Há já quem lhe chame “exército de Mad Max”, uma referência à saga que começou com um filme em 1979, que teve posteriormente três sequelas (a última das quais, em 2015) e que mostrava uma estratégia de combate peculiar, com recursos a inusitados carros adaptados e equipados com “soldados” a acelerar em campo aberto.

As estratégias militares criativas — mas aparentemente eficientes — da Ucrânia são comentadas há vários meses, mas nos últimos dias intensificaram-se as discussões sobre as táticas de combate das tropas terrestres de Kiev. Em parte, graças a um vídeo publicado há alguns dias na conta oficial do ministério da Defesa da Ucrânia, que traz inevitavelmente à memória cenas dos filmes Mad Max. Não é, porém, o único vídeo que ilustra algo assim — é apenas o mais recente.

Na descrição deste vídeo mais recente, lia-se, aliás: “Isto é um blockbuster, mas não é um filme. Isto é a realidade dos nossos soldados. Humvees ucranianos a avançar sob fogo de artilharia russo em grande escala na região de Kherson. Só o mar pode pará-los”.

O vídeo, informava ainda o ministério da Defesa ucraniano, mostrava “a 59.ª Brigada Motorizada” do país em ação. E intensificava a discussão digital e de especialistas em torno de uma série de termos técnicos, dos Humvees — veículos automóveis multifunções de alta mobilidade, isto é, veículos militares que servem para transporte de cargas e de soldados, podendo ser utilizados também, entre outras coisas, como plataformas de artilharia, plataformas de lançamento de mísseis e unidades de transporte de obuses — aos buggys, ou bugues, estes automóveis de pequeno porte fabricados em fibra de vidro e habitualmente sem portas.

O jornal espanhol El Mundo, por exemplo, descreve-os como “veículos rápidos”, baratos e “artesanais” das Forças Especiais da Ucrânia, usados para “infiltrarem-se nas linhas russas por caminhos secundários” fora das estradas. E nota que o objetivo da utilização destes veículos, que viajam conferindo muito menor proteção aos seus ocupantes do que os tanques de guerra — mas que permitem percorrer distâncias a muito maior velocidade —, não é “reconquistar aldeias” nem “libertar cidades”, mas sim “chegar às estradas ou ferrovias que os russos usam para se abastecer de munições e provisões”.

Notando que “com estes veículos, as tropas de Kiev já chegaram a derrubar inclusive helicópteros russos Ka52” (garantem os ucranianos), o El Mundo acrescenta que os soldados que combatem as tropas do Kremlin “são capazes de os operar durante a noite e durante largas distâncias com luzes apagadas, já que usam óculos de visão noturna providenciados pelos [países] aliados ocidentais”.

“É tudo um pouco Mad Max, mas parece muito eficaz”

Parece consensual no meio militar que esta estratégia de utilizar veículos automóveis ligeiros e rápidos em ataques-relâmpago e em operações tácticas está a ser eficiente. Esta semana, a publicação britânica Forces, especializada em temas militares e das Forças Armadas, publicava um vídeo que procurava responder a uma questão: pode o estilo mad max dos Humvee ser eficaz na Europa em combates futuros?

Lembrando imagens que terão sido alegadamente captadas em Kherson, que mostram veículos automóveis multifunções de alta mobilidade das forças ucranianas a acelerar em campo aberto em direção a posições controladas pela Rússia — com o intuito de  colocar soldados [de Kiev] na linha da frente de combate —, a publicação falava ainda no “sucesso comentado destes veículos rápidos e ligeiros, de ataque, na Ucrânia”, que já “originou algumas questões sobre se uma lição tática pode ser aprendida por outros exércitos no futuro”.

À Forces, um analista britânico de assuntos de Defesa Nacional chamado Nicholas Drummond começava por fazer uma ressalva: “Não conhecemos as origens destes vídeos que têm surgido ou de onde vêm”, mas sabemos que mostram “veículos muito ligeiros a viajar muito rapidamente e a ter um efeito rápido no inimigo, aparentemente nas regiões a sul da Ucrânia”.

É tudo um pouco Mad Max, mas parece muito eficaz. Os ucranianos estão a combater um inimigo que tem défice de treino e equipamento, que perdeu a iniciativa e que tem muito pouca moral. Isso dá ao exército ucraniano uma latitude para fazer coisas que de outro modo não faria. No caso do vídeo em questão, estavam a atacar sem apoio de artilharia, a atravessar campo aberto sem veículos de proteção. Poderia ter acabado em desastre, mas não acabou. Porque foram capazes de se mover tão rapidamente, ganharam a iniciativa para se apoderar do terreno”, apontou este especialista.

