antes de entrar na capela da Academia Militar, em Lisboa, onde esta tarde decorre o velório de Otelo Saraiva de Carvalho, que morreu no domingo.

O facto é que o país está de luto porque perdeu um libertador, um dos homens que nos trouxe a liberdade e a democracia e digam o que disserem o Governo, o Presidente da República, isso ninguém pode negar e por isso Portugal está de luto porque esta é seguramente uma pátria que reconhece o valor daqueles que permitem a liberdade e a democracia”, acrescentou, sem ter respondido a mais perguntas dos jornalistas.

Catarina Martins, acompanhada pelo fundador do BE Luís Fazenda, uma das centenas de pessoas que esta tarde já passaram pelo velório de Otelo Saraiva de Carvalho.

Notícia atualizada às 19h33