O Secretário de Estado da Internacionalização afirmou que Portugal ganhou com a pandemia, já que a Covid-19 foi positiva para a imagem externa do país e a economia reagiu bem.

“Eu vou dizer uma coisa que talvez não seja politicamente correta, nós ganhámos com a Covid-19. E ganhámos porquê? Ganhámos porque Portugal foi um país que, tendo as suas dificuldades, enfrentou a Covid-19 com bastante êxito, dentro daquilo que [foi possível]”, disse, esta quinta-feira, Eurico Brilhante Dias em declarações à RTP3, na Feira de Tecidos de Paris.

Evidentemente, faleceram muitas pessoas, e muitas pessoas passaram muito mal, mas Portugal mostrou ser um país muito organizado, que enfrentou uma realidade muito disruptiva com sucesso. Rapidamente, em 2020, fomos das primeiras economias a reabrir, e a mostrar que a economia estava aberta, e isso teve um efeito positivo sobre a marca Portugal”, explicou o governante.

Neste certame, que terminou esta quarta-feira e durou três dias, estão presentes 53 expositores de marcas portuguesas.

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“Provavelmente esteve a viver noutro planeta”, diz CDS

Perante as declarações do secretário de Estado, Francisco Rodrigues dos Santos considera que Eurico Brilhante “talvez tenha levado a internacionalização longe de mais e provavelmente esteve a viver noutro planeta nestes últimos dois anos”.

“A pandemia foi uma desgraça que se abateu”, frisou, justificando com “o número de mortes, das empresas que fecharam, do desemprego que gerou, da pobreza, e até na dificuldade no acesso a cuidados de saúde”.

“Talvez, pergunto eu, o senhor secretário de Estado quisesse dizer que a pandemia foi uma coisa boa para o PS, porque aumentou a pobreza, tornou as pessoas mais dependentes do Estado e dos seus subsídios, engordou o aparelho do Estado e ainda permitiu ao Governo controlar, na medida do possível, a comunicação social”, atirou o líder do CDS durante uma visita ao centro de saúde de Ramalde, no dia em que se juntou à campanha de Rui Moreira.

Declarações “infelizes” para BE e PAN

Também a coordenadora bloquista, Catarina Martins, considerou “profundamente infeliz” que o secretário de Estado da Internacionalização tenha dito que Portugal ganhou com a pandemia depois do “tremendo sacrifício e sofrimento da população”, recusando pronunciar-se sobre consequências políticas.

“Eu acho que a frase é profundamente infeliz e acho que não devo dizer mais nada sobre isso”, respondeu, por diversas vezes, a líder do BE, questionada a propósito pelos jornalistas no final de uma arruada pela Rua Morais Soares, em Lisboa.

Para Catarina Martins, apesar da satisfação de ser possível avançar agora no desconfinamento, isso não pode “fazer esquecer o enorme sofrimento do país, das vítimas de Covid, do que sofreu tanta gente, das vidas que se perderam, das famílias que sofreram, dos profissionais de saúde verdadeiramente exaustos”.

Apesar da insistência dos jornalistas sobre as eventuais consequências políticas destas declarações, a líder do BE não quis responder.

“Não vou dizer mais do que: É profundamente infeliz alguém que não compreende que, ainda que hoje possamos estar orgulhosos do esforço que a população e o SNS fizeram e que foi extraordinário, não perceba o tremendo sacrifício e sofrimento da população até este momento”, criticou.

No final, interrogada sobre o porquê de não querer dizer mais sobre o tema, Catarina Martins respondeu apenas: “porque estou em campanha autárquica e é campanha autárquica que vou fazer”.

Na mesma linha, questionada sobre as declarações do secretário de Estado da Internacionalização, Inês de Sousa Real considerou que “esse tipo de comentários são profundamente infelizes”.

“A pandemia tirou várias vidas por todo o mundo, não apenas em Portugal (…) Não podemos dizer nunca que uma pandemia desta dimensão é positiva para um país. É profundamente lamentável esse tipo de afirmações”, considerou.

“Já começa a reinar o absurdo”, diz PSD

Por sua vez, o líder do PSD considerou que “tocaram o ridículo” as declarações do secretário de Estado da Internacionalização sobre a pandemia de Covid-19 e criticou o PS por “roçar o absurdo” em fim de campanha para as eleições autárquicas.

“Ouvi o secretário de Estado Eurico Brilhante Dias, em dia que me parece não brilhante para ele, dizer que pandemia [de Covid-19] até acabou por ser boa para a marca Portugal. Isto até toca o ridículo”, observou Rui Rio no concelho do Nordeste, ilha de São Miguel, Açores, região escolhida para o encerramento da campanha nacional do partido devido à conquista social-democrata sobre o PS nas eleições regionais de 2019.

Para Rio, “à medida que a campanha avança e chega ao fim”, os socialistas começam a não ter “muito para dizer e “a inventar”, pelo que “já começa a reinar o absurdo”.

“Acho que, à medida que a campanha avança e chega ao fim, começa a não haver muito para dizer e começam a inventar, mas chegar ao ponto de apresentar António Costa [primeiro-ministro e secretário-geral do PS] como o homem que nos salvou da pandemia e um secretário de Estado dizer que pandemia nem é má, já começa a reinar o absurdo”, afirmou o presidente do PSD.

Mais do que uma imagem de marca, lembra Jerónimo

“Dizer que Portugal é uma marca, tendo em conta a Covid-19, é no mínimo descuidado”, sustentou Jerónimo de Sousa, à margem de uma ação da campanha autárquica, em Montemor-o-Novo, distrito de Évora.

Para o líder comunista, “uma marca onde houve tanto doente e tanto morto nunca é uma boa marca”.

O dirigente do PCP advogou que é também “discutível” dizer que o país é uma imagem de marca, quando ainda “estão por resolver consequências” socioeconómicas decorrentes da pandemia.

Jerónimo de Sousa acrescentou que, “mais do que procurar a imagem de marca”, primeiro é necessário resolver os problemas que persistem no país. Só aí “deve ser reconhecida” a marca Portugal.