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Na sede do movimento “Aqui Há Porto”, em plena Avenida dos Aliados, o sentimento de confiança era grande ao final da tarde, mas as projeções anunciadas às 21h caíram como um balde de água fria. Todos pareciam dar como garantida a maioria absoluta no terceiro e último mandato de Rui Moreira no Porto, mas a dúvida permaneceu até às 4h30, hora em que a contagem dos votos nas sete freguesias foi concluída. O independente conquistou 40,72% dos votos e elegeu seis vereadores, menos um que em 2017, quando foi reeleito para o cargo com maioria absoluta, tendo conseguido 44,46% dos votos.

Sem maioria no executivo municipal, Rui Moreira tem agora como oposição três vereadores eleitos pelo PS, dois pelo PSD, um pela CDU e um pelo BE, que pela primeira vez elege um vereador. Também na assembleia municipal o independente não alcançou a maioria, elegendo 15 mandatos contra oito do PS, oito do PSD, três da CDU, três do BE, um do PAN e um do Chega, partido que chega pela primeira vez a este órgão municipal

Sem saber ainda se conquistaria ou não a maioria no executivo municipal, o presidente reeleito para o seu terceiro e último mandato subiu ao púlpito da sede pelas 2h30 e foi recebido com aplausos, bandeiras e vários cânticos de vitória. No discurso, Moreira não fechou a portas a futuras coligações. “Podemos fazer muitas coisas: pode-se governar em minoria ou pode haver entendimentos com partidos, mas estas coisas não dependem só de um”, afirmou.

Tal como em 2013, o independente vence o Porto sem maioria e abre a porta a futuras coligações

Sobre a possibilidade de criar pontes com outros partidos no executivo municipal, o independente revela não ter decidido ainda o seu parceiro ideal para uma eventual coligação. “Não, não decidi. Aquilo que temos de avaliar é se valerá a pena tentarmos governar sozinhos, ou se haverá condições para chegar a acordo com alguma das forças políticas — não sei dizer. Aliás, acho que elas também não sabem.”

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Sublinhando que o seu movimento saberá interpretar a vontade dos eleitores do Porto, como “sempre” fez, não obstante “a enorme abstenção”, Rui Moreira garantiu que os resultados conhecidos asseguram a governação da cidade e acrescentou que, além de ter vencido nas cinco juntas a que se candidatou, ficando apenas Paranhos de fora para o PSD, teve um resultado histórico em Campanhã, onde apoiou o candidato socialista e atual presidente da junta. “É importante ter obtido um resultado histórico. Para o executivo municipal, nós ganhámos Campanhã”, afirmou.

Questionado sobre o caso Selminho, Moreira salientou que “ao contrário” do que muitos disseram, o tema foi abordado durante a campanha eleitoral, mas “as pessoas confiaram” em si. O autarca prometeu ainda que irá governar “com a representatividade” que os eleitores deram ao seu movimento e salientou “a vitória clara” que alcançou esta noite, conseguindo uma margem que “nunca tiveram relativamente ao segundo classificado”.

PS mantém segundo lugar, mas perde força. Será um bom “ponto de partida” para Tiago Barbosa Ribeiro?

Com 18,02% dos votos, Tiago Barbosa Ribeiro é, depois de Rui Moreira, o segundo derrotado da noite. Pela primeira vez, os socialistas tiveram um resultado abaixo dos 20% na cidade do Porto e perderam um dos quatro vereadores eleitos no executivo municipal em relação a 2017. Ainda assim, no seu discurso, Barbosa Ribeiro preferiu enaltecer o segundo lugar. “Foi um combate muito exigente, foi um combate muito duro e no qual o PS do Porto deu o seu melhor. O PS é o maior partido do Porto e que mantém o segundo lugar nas eleições.”

O socialista afirmou que existe um “claro sinal de mudança” na cidade e sinónimo disso é o facto de Rui Moreira não ter conseguido maioria. “Perdeu muitos votos, perdeu mandatos e portanto, há um sinal claro de mudança e um sinal claro de mudança que se expressa em muitos dos votos que tivemos”, referiu, acrescentando que a vitória na Junta de Freguesia de Campanhã, que teve o apoio do independente Rui Moreira, é do PS. “Só tenho uma palavra. As questões de governabilidade na Câmara do Porto não se colocam”, afirmou, considerando que os resultados das eleições deste domingo não são “um ponto de chegada”, mas “um ponto de partida” para os próximos quatro anos, que vê “com grande motivação”.

Tiago Barbosa Ribeiro perde um vereador no executivo, não chega aos 20%, mas segura o segundo lugar

Sobre uma futura sucessão a Rui Moreira na autarquia pouca se fala ainda no PS do Porto. Há a sensação geral de que a candidatura de Barbosa Ribeiro “uniu” a concelhia, ainda que se mantenha a efervescência latente dos candidatos não assumidos, mas que têm aspirações. José Luís Carneiro continua a ser um homem falado para uma possível candidatura à autarquia, mas internamente não é um nome consensual.

A ambição do atual secretário-geral adjunto do PS de chegar à liderança da autarquia é conhecida, mas Pizarro continua a ter um controlo grande sobre a distrital. Para já, garantem fontes socialistas ao Observador, ainda não há ninguém a posicionar-se claramente para avançar e nem mesmo a saída de Rui Moreira faz os socialistas delinearem, agora, uma sucessão.

Mantém-se a dúvida sobre quanto tempo desempenhará Rui Moreira as funções no próximo ciclo, com o caso Selminho ainda por resolver, mas os socialistas vão-se mantendo na bancada à espera de mais informações recordando que em 2017 Moreira também garantia que era o último mandato (a diferença é que agora tem mesmo de sair). “O tempo político é outro e só daqui a um ou dois anos haverá mais movimentações claras para essa sucessão”, dizem fontes socialistas ao Observador.

PS e PSD de olhos postos nas percentagens de domingo para preparar sucessão de Rui Moreira

“Vão ter que levar connosco estes quatro anos e vamos ganhar o Porto daqui a quatro anos”

Nas últimas eleições autárquicas, o PSD conquistou no Porto pouco mais de 10% e levou Álvaro Almeida a vereador, este domingo Vladimiro Feliz estava obrigado a eleger “no mínimo dois vereadores” e a ficar à frente do PS para que no próximo ciclo autárquico fosse “um candidato vencedor”. O cabeça de lista social democrata falhou um dos dois objetivos: não foi considerado a segunda força política da cidade, com 17,25% dos votos, mas conseguiu eleger dois vereadores no executivo municipal.

No seu discurso, Vladimiro Feliz admitiu uma espécie de derrota. “A viagem ainda não terminou, a viagem começa hoje, aqui. Não é obviamente o resultado que ambicionávamos, mas mostra a vontade que sentíamos nas ruas de mudança.” O social democrata recordou que Rui Moreira, apesar de reeleito pela terceira vez, falhou as metas traçadas de alcançar maioria no executivo e na assembleia municipal, e realça os feitos do partido. “Crescemos em todas as juntas de freguesia, praticamente duplicamos o número de autarcas e vencemos a junta de freguesia de Paranhos, um dos principais objetivos de Rui Moreira.”

Vladimiro Feliz faz crescer o PSD ao eleger dois vereadores na câmara e garante que em 2015 o partido voltará ao poder na cidade

Feliz promete assumir o cargo de vereador e, com Alberto Machado, o seu número dois, concretizar “muitas medidas” anunciadas pelo PSD ao longo dos próximos quatro anos. A pensar na “construção de um Porto futuro”, Feliz admite que a viagem para as próximas eleições autárquicas, em 2025, “começou há seis meses”. “Não tenho dúvidas de que com este sinal que os portuenses deram de querer mudar, daqui a quatro anos o PSD vai vencer as eleições no Porto. Vão ter de levar connosco estes quatro anos e vamos ganhar o Porto daqui a quatro anos.

Dias antes destas eleições, fontes ligadas aos sociais democratas diziam ao Observador que o partido estava obrigado a crescer no Porto e que 20% seria um “resultado digno”, no entanto a pouca margem em relação aos socialistas pode garantir a continuidade de Vladimiro Feliz como cara principal do PSD na cidade.

Sobre a possibilidade de um acordo pós-eleitoral com Rui Moreira parece depender da liderança do partido no futuro, já que com Rui Rio ao comando este cenário é “praticamente impossível”. “Acordo pós-eleitoral nunca esteve em cima da mesa, com Rui Rio enquanto líder haverá sempre uma fricção entre a estrutura local e estrutura nacional. Se Rio deixar a liderança do partido, essa pode ser uma possibilidade mais concreta e viável.