O mais recente vídeo é, como referido, uma ilustração de uma estratégia que já está a ser seguida por alguns esquadrões e algumas unidas de combate das Forças Armadas ucranianas há algum tempo. Em junho passado, a mesma publicação britânica, a Forces, publicava um texto com o título “Como as forças ucranianas estão a transformar veículos civis em armas, como nas cenas do Mad Max”.

Este último texto em questão notava que o ministério da Defesa ucraniano publicara a 22 de junho um vídeo de rockets a serem lançados a partir da traseira de uma carrinha de caixa aberta Mitsubishi L200. Lia-se também no texto: “A utilização engenhosa de equipamentos civis e a sua transformação em veículos de combate improvisados é apenas um exemplo das formas engenhosas como as forças ucranianas estão a transformar objetos domésticos do dia-a-dia, dando-lhes um novo sentido e poder militar”.

O que alguns destes veículos improvisados de combate (em alguns casos) e veículos ligeiros de combate (noutros) não têm em “poder de blindagem e de artilharia”, compensam em “velocidade e facilidade quer de reparação quer de utilização”, lia-se ainda no texto.

Aparentemente, excluindo-se daqui os buggys (tipo de automóveis muito específicos, habitualmente sem portas) e a versão mini (apenas dois lugares) desses buggys, os automóveis e carrinhas civis mais fáceis de transformar em veículos de combate improvisado serão os modelos Ford Ranger, Mitsubishi L200s e Toyota Hilux.

A 12 de junho, a publicação Business Insider dava a conhecer uma parte dos responsáveis pela chegada de automóveis e carrinhas de combate improvisados ao exército ucraniano. Descrevendo-os como “uma equipa internacional de voluntários” composta por ucranianos, outros europeus e norte-americanos, liderada por um ucraniano de 25 anos chamado Ivan Oleksii, sintetizava também o trabalho deste grupo: transformar veículos civis em carrinhas de combate para servir o exército ucraniano.

Na altura da publicação do texto, o site de crowdfunding, Car4Ukraine, criado por esta equipa de voluntários, que garante “comprar, adaptar e entregar” as carrinhas, tinha 60 veículos já transformados e adaptados e 15 a serem adaptados e em vias de serem fornecidos às unidades de combate do Exército Ucraniano. Hoje, passados quatro meses, serão já 125 as carrinhas de combate improvisadas entregues e 31 estarão em vias de o serem.

À Business Insider, Ivan Oleksii detalhava o trabalho de transformação de veículos que é feito: mecânicos e engenheiros voluntários trabalham de modo a garantir à carrinha uma proteção para morteiros e fogo de projéteis. É acrescentado um suporte na traseira do veículo para metralhadoras ou para armas anti-tanques JAVELIN, NLAWs e Stingers. E é também adicionada uma segunda camada de placa de metal ao chassi da carrinha, para maior proteção de quem a opera.

Chad vs Líbia, “A Guerra Toyota” que serve de antecedente

Estas estratégias e técnicas militares podem parecer novas, mas não são. De acordo com a publicação norte-americana Task & Purpose, especializada na indústria de Defesa Nacional e em Forças Armadas, “armar carrinhas e outros veículos [civis]” foi uma estratégia muito usada “na última fase da guerra entre a República do Chade e a Líbia”, de 1978 a 1987.

Esta fase do conflito entre estes dois territórios ficou aliás conhecida como “Guerra Toyota” ou “Grande Guerra Toyota”, acrescentava a Task & Purposes. Os termos ficaram conhecidos devido à República do Chade ter recebido de França perto de 400 veículos Toyota Hiluxe, que foram adaptados para poderem ter sistemas de suporte para armas e lançamento de mísseis anti-tanques. E “foram tão eficazes que Chade não só forçou a Líbia a sair do país e conseguiu apreender uma importante base aérea, como as tropas de Chade iniciaram um ataque à Líbia”. Foi “possivelmente a operação militar mais próxima do Mad Max que vimos no século XX”, refere a mesma publicação.

Tanto os líbios aprenderam com isto que sem a utilização de carros de combate improvisados seria impossível explicar detalhadamente os acontecimentos na Guerra Civil da Líbia “e o caos que se seguiu no país”, acrescentava a Task & Purposes.