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A estátua que se encontra na sede do canal de televisão BBC, em Londres, foi esta quarta-feira vandalizada por dois homens. Enquanto um deles atingia a obra com um martelo, outro homem gravou tudo em vídeo.

Colocada por cima da entrada da BBC em 1933, pouco depois da sede ser inaugurada, a estátua retrata Prospero e Ariel, personagens da peça The Tempest, escrita por William Shakespeare. A obra de arte foi esculpida por Eric Gill, considerado um dos mais proeminentes artistas e designers britânicos do início do século XX. Tendo morrido em 1940, foi precisamente o escultor, e não os personagens retratados na estátua, que motivou o ataque contra a peça, como alegada forma de protesto.

Isto porque, após os diários de Eric Gill terem sido publicados num livro biográfico pela autora Fiona MacCarthy, em 1989, foi revelado que o artista terá abusado sexualmente das suas filhas.

A estátua já tinha, por isso, segundo o The Guardian, sido alvo de diversas críticas. Em 2013, a BBC recebeu pedidos de vários instituições de apoio a vítimas de abuso sexual para que a estátua fosse removida, mas recusou retirar a obra da sua entrada. O canal britânico justificou a recusa uma vez que considerou Eric Gill como “um dos artistas britânicos do último século cujo trabalho foi largamente exposto nos museus e galerias principais do Reino Unido”.

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A polícia foi chamada ao local às 16h15, tendo o autor do protesto descido do escadote usado para chegar à estátua quatro horas mais tarde, com o auxílio dos bombeiros de Londres. Segundo a própria BBC, o homem terá gritado repetidamente “pedófilo” enquanto atingia a estátua com um martelo.

Após um exame médico realizado numa ambulância que se encontrava no local, o suspeito foi detido por danos criminosos. De acordo com um porta-voz da polícia, os donos do edifício já examinaram a estátua para analisar os danos que a obra sofreu.

Uma semana antes, quatro pessoas que foram acusadas de ter removido ilegalmente — durante os protestos do movimento “Black Lives Matter“– uma estátua do traficante de escravos do século XVII, Edward Colston, viram as acusações contra si serem retiradas.

O incidente aconteceu em 2020, e os suspeitos argumentaram que a remoção se deveu a um protesto contra a estátua de Colson, enquanto parte do direito de liberdade de discurso dos manifestantes, que consideraram um ofensa criminal manter a estátua erguida por se tratar de um monumento ofensivo.

Para a editora de Cultura da BBC, Katie Razzall, “Eric Gil foi um monstro, o pedófilo depravado que abusou das suas filhas e de outros. Mas enquanto escultor ele criou obras magníficas”